Vitória (ES), edição de 01 de junho de 2007    
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Lunático: Tangos e Icebergs



Leonardo ViSo


  
Foto: Divulgação
  
A intenção era que eu escrevesse sobre o que ando lendo. Explico, estou no meio de um processo de produção de um livro-reportagem sobre rearranjos urbanos. Como assim? Sabe aquelas áreas planejadas para galera rica que depois viram lugar de toda pobreza? Centro de cidade geralmente tem esse fim no Brasil. Ou o contrário, áreas de vilarejos ou distantes e que de repente viram o bairro da moda e os pobres são expulsos para quanto mais longe melhor? Então, estou escrevendo, tentando, sobre isso. Dias de correria, estresse e crises de criatividade. Mas,de algumas surpresas também. Principalmente na área musical.

Madrugada adentro escrevendo, às vezes o silêncio no lugar de ajudar a concentrar acaba trazendo o sono. Comecei a escolher umas músicas para distrair Morfeu. Porém, música no meu ouvido também me dispersa. A tática então é colocar para tocar canções quase ou totalmente desconhecidas. Sempre funciona e no final você acaba se acostumando com discos até difíceis de ouvir. Comecei com o álbum novo da Björk, Volta. Fiz o download semanas antes de ler sobre a confirmação de três shows dela no Brasil depois de quase 10 anos sem cantar aqui - reza a lenda e a esperança de um deles ser aqui em Vitória. A cantora islandesa é a minha preferida sem dúvida, poderia elencar mil justificativas, mas a principal é de cada disco dela ser algo muito diferente. O último (Medulla), por exemplo, era todo feito com vozes, sem nenhum instrumento praticamente. Quando ouvi Volta, não gostei muito não. Achava chato, muito chato. Salvava três musicas e só. Todo mundo achava que seria um disco hiper dançante, por conta da parceria com produtor de hip hop americano Timbaland. Ingenuidade, é mais fácil ele ir para o hip hop do que Björk rebolando like Nelly Furtado.

Depois de ouvir enquanto escrevia freneticamente, fui percebendo outras músicas interessantes. Repeat acionado, sempre. Quando dei por mim, já gostava de quase todas as músicas. Não, Björk não me venceu pelo cansaço. O disco é muito bom. Declare Independence é para ouvir seguidamente e com o volume estourando os tímpanos - com ela grita muito nessa música isso pode acontecer facilmente. Earth Intruders e Inocence são as para pistas. Muito boas também. Outro destaque Wanderlust: a música começa com sons de apitos de navio e termina com mensagem em código Morse - tem gente tentando decifrar. Não vou fazer um "faixa-a-faixa" porque nem sempre funciona. Agora, das 10 músicas, devo gostar de oito. Ainda não consegui gostar muito de I See Who You Are e Pneumonia - olha o nome da música.

A outra e talvez a maior "descoberta" em tempos de escrita foi o disco novo e algumas músicas velhas do Gotan Project. Já conhecia o grupo franco-argentino que mistura tango com beats, mas era um conhecimento bem superficial. O interesse voltou depois que eu não pude por um dia assistir ao show deles no Rio, tive que voltar antes. Cheguei a ler a matéria de divulgação da apresentação onde falavam que o novo álbum deles, Lunático, deixava o eletrônico mais de lado e explorava mais o tango. Para evitar ficar com meu computador abarrotado de músicas que não conheço, não baixo inteiro os discos de quem não curta muito. Escolhi aleatoriamente algumas canções de Lunático, entre elas a faixa-título que vem do nome do cavalo de Astor Piazzola - considerado o revolucionário do tango argentino (por favor, aprendam que portenho não é sinônimo de argentino. Só os que nascem em Buenos Aires são porteños. Parece bobeira, mas os não-portenhos não gostam de assim serem chamados).

Acabei pegando o disco completo na internet. É fantástico, uma música boa atrás da outra. Cito três: Diferente, Domingo e Arrabal. Só não curti muito ainda Paris, Texas e Celos. Deve ser questão de tempo. Lamentei ainda mais por não ter indo ao show (no da Björk em outubro, eu vou). Lunático é excelente, mas as músicas do Gotan Project que estão no top do meu winamp com as mais tocadas são: Santa Maria (Del Buen Ayre) e Confianzas, respectivamente, dos álbuns La Revancha Del Tango e Inspiracion/Espiracion. Fico horas revezando entre as duas.

  
Foto: Divulgação
  
A primeira é muito animadora, da vontade de ensaiar uns passos descompassados de tango. Já Confianzas tem os versos mais lindos que ouvi nos últimos dias. "Con este poema no tomarás el poder, dice/ con estos versos no harás la Revolución, dice/ ni con miles de versos harás la Revolución, dice / se sienta a la mesa y escribe". Simples e densos. Seria identificação?" Yo no sé. O que garanto é que sem esses versos gelados de Björk ou tangueros do Gotan Project escribir seria mais complicado, muito mais.

Saiba mais!
Clique aqui e assista a Earth Intruders, primeiro clipe do novo álbum da Björk.

Clique aqui e assista ao clipe de Santa Maria (Del Buen Ayre), do Gotan Project.

Clique aqui e assista clipe de Confianzas, do Gotan Project.


 

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