Vitória (ES), edição de 17 de julho de 2007    
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O artista como ilusionista (3 de 4)



Erly Vieira Jr.
Atualizado toda Terça-feira, às 16 horas

  
Foto: Divulgação
  
XXX, 1999
Durante os dezesseis anos em que Júlio Schmidt manteve um atelier para atender trabalhos cenográficos encomendados, o tipo de trabalho mais constante era a produção de painéis pintados para festas de aniversário, geralmente representando personagens e estórias do universo infantil: cartoons, contos de fadas, Teletubbies, super-heróis diversos. Essas pinturas buscavam manter o traço original dos personagens, num exercício constante do chamado "desenho de observação" - ampliado, por sua vez, através da projeções de transparências sobre a lona estendida na parede, possibilitando a reprodução aerografada da imagem original nos painéis de grandes dimensões, que serviriam de cenário para que os aniversariantes pudessem representar o papel do personagem-tema de sua comemoração.

É curioso notar que alguns dos primeiros trabalhos de Júlio assumem esse caráter cenográfico a partir da apropriação formato de painéis em grandes dimensões e da técnica do desenho de observação: Tempestade (2002, inspirada na personagem dos X-Men), Black Kiss (apropriação de uma tira dos quadrinhos eróticos homônimos de Howard Chaykin, apresentada na coletiva Sexo, no Centro de Artes da Ufes em 2003), as pinturas em tecido apresentadas no II Salão do Mar, em 2000 (representando mitológicos seres marinhos: um tritão, um demônio e um calamar gigante), e o trabalho participante da mostra Ruído (MAES, 2002), em que uma foto desfocada do curador do projeto e então diretor da instituição, Fabrício Coradello, é transformada num grande painel preto e branco estendido na fachada do museu, com direito a uma ameaçadora faca (único elemento em foco) apontada na direção dos transeuntes.

A componente sexual/erótica está presente em muitos desses trabalhos (Tempestade, Black Kiss), bem como na série Mangas, composta por telas inspiradas nas pin ups de quadrinhos japoneses, produzidas entre 1999 e 2000.

É também a partir de um cruzamento entre essas duas dimensões de sua história pessoal (o trabalho cenográfico e a sexualidade) que Júlio Schmidt vai elaborar um de seus mais contundentes trabalhos, exatamente o primeiro que apresentou publicamente: os três painéis apresentados em XXX, individual realizada no Centro de Artes da Ufes no final de 1999. São três cenas de ato sexual extraídas de vídeos pornográficos gays, reproduzidas em painéis de lona, desenhados e pintados tais quais os inocentes painéis que o artista produzia sob encomenda em seu atelier para festas infantis. O traço dos desenhos é inspirado nas figuras humanas da versão animada dos estúdios Disney para Aladdin, num inusitado contraste entre a delicadeza do traço (e as cores vivas da pintura) e a temática homoerótica explicitada no trabalho.

E é nesse trabalho que podemos perceber outra questão bastante presente no trabalho de Júlio: uma necessidade de se evidenciar a passagem do tempo, a finitude do humano. Afinal, a apropriação do vídeo em XXX dialoga com um imaginário constituído no passado (são filmes em sua maioria produzidos na época áurea do cinema pornô, ou seja, os anos 70-80), repetido à exaustão nas fitas VHS, DVDs e imagens diversas espalhadas pela internet, dotando os porn stars de uma "eterna juventude e virilidade" no vídeo - embora muitos deles já estejam mortos, no momento em que o voyeur acompanha suas célebres performances sexuais. Aqui, discute-se também essa relação mórbida do culto ao pornô, essa tentativa de se fixar essa beleza corporal, dentro da esfera do sexo como divertido, prazeroso (mas também efêmero).

Essa relação com o perecível vai se desdobrar em diversos trabalhos, como relata o artista, a respeito da participação na coletiva anglo-brasileira Still Life /Natureza Morta, realizada na FIESP (2004) e no MAC/Niterói (2005), em parceria com o British Council, com curadoria de Kátia Canton: "A ficha caiu quando as latas foram selecionadas para a exposição: "meu trabalho é morto o tempo todo. Eu nunca tinha olhado as latas como naturezas-mortas, talvez por não o serem nesse sentido de se montar a mesa, montar a cena, como nas naturezas-mortas consagradas pela história da arte".

  
Foto: Divulgação
  
The Snow White: The queen is not dead, 2004
Em The snow white: The queen is not dead (2003), há outra curiosa inversão do imaginário infantil: o espaço expositivo é tomado pela reconstituição da cena do esquife de Branca de Neve no meio da floresta. O caixão tem o formato de um diamante lapidado, e a imagem da personagem (pintura aplicada sobre a superfície de madeira) aparece refletida em todas as faces do objeto, simulando inclusive o reflexo dos raios solares sobre a superfície supostamente transparente da pedra preciosa. As paredes da galeria foram todas cobertas com uma pintura cenográfica, que reproduz a floresta, proporcionando ao visitante uma imersão contemplativa em meio à suspensão erótica do fluxo temporal, aquele instante interminável antes da chegada do príncipe encantado, que reconduzirá a todos (jovem e espectadores) ao tempo dos amantes. Não à toa, a exposição em que a obra foi apresentada, no Museu de Arte do Espírito Santo, era denominada Pausa.

Vale lembrar que um outro trabalho, realizado poucos meses depois, também se apropriaria dessa concepção do cenográfico como possibilidade de imersão do espectador: Maré das Caieiras, instalação assinada por Júlio Schmidt, Herbert Pablo e Márcio Campos, na qual um recorte fotográfico do manguezal da Ilha das Caieiras, com suas raízes aéreas e a característica cor marrom-avermelhada das cascas repletas de tanino, é ampliado e pintado diretamente sobre a parede. Esse trabalho ganhou Menção Honrosa no V Salão Capixaba do Mar, em 2003.




E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com



 

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