A convenção do PMDB, no último domingo, foi um marco na história das relações políticas da era Hartung. Pela primeira vez em quatro anos e meio, alguém ousou enfrentar a força descomunal que o governo reuniu para dominar o Estado, subjugar a classe política e tocar seu projeto de hegemonia com previsão para perdurar pelos próximos vinte e cinco anos.
Esperavam os seguidores de Hartung deixar registrado nos anais do PMDB capixaba um massacre contra a ousadia de Marcelino Fraga, impedindo que seu grupo obtivesse qualquer conquista pelo voto dos convencionais. Para isso, seria necessário que o desafiante não passasse dos 10 por cento dos votos.
Mas, contrariando todas as previsões, ele conseguiu 21 por cento. E assim, para o público interno, Marcelino deixou a marca do seu protesto na ata da convenção, com representantes eleitos de seu grupo. E, para efeito externo, cunhou a frase que muitos gostariam de dizer mas que não tiveram de fazê-lo: o domínio do Estado pelo governador é feito pelo medo.
Sua luta, evidentemente, deitará raízes na vida política do Espírito Santo, pois demonstrou que o poder de intimidação do governador não é absoluto e pode ser enfrentado.
Que lições se pode tirar do episódio?
São muitas. A principal, nos parece, diz respeito à área administrativa. Uma área que fala de perto aos interesses da coletividade. Parece ter chegado a hora, finalmente, de o governo dizer a que veio.
Ele não pode ficar o tempo todo guerreando, a lançar mão de expedientes intimidatórios apoiado em instituições que mantém sob controle absoluto, como a cúpula do Ministério Público Estadual, com o único objetivo de abater adversários. Precisa governar. E já.
Governar, no seu caso específico, significa contemplar setores importantes da administração que se acham abandonados, como a Saúde, a Educação e a Segurança Pública - a primeira vivendo a pior crise de sua história (com o caos reinando nos hospitais públicos), a segunda registrando uma absurda queda no número de matrículas (algo inédito em nossa história) e a terceira ganhando diariamente as manchetes (com números cada mais alarmantes sobre a violência).
Sem dúvida alguma, foi grande o desgaste do governo no episódio da conquista do PMDB. Como igualmente grave foi o arranhão em sua imagem na rocambolesca nomeação do Cabo Elson para uma assessoria do Gabinete Civil.
Na convenção peemedebista vimos o emprego de formas condenáveis de ação política que julgávamos banidas da vida institucional brasileira - algo só comparável ao período ditatorial vivido pelo País, como destacou Marcelino Fraga. E na cooptação do Cabo Elson acabou indo para o lixo todo o discurso que o governo utilizou nesses quatro anos e meio como seu escudo ético e moral.
Sem qualquer propósito de isentar Marcelino Fraga de responsabilidade em eventos que o colocam como suspeito de envolvimento em irregularidades, não há como negar-lhe, neste espaço, o mérito de haver desnudado o rei.
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