Vitória (ES), edição de 01 de junho de 2007    
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A escuridão da felicidade



Leonardo ViSo
Foto capa: Caliari



  
Foto: Caliari
  
Cena da peça Nosferatu

Você é feliz? Por favor, não me venha com essa história de que é. A sociedade te aceita do jeito que você é? Mentira, você sabe que não. Será que você não está eternamente em busca de uma felicidade que não existe ou de uma aceitação plena que jamais virá? Imagine se essa jornada fosse infindável? Nosferatu tinha a eternidade para correr atrás dessas questões, mas quem disse que ele conseguia. Não é pessimismo, só um pouco de drama e muita viagem minha. Talvez, o palco seja melhor "escurecer" isso.

No momento em que Diego Amaral e Marcelo Ferreira, da Companhia de Teatro Urgente, subirem no palco do Theatro Carlos Gomes nesta quarta-feira (11), na estréia do espetáculo Nosferatu, algumas respostas devem começar a surgir, mas provavelmente - e felizmente - mais dúvidas vão perturbar a mente de muita gente. Até lá, vamos falar um pouco da peça - não que os devaneios tenham acabado.

Nosferatu é antes de tudo o desenvolvimento de um estudo de linguagem cênica elaborado por Marcelo Ferreira. "Venho fazendo pesquisa dentro da linguagem cênica, trabalhando entre outros elementos com o gestual e também com o expressionismo", explica Ferreira. Sim, a temática de Nosferatu (a peça) tem influência de Nosferatu (os filmes).

  
Foto: Divulgação
  
Nosferatu (1922), de F. W. Murnau.
Há inclusive uma projeção de imagens da versão de Werner Herzog, de 1979. Também traz referência à versão de 1922, do diretor Friedrich Murnau, um clássico do expressionismo alemão. "Uso de gestos exagerados, posturas complicadas, bem expressionista. Uso o texto e o corpo de maneira diferenciada. É uma peça complexa para quem trabalha nela", explica.

O diretor explica que a princípio tinha pensado a peça com um monólogo. Porém, a temática envolvendo vampiro exigia mais um ator. A cenografia é minimalista e a iluminação trabalha com sombras e deformação dos objetos - mais expressionismo. A trilha base é Ilha dos Mortos, do compositor russo Serguei Rachmaninov. Também tem música de Beethoven, entre outros.

Para quem não sabe, o filme Nosferatu é baseado no livro Drácula de Bram Stoker. Problemas de direitos autorais entre o Murnau e a família do escrito fizeram que o nome e outras características fossem alteradas. Ainda assim, a justiça ordenou a destruição das cópias do filme. Algumas foram guardadas e posteriormente distribuídas. Se tivesse You Tube em 1922 o "estrago" teria sido bem maior.

Quem sair do teatro após as apresentações terá a possibilidade de sofrer. "As pessoas precisam pensar, precisam de um pouco de drama e não só de comédias no teatro. É um drama. Até tem um certo deboche em algumas cenas", conta Ferreira. Mas, o público vai mais a comédia, senhor diretor. Marcelo Ferreira é enfático: "Eu me dou o luxo de ousar. Independente do público, eu vou levar a minha pesquisa adiante. Não brinco de fazer teatro. Minha vida é toda ligada ao teatro".

  
Foto: Divulgação
  
Nosferatu - O Vampiro da Noite (1979), de Werner Herzog
Lembram que tudo começou com perguntas sobre felicidade? O texto de Nosferatu trabalha com a idéia de que "até quem tem a vida eterna não é feliz". Não, não é o vampiro que diz isso. Ele só ilustra o que Freud "explicava" como "mal estar da civilização". Não existe felicidade e sim formas de burlar esse mal estar. "Pego um personagem lendário e trago para hoje para discutir questões com aceitação social", revela Ferreira.

A postura do personagem é muitas vezes de ir atrás dessa aceitação que o ser humano busca (e exige) em demasia. O diretor garante que não se trata de uma peça hermética. "É uma obra aberta. Depende da formação do espectador. Ele pode se ligar à estética do espetáculo ou perceber as referências que o texto faz. É para assistir quieto, viajando e deixando o sentimento fluir", esclarece, ou melhor, escurece.



Serviço
A peça Nosferatu, da Companhia de Teatro Urgente, com direção de Marcelo Ferreira, estréia nesta quarta-feira (11), às 21h, no Theatro Carlos Gomes, Praça Costa Pereira, s/n, Centro, Vitória. Ingresso: R$ 10 (inteira). Elenco: Marcelo Ferreira e Diego Amaral.


 

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