A saúde pública no chão




O governo vive dizendo que está de cofre cheio. Que equilibrou as finanças, aumentou a arrecadação e atraiu novos investimentos. Vive-se, enfim, o advento de um novo Espírito Santo.

Como explicar, então, a grave crise da saúde pública? Por que quase cem doentes se amontoam nos corredores do Hospital São Lucas por falta de leitos? Para onde está indo todo esse dinheiro?

O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), Fernando Costa, atribui à crise problemas de má gestão e falta de investimentos. E o secretário estadual de Saúde, Anselmo Tose, reage dizendo que, comparada à de outros estados, a situação no Espírito Santo é confortável.

Não é, não. Doentes sendo atendidos no chão, como viu o presidente do CRM, não recomendam um governo que em suas peças promocionais se diz preocupado com as questões da saúde.

O CRM vai comunicar os fatos constatados em sua inspeção aos ministérios públicos Estadual e Federal, com pedido de providências para que se ponha um fim à humilhante situação vivida por quem depende do governo para cuidar da própria saúde.

Impedir o acesso da imprensa às dependências do Hospital São Lucas não nos parece medida adequada para manter a opinião pública alheia à crise. Porque a crise é visível a olho nu. Já na recepção do hospital se lê que "pacientes no corredor não recebem visitas". Ou seja, há, oficialmente, doentes sendo atendidos no corredor. E onde há doentes sendo tratados assim há crise. Há descalabro. Há má gestão. Há caos.

Considerar confortável essa situação, como considera o secretário de Saúde, Anselmo Tose, soa como deboche, ou desrespeito. O que há de confortável, por exemplo, na situação vivida não por um paciente, mas por um acompanhante, o cidadão Paulo de Souza, que está desde domingo acompanhando um amigo internado no corredor do hospital. "Tentei sair para comer algo ontem (2) à noite, mas o segurança disse que não podia. Falei para ele que não agüentaria ficar ali sem comer".

Paulo é o personagem principal da matéria em destaque nesta edição. Seu depoimento à repórter Isabela Araújo joga por terra toda e qualquer explicação que o governo venha a dar sobre a trágica rotina do Hospital São Lucas. Para o presidente do CRM, "estamos à beira de um colapso".

O Ministério Público, nas instâncias estadual e federal, precisa forçar o governo a trabalhar no sentido de resolver a crise. Porque, até aqui, ao que tudo indica, ele tem apostado na banalização da crise, a exemplo do que vem fazendo com a questão da segurança pública. Do contrário, cairemos no conformismo, como o personagem da repórter Isabela Araújo constatou em sua primeira noite como acompanhante de um doente jogado no corredor do São Lucas. "Os pacientes nem reclamam mais, acho que estão conformados com o chão".

Que horror!