Lamentável e sinistro





Rogério Medeiros

Com a sua chapa de resistência na disputa pelo Diretório Regional do PMDB, o ex-deputado e ex-presidente do PMDB Marcelino Fraga deu inicio a um novo ciclo político no Estado: o de não ter medo do governador Paulo Hartung.

Nessa disputa, Marcelino expôs o governo ao máximo. A começar pela coação sobre os convencionais. Ganharam o diretório dele na base da truculência política. Usaram de tudo. A começar pela intervenção em 21 diretórios feitas pelo atual presidente da Assembléia e que vinha respondendo pela presidência do partido, deputado Guerino Zanon.

O episódio deu noção exata do abismo que separa o governador Paulo Hartung das práticas democráticas. Lamentável e sinistro porque é feito à luz do dia e diante das instituições que deveriam zelar pelas liberdades democráticas.

Logicamente que há nisso muito de covardia da classe política. Do medo, sobretudo, de levar na cara uma denuncia do Ministério Público, através dos seus falcões (refiro-me à cúpula da instituição, para não ser injusto com a categoria), melhor parceiro de PH na conservação do medo que emudece a classe política capixaba.

O tempo estica o arbítrio de PH. Vejamos nesse episódio do PMDB onde ele impôs à presidência do partido o seu herdeiro político, o deputado federal Lelo Coimbra. Despachou emissários para cima dos delegados com visitas de natureza beligerante: mudança do voto. Emissários diferenciados na prática dos antigos jagunços dos coronéis da roça apenas no traje e no século.

A prova está também na resistência daqueles que não quiseram votar no Lelo. Como se estivessem evitando a sala de tortura, não vieram à convenção. Atitude tomada pelos delegados dos diretórios de Anchieta, Boa Esperança, Água Doce, Itarana e Jerônimo Monteiro. Igualmente pelo deputado estadual Luiz Carlos Moreira, dono de dois preciosos votos.

Em realidade, o papel exercido pelo ex-deputado Marcelino Fraga, nesse episódio do PMDB, desnudou o habitual processo de PH em controlar a vida política do Estado através do medo. Realmente, o rei ficou nu, pois a vitória não contou com a mínima sensação de triunfo, mas tão somente como resultado do terrorismo político em prática no Espírito Santo.

Fragmentos
1 -Para não dizer hilariante, mas simplesmente surpreendente, foi a reação do governador Paulo Hartung à nomeação, pelo seu governo, do ex-deputado estadual e ex-integrante da CPI do Grampo Cabo Élson. Ao dizer que o ato é de responsabilidade do seu chefe do Gabinete Civil, Sérgio Aboudib, PH contraria a prática de que nada acontece no seu governo sem o seu consentimento ou sua iniciativa.

2 - Aliás, até há quem exagere nesses poderes ilimitados do governador, dizendo que não cai uma folha nesse Estado que não tenha a mão dele. Voltando ao episódio do Cabo Élson: imaginem se alguém seria capaz, no seu governo, de nomear o Cabo Élson sem o seu consentimento. Essa não pega.

3 - Jogou o caso numa comissão de ética, que criou no seu governo, mas, quando chegou na manhã desta segunda-feira (9), o governo desfez o ato e voltou atrás na nomeação do Cabo Élson. Não resistiu à má repercussão do ato. Como diz o velho bordão, antes tarde do que nunca. Mas, tratando-se do governo de PH, ficou a nódoa.