| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
Muitas vezes, quando se lê uma resenha sobre uma
graphic novel qualquer, é comum o leitor deparar-se com adjetivos como "cinematográfica" ou "literária", tentando aproximar os quadrinhos de outras formas de arte ditas "mais nobres". Porém, assim como a melhor literatura e o melhor cinema,
Epiléptico (Conrad, 176 págs, R$ 44,90) do francês David B., é uma obra que pertence exclusivamente aos quadrinhos.
Com uma narrativa seqüencial entre os sonhos e a realidade, David B. criou, nas palavras do escritor norte-americano Rick Moody (
Tempestade de Gelo), "uma história intelectual gráfica (...) um 'romance de formação' influenciado tanto por Gide, Foucault, Marlaux e Barthes quanto por Spiegelman".
David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) teve uma infância, até certo ponto, normal. Nascido em 9 de fevereiro de 1959 em Nîmes, uma pequena cidade próxima a Órleans, brincava com seus irmãos e vizinhos - amarrar sua irmã na cadeira como se queimasse Joana D´Arc é um dos divertimentos favoritos de Pierre e seu irmão mais velho, Jean-Christophe.
Porém essa paz é quebrada pela chegada do "haut mal" - termo coloquial francês para epilepsia. Jean-Christophe sofre seu primeiro ataque, e a doença começa a afetar toda a família. Enquanto a saúde do irmão mais velho começa a deteriorar, os pais arrastam toda a família Europa afora, por uma década, em busca de uma cura para a doença. Decepcionados com as saídas da medicina normal, decidem procurar saídas alternativas, das dietas macrobióticas aos templos Rosacruz.
Mas de nada adianta: a família entra numa espiral, arrastada pela evolução da epilepsia de Jean-Christophe - tudo representado graficamente no engenhoso traço de David B.
Epiléptico é repleto de metáforas visuais - a epilepsia é retratada, inicialmente, como uma espécie de dragão chinês com o corpo infinito, e quando Pierre, mais velho, começa a compreender melhor a natureza das convulsões do seu irmão, o monstro transforma-se em um aspecto do próprio Jean-Christophe.
David B. explora a linguagem dos quadrinhos com maestria para retratar uma família despedaçada, traduzindo em imagens a angústia, medo e dor - um retrato que, apesar de surreal, é absolutamente fiel a uma infância onde a imaginação transforma-se em delírio, protegendo a sanidade de um garoto de cinco anos arrastado para um cotidiano turbulento e inacessível.
|