Vida de Imigrante - Prendas Domésticas




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Nos idos de 1900 e lá vai contagem regressiva, havia as prendas domésticas. Matéria reconhecida e obrigatória nas escolas de antanho, as estudantes aprendiam artes tais como tricô, crochê, bainha aberta, matiz, ponto cheio, ponto aberto, numa longa lista de habilidades essenciais para a boa educação de uma jovem prendada.

Hoje, quem quiser aprender a lidar com as agulhas, tem que pagar cursinhos especializados. Tive uma professora na aula de bordado carregava uma minúscula tesourinha dourada pendurada no pescoço. As pobres alunas bordavam, bordavam; vinha ela com a tesourinha, e cortava um único fio - um único clique, e tinha que ficar horas desmanchando tudo.

Como nos descuidos da vida, nas prendas domésticas dá muito mais trabalho desfazer do que fazer. Em Alegre, as vizinhas prendadas se reuniam na calçada, finzinho de tarde, para tricotar - havia sempre um inverno à frente. Minha mãe tricotava um suéter verde, que aliás usou por muitos e muitos anos e as filhas herdaram - trabalhos de linha e agulha são duradouros.

Eu pegava a suéter às escondidas e levava para a aula de bordado. Tricotava a aula toda, e quando voltava para casa, desmanchava meus pontos mal feitos e punha no mesmo lugar. Minha mãe pegava o trabalho, olhava, e a pergunta era inevitável - Quem mexeu no meu tricô? Eu negava, ela tricotava um pouco mais, eu levava para a próxima aula. Talvez por remorsos, acabei também maníaca pela arte de tricotar.

O ponto cruz, hoje tão em moda, não era ensinado nas escolas por ser considerado um trabalho menos nobre. Hoje em dia as artes de linha e agulha não são muito indicadas pelos médicos porque atrapalham a postura, forçam a vista, e as horas gastas sentada seriam melhor aproveitadas num exercício físico qualquer. Quero dizer, boas para a alma, mas não para o corpo.

Num tempo sem televisão, as novelas de rádio eram acompanhas com um trabalho nas mãos - aliviavam a agonia nos momentos de tensão e ajudavam a passar o tempo na hora da propaganda. A tevê, exigindo o uso da visão, matou esse hobby, e os bordados caíram de moda. A indútria de confecção deu o golpe de misericórida, com tecidos e máquinas de bordar que imitam quase perfeitamente os trabalhos manuais.

Quase... ainda há relíquias por aí atestando a excelência e durabilidade dos trabalhos manuais, em um tempo em que as jovens bordavam pacientemente, à espera do príncipe encantado. Os bordados e os casamentos eram então feitos para durar. Mas ainda tem muitas jovens com "mãos de fada" que não deixam esse antigo hobby desaparecer. Mesmo em tempos de casamentos forjados na Internet e enxovais descartáveis.