Chove muito no verão de Miami, e os jardins se enchem de cores; há uma orgia de verde por toda parte. Os humanos sempre gostaram de cultivar e observar as flores, e os jardins existem desde que o homem inventou a família, pôs uma cerca em volta de si mesmo e chamou isso de lar. Com o passar do tempo, os jardins também se modernizaram. Técnicas de transplante e enxerto criaram plantas mais coloridas e mais resistentes, jardins mais exuberantes.
Tudo isso deixou os jardins de hoje mais sofisticados que os jardins de ontem? Pelo contrário, os jardins do terceiro milênio diferem dos jardins da minha meninice pela simplicidade. Minha mãe cuidava de seu pequeno jardim como cuidava de um recém-nascido. Ai de quem ali quebrasse um ramo ou arrancasse uma flor, por generosa que fosse a planta. As flores que ali vicejavam eram espécies exigentes e sempre que possível, originais.
Havia uma quase-competição nas vizinhanças, a meta era surpreender com alguma flor diferente, que ninguém mais tivesse. Uma nova espécie de rosa, um novo tom de violeta, um rododendro mais exótico, era assunto que rendia meses entre as comadres sentadas nas cadeiras que vinham para as calçadas no final da tarde, depois do jantar saboreado na larga mesa da sala, dos pratos lavados e guardados.
Mas o mundo mudou, e no jantar de hoje cada um faz seu próprio sanduíche. A louça suja é jogada na máquina, esperando encher para ligar. O bate-papo ocorre num encontro rápido na hora da caminhada, na piscina ou no parquinho, onde levam os filhos para brincar. Os jardins refletem esses novos tempos. As plantas mais cultivadas são as mais fáceis de manter - que apresentem melhor resultado com menor esforço.
As plantas que vicejam nos jardins do terceiro milênio eram consideradas mato nos jardins da minha infância. Plantas delicadas, difíceis de cuidar, que exigem regas e adubagens constantes, são hoje acintosamente discriminadas. Na era da pressa, a moda é cultivar plantas resistentes, que se arranjem sozinhas e não fiquem exigindo excessos de carinhos, que não consumam tempo - um bem que vai se tornando cada vez mais valioso.
A planta ideal nos jardins da modernidade é a de caule duro, por ser mais resistente e pedir menos água. Tem que gostar de sol e de chuva, mas tem que agüentar bem a ausência deles. Tem que ter folhagem farta, que se espalhe e crie "cercas" que isolem os quintais e os jardins, visto que espaço também é mercadoria em extinção. E que dê flores o ano todo.
Outro antigo hábito que ressuscita é a horta atrás da casa, provavelmente pelo alto preço de frutas e verduras. Salsas e hortelãs vicejam lindamente em vasos. A vizinha da direita troca seus tenros quiabos pelas beterrabas da vizinha da esquerda. A da frente me traz singelas folhas de couve. Como as flores, as verduras também têm que ser independentes, sem exigir muitos desvelos. Ninguém que conheço planta alface.
É que os jardins também refletem o tempo em que vivemos. Não podemos gastar horas regando, adubando, podando e paparicando, mas ainda queremos flores e folhagens enfeitando nossas vidas. Nosso gosto se adapta ao que podemos obter. O problema é que olho ao meu redor, e os jardins são todos iguais. Ninguém pára na porta para pedir uma muda ou perguntar que flor é essa, como ocorria no jardim da minha mãe.
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