Vitória (ES), edição de 10 de julho de 2007    
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O avesso do avesso...



Felicia Borges


  
Foto: Divulgação
  
Em meados dos anos 60, a realidade da comunicação de massa, a experiência urbana radical e a resistência ao regime militar foram traços decisivos da literatura produzida no país. O engajamento político tornou-se praticamente um sinônimo do ato de fazer literatura. Enquanto os meio convencionais estavam bloqueados, escrever romance, naquele período, era quase uma atividade subversiva.

Esse espírito de contestação e protesto teve como grande paradigma o escritor José Agrippino de Paula, que morreu na última quarta-feira (4), em Embu das Artes, na Grande São Paulo, vítima de infarto. Nesta sexta-feira (13), José Agrippino faria 70 anos.

Seu livro mais cultuado, PanAmérica, lançado originalmente em 1967, virou símbolo da contracultura e referência ao Tropicalismo. Na reedição da obra em 2001, com prefácio de Caetano Veloso, o músico a define como uma experiência literária de radicalidade incomparável.

PanAmérica tem como protagonistas Marilyn Monroe, Che Guevara, Cecil B. de Mille, Marlon Brando, Cary Grant, John Wayne, entre diversos outros ícones da cultura de massa. Em meio a situações que constroem uma atmosfera alucinatória, eles participam de uma filmagem de episódios da Bíblia e interagem com um narrador em primeira pessoa. A composição é feita de cenas isoladas, por vezes sem continuidade aparente, reunidas à semelhança de uma montagem cinematográfica.

A obra, que mudou a face da literatura brasileira quando foi publicada, é inclusive citada na letra de Sampa, de Caetano, no verso Panaméricas de áfricas utópicas, túmulo do samba, mas possível novo quilombo de Zumbi.

O "bruxo do Embu", como era chamado pelos mais próximos, nunca pretendeu em sua literatura, nem na vida, reiterar uma realidade, mas inventar outra bem distinta. José Agrippino era um paulista que, como na definição da cidade de São Paulo na canção de Caetano, era bem o "avesso do avesso do avesso do avesso". No início dos anos 80, José Agrippino começou a sofrer de esquizofrenia e retirou-se da vida pública.

O escritor deixou contos, ensaios, peças de teatro e roteiros de musicais e espetáculo de dança, além de romances inéditos, como o mais recente, ainda incompleto, intitulado Os Favorecidos da Madame Estereofônica. Como diretor, fez filmes que dialogaram com as vanguardas que explodiriam mais tarde, como Hitler Terceiro Mundo.

Toda sua obra literária deve ser reunida e lançada - de acordo com a Editora Papagaio, responsável por seus lançamentos mais recentes. O próximo texto a ser publicado será Nações Unidas, peça de teatro inédita, escrita nos anos 60, com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano. PanAmérica também vai ganhar sua primeira edição no exterior, em 2008, na França pela Éditions Leo Scheer.

Saiba mais!
Clique aqui e assista ao documentário Passeios no Recanto Silvestre (2006), da diretora Miriam Chnaiderman, em que José Agrippino recebe uma câmera super-8 igual à que utilizava em seus filmes. Parte 1.

Clique aqui e assista ao documentário Passeios no Recanto Silvestre. Parte 2.

 

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