Cuidado com as mulheres





Tavares Dias


Nós homens somos vítimas das mulheres - pobres e indefesas vítimas. Dessas víboras traiçoeiras que outra coisa não fazem, na vida, senão armar, conspirar, espreitar. Com seus instintos da pior qualidade, as mulheres são seres especialistas em perceber nossos lados mais vulneráveis, nossos momentos de fragilidade, para então abaterem-se sobre nós, contundentes, triunfantes, os olhos brilhando de cobiça. Ai de nós, então, com nossos cargos, nossas fortunas, nossas sagradas famílias.

Alguém precisa fazer alguma coisa em nossa defesa. Assim não pode mais ficar, sob pena de a nossa sociedade não resistir a tão avassaladora agressão. Essa, exatamente essa, sem tirar nem pôr, é a tese de defesa do pelotão de choque montado no Congresso Nacional para salvar a sobejamente conhecida honra do senador Renan Calheiros, seu presidente. Sim, Renan - o ínclito, o probo, o ilibado, o reto, o egrégio, o insigne, o sem jaça, o cordeiro sacrificado em sua inocência pela sedução de uma jornalista que se aproveitou de sua candura e de seu espírito compreensivo para lhe impingir uma filha fora do casamento.

Renan caiu, sim, diante da insidiosa investida dos exércitos progesterônicos, mas, forçoso é reconhecê-lo, ao fim de uma resistência heróica que o tempo ainda cantará em decassílabos e alexandrinos. Acho válida a tese e procedente a preocupação.

Entendo que essas mulheres deviam ir arrumar o que fazer, em casa, no trabalho, na escola, em vez de passarem a vida a montar essas solertes campanhas, à sorrelfa e à socapa, no intuito de buscar tirar a concentração de suas excelências, os nossos políticos, um grupo cujo conjunto de atitudes vem, faz tempo, nos enchendo de cívico orgulho e elevando, no mundo inteiro, o altissonante nome da pátria amada idolatrada salve salve.

Por que essas mulheres não vão arrumar um tanque de roupa, em vez de ficar tentando assacar aleivosias contra a honra do presidente do Congresso Nacional, um homem sobre cujos ombros recai, diuturnamente, o peso da responsabilidade por seus bovinos alados, por suas relações com lobistas laboriosos e empreiteiros indormidos, com o honrado clã Sarney (cujo trabalho de décadas proporcionou ao Maranhão, seu estado natal, um invejável IDH, hoje ombreado com o das nações mais desenvolvidas do planeta), com as responsabilidades inerentes às exigências insuspeitas do grupo político que o conduziu ao poder e que lá o mantém?

Segundo os defensores do patriótico plano hoje em marcha para salvar Renan Calheiros, o que está faltando a essas mulheres, useiras e vezeiras de engravidar, à traição, de homens casados honrados e inocentes, é espírito republicano.

Sim, só o espírito republicano é capaz de conceber a lucidez necessária para a percepção de que alpinismo social é negócio pra macho.

Já passou da hora de os homens nos defendermos melhor da sedução feminina, essa arma vil e perversa que ceifa privilégios, conspurca biografias e enlameia lares cristãos.

No mais, a gente vai seguir tocando a nossa bolinha no meio-de-campo, bovinamente.

E os políticos, em constante reciclagem de posturas e atitudes, conforme as orientações de seus antenados consultores, de agora em diante tomarão mais cuidado com as mulheres - essas zinhas com quem os mais brilhantes poetas, esses babacas que nada entendem das armadilhas gestadas nos porões da alma feminina, já gastaram tanto verso.

Agora, sim, a coisa vai.

Eita.