Os jornais informam que o autor do livro "O caçador de pipas", Khaled Hosseini, estaria em Miami para lançar seu novo livro, "Thousand Splendi Suns". Num domingo, portanto, nada mais conveniente. Uma tarde de autógrafos americana é bastante ativa. O autor não apenas autografa, mas ainda lê um capítulo do livro e responde perguntas da audiência.
Essa aventura cultural tem seu preço. Para participar é obrigatória a compra do livro, por pessoa. Quer dizer, um grupo de cinco teria que comprar 5 livros, mesmo que da mesma família. Cheia de esperanças, eu já imaginava não apenas conhecer a personalidade, como talvez, com sorte, conseguir uma breve entrevista para o seculodiario. Em se tratando de tal nome, algumas perguntas, mesmo que poucas, seriam a glória.
O domingo chega sorridente e ensolarado; é verão no paraíso tropical ao norte do Equador. O local é distante e saímos cedo, queríamos um lugar bem próximo da celebridade. Mal entramos no carro e um temporal desaba. Chamá-lo de temporal é elogio. Uma tempestade tropical que mais parecia um furacão. Passávamos por ruas vazias vendo folhas voarem das palmeiras como se fossem as pipas do autor.
Foi quando GL descobriu que estava sem gasolina. Procuramos um posto com ampla cobertura, mas nenhum passava por nós. O jeito foi parar num posto onde as bombas se encolhiam sob uma esquálida cobertura. Não sei se é do conhecimento de todos, mas não temos a chamada profissão de frentista. Cada um sai do seu carro e o abastece sozinho.
Mesmo açoitados por uma tremenda chuva de vento, era ainda preciso correr até a lojinha de conveniências para pagar o combustível, antes de jogá-lo nas entranhas do carro. Claro, GL tomou um banho. Suas roupas ficaram tão ensopadas que era impossível se apresentar numa tarde de autógrafos de um autor mundialmente famoso.
O jeito foi voltar para casa, trocar de roupa, e prosseguir na direção sul, até o templo judeu onde o evento ocorreria. Ocorreria, pois depois de tantas peripécias, quando finalmente achamos o endereço, lá não havia ninguém. A grande questão era, erramos o endereço, ou ninguém quis enfrentar o temporal? Foi para resolver esses impasses que inventaram os celulares.
Um breve telefonema e somos informados que o grande evento foi cancelado; Hosseini não veio a Miami. Desiludidos, perguntamos pelos dois livros já pagos. "Mandaremos pelo correio", e mais não foi dito nem explicado. Em se tratando de escritores e seus escritos, mesmo num país de muitos leitores, voa no ar entre pipas coloridas mais essa dúvida - o evento foi cancelado por causa da chuva ou por falta de vendas?
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