Vitória (ES), edição de 03 de julho de 2007
 
Caos na Saúde: CRM critica má gestão e falta de
investimentos, mas Tose acha situação confortável

Isabela Araújo

"Não insista. Pacientes no corredor não recebem visitas". O aviso, escrito à mão, está bem à vista de todos na recepção do Hospital São Lucas, onde uma inspeção do Conselho Regional de Medicina (CRM) constatou haver uma rotina diária trágica: pacientes nos corredores, muitos deles no chão, enfermos aguardando internação, familiares tentando entrar para visitar doentes, desorganização no atendimento a essas famílias e uma força policial na porta impedindo a entrada de jornalistas e visitantes indesejados. Entrar ou mesmo sair do São Lucas é quase uma missão impossível. Foi o que atestou Paulo de Souza (destaque na foto da entrada do hospital), que está desde domingo acompanhando um amigo internado no corredor do hospital. "Tentei sair para comer algo ontem (2) à noite, mas o segurança disse que não podia. Falei para ele que não agüentaria ficar ali sem comer". Paulo disse ainda que é servido um lanche ao acompanhante, mas são cerca de 27 horas de espera até ser rendido por outra pessoa. A crise no São Lucas é resultado, segundo o presidente do CRM, Fernando Costa, da falta de investimento e má gerência do governo do Estado. Mas, para o secretário estadual de Saúde, Anselmo Tose, a situação "é mais confortável do que em outros estados".

O presidente do CRM entende que "estamos à beira de um colapso" e que "é preciso tomar uma atitude enérgica". Nesta segunda-feira (2), o conselho realizou uma inspeção no hospital e a situação dos pacientes causou indignação a Fernando Costa, que em entrevista chamou o governador Paulo Hartung para ver situação precária dos doentes.

O governo não atendeu às sugestões do CRM, não declarou estado de emergência no hospital e nem foi até lá ver as péssimas condições dos mais de 90 pacientes estendidos no chão. "Desde ontem tudo está muito tranqüilo por aqui. Os pacientes nem reclamam, acho que estão conformados com o chão", observou Paulo de Souza.

No pouco tempo que está no São Lucas, Paulo diz estar se acostumando com o fato de ver médicos, enfermeiros e auxiliares passarem a todo momento sem dar atenção aos doentes. "Não culpo essas pessoas, não. Acho até que eles fazem o que podem para ajudar. Mas tem muita gente aqui. Gente em péssimo estado. Dou graças a Deus que meu amigo não está tão mal".

Com a equipe médica e auxiliares trabalhando no limite, os doentes não têm acompanhamento adequado e são amparados por pessoas como Paulo, que se deparam com situações críticas sem qualquer preparo. "Já aconteceu comigo duas vezes. Teve um rapaz que foi atropelado e teve os braços e pernas quebrados. Ele precisava ir ao banheiro e não tinha ninguém para levá-lo. Como ele me pediu ajuda, não tive como negar. E, quando estava na porta do banheiro, uma enfermeira se aproximou e me disse que estava observando para ver até onde eu ia", conta.

Em outro caso, Paulo precisou auxiliar uma senhora com derrame cerebral. "Ela tossia muito e, como já tinha visto a enfermeira fazer, virei o rosto dela. Só que a mulher desmaiou e eu não sabia o que fazer. Chamei uma enfermeira que passava na hora, mas ela se recusou a atender meu pedido dizendo ser de outro setor".

O secretário de saúde do Estado, Anselmo Tose, disse à imprensa que a crise no São Lucas é também culpa dos médicos. A eles, Tose atribuiu a falta de paciência com o sistema de saúde pública. Outro culpado de um problema que o secretário classificou como "crônico" é o governo federal, que investe apenas um terço em saúde, enquanto que o Estado investe dois terços. O secretário afirma que a situação da saúde pública no Espírito Santo "é mais confortável do que a de outros estados. Pois foram investidos no sistema cerca de R$ 500 milhões, bem mais se comparados aos R$ 232 milhões de 2002.

Sbre a declaração da Secretaria do Estado de que o governo federal é responsável por investimentos na saúde do Estado, Fernando Costa afirma que o Estado tem o dinheiro necessário para conter o caos na saúde pública e que o processo de liberação dessa verba é bem menos burocrático. "A sugestão para a crise o CRM já deu. É preciso ser mais enérgico nessas ações para retirar a população dos corredores do hospital. Não dá para atender um paciente com dignidade se ele está no chão".

Para Fernando, a transferência para outros hospitais também não é solução, já que a rede pública está lotada. Neste caso, o governo precisa mudar drasticamente de atitude, ao invés de colocar culpa no governo federal. "Nosso relatório fica pronto em três dias. No documento avaliamos todos os setores do hospital, além de fazer sugestões para as melhorias em cada um. O próximo passo é encaminhar o documento para os ministérios públicos Federal e Estadual, além da Secretaria Estadual de Saúde".

Enquanto a situação não é resolvida na esfera estatal, Paulo aguarda na recepção do São Lucas para mais dia de espera nos corredores do hospital. "Acho que o pior momento é ver os corpos passarem rumo ao necrotério, me arrepio todo". Ao contrário de Paulo, que pode ficar ao lado de seu amigo acidentado, outros doentes, ou melhor, aqueles que estão internados no corredor, não podem receber seus parentes e amigos. É o que diz a regra, escrita à mão e afixada na vidraça da recepção: "Não insista. Pacientes no corredor não recebem visitas".