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Foto: Divulgação
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| Toucador (2002)
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Se, por um lado, a opção pelo gráfico pode sugerir um certo ilusionismo, confundindo o espectador acerca da fronteira entre o amplamente reprodutível e o artesanal, por outro, Júlio Schmidt assume o caráter cenográfico de seu trabalho artístico, numa espécie de diálogo com os anos de trabalho em atelier, atendendo trabalhos de encomenda na função de cenógrafo.
Na coletiva
5031 (Galeria Espaço Universitário, 2002), o trabalho
Toucador, uma reprodução em tamanho natural da peça de mobiliário homônima, apresenta, em sua superfície branca, duas pinturas de utensílios femininos (um alicate de unhas e um removedor de cutículas), posicionadas como se fossem objetos reais, recém-utilizados. O objeto, de alvura imaculada e entalhamento quase rococó, chegam a sugerir que talvez se trate de uma peça de gesso moldado. Contudo, a etiqueta de identificação da obra, desmascara essa certeza efêmera: isopor, massa corrida, papelão e tinta acrílica, estes são os materiais que compõem o trabalho. A idéia, segundo Júlio, seria a de
construir um suporte que financeiramente não valesse nada, que funcionasse apenas como uma tela, para que algo fosse pintado por cima. Desse modo, a etiqueta de identificação é incorporada ao trabalho, por denunciar a natureza do suporte em que a pintura se faz:
"Faço questão dessa descrição de materiais no meu trabalho, para evidenciar o cenográfico, revelar de que é feito o suporte, o que é maquiado".
Júlio destaca essa postura de se anular conscientemente o valor de venda da obra ao revelar a natureza desses materiais. A intenção é a de quebrar o encantamento do espectador mais atento, ao fazê-lo perceber, no momento da leitura da etiqueta, que o que aparentava ser gesso era meramente papelão submetido a um cuidadoso e quase obsessivo processo de
make up. Ou ainda, no caso do suntuoso
Alma de Flores, apresentado na mesma
5031: "cartonagem com revestimento de cetim e pintura sobre tecido".
Os títulos das obras, muitas vezes escolhidos por sua banalidade, também buscam quebrar esse encantamento inicialmente proporcionado pela exuberância visual da pintura - vale lembrar o nome das telas vencedoras do Salão Capixaba do Mar em 2001:
Atum sólido ao natural em água e sal,
Sardinhas ao molho de tomate,
Sardinhas em molho comestível, bem como
Toucador,
Azulejos e todos os mantimentos que emprestam seus nomes aos trabalhos da série
Rótulos.
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Foto: Divulgação
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| Alma de Flores (2002)
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Para a coletiva
Deus, realizada no Centro de Artes da Ufes em 2002, Júlio apresentou um objeto (sem título), que poderia ser considerado talvez um utensílio de cozinha, uma espécie de porta-ovos. Projetado e construído pelo próprio artista, o objeto consiste numa galinha de madeira, própria para ser pendurada na parede e cujas pequenas prateleiras servem de suporte para ovos de galinha caipira pintados, contendo minúsculos decalques floridos envernizados, desses que antigamente eram vendidos em papelaria.
"A pintura recobre o decalque e o integra ao ovo. É uma pintura de cobertura, com tons próximos aos de pele de boneca, cor rosa-alaranjados-pastel. Na verdade nehum dos ovos estava exposto em sua cor original. Todos foram repintados" , explica Schmidt.
Contudo, esse minucioso trabalho foi aplicado sobre cascas de ovos previamente perfuradas e esvaziadas de seu conteúdo. O trabalho está calcado nessa natureza assumidamente ilusionista e cenográfica que o artista estabelece com o ato de pintar, transposta aqui para a esfera intimista, introspectiva do lar.
Desse modo, podemos perceber que Júlio Schmidt utiliza a pintura não como produto final de sua investigação, mas como uma ferramenta de um fazer artístico muito mais conceitual que representativo. Por mais que o produto final encante por sua beleza visual e tátil, a aplicação da pintura aqui se assume como um ponto de partida para uma profunda reflexão do próprio
modus operandi do artista, com suas produções cenográficas da intimidade.
E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com
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