Vida de Imigrante - Sem nenhum esforço




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


O marketing por telefone é persistente, mas não conseguiu derrubar a tonelada de lixo enviada diariamente pelo correio. Desde que o mundo parou de escrever cartas, essa nobre e velha instituição sobrevive graças ao chamado junk mail, o lixo que entulha a paciência e a caixa de correspondência dos cidadãos de bem deste país.

São mil coisas que podem até ser vantajosas, mas a maioria é mesmo uma parafernália inútil. Sem falar no festival de descontos, promoções, ofertas, brindes, abertura de novas lojas e fechamento de lojas que se deram mal, propaganda enganosa ou abusiva, etc, etc. Paula nada abre, e não está sozinha nessa aversão.

Bem ao lado da caixa do correio já fica uma lata de lixo, esperando os excessos - a correspondência que não foi pedida e ninguém quer receber, mas que assim mesmo continuam mandando. É verdade que se pode ir a uma agência dos correios e deixar uma ordem expressa proibindo a entrega dessa avalanche de papel, mas poucos fazem isso. Mas, às vezes, por puro acaso, alguém abre uma delas. Ou seria por curiosidade?

Foi o que aconteceu com Paula, que estando distraída, abriu sem perceber uma dessas cartas-propaganda, e tão mal feita que nem trazia meu nome. O destinatário era apenas: "Para o residente do endereço tal". Quase sem perceber, Paula abriu a tal carta, e qual não foi sua surpresa ao deparar com uma nota de um dólar dentro do envelope.

Em princípio pensou que era falsa. Paula olha e reolha, deve ser uma xerox bem feita. Mas não havia erro ou equívoco, falha técnica ou descuido. a nota em sua mão era verdadeira. A carta anexa dizia: "Você pode economizar muito mais comprando nossos produtos". Paula joga fora a carta e põe a verdinha na bolsa. Um dólar é sempre um dólar, pouco, mas não lhe custou nenhum esforço.

Paula segue seu caminho, mas de repente uma luz brilha nas sombras do seu cérebro. "Não sou a única que nunca abre a correspondência indesejada", pensa. Volta à lixeira e como já era de se esperar, outras tantas cartas lá estam, também jogadas fora -sem abrir. Recolhe todas, e amealha oito dólares. Que não lhe custaram nenhum esforço.

Paula vai para o recesso do seu lar, são seis da tarde, e o bichinho da cobiça não a deixa ver as novelas da Globo. O estacionamento do condomínio vai se enchendo, mais pessoas passando pelo correio e se desfazendo da correspondência indesejada. Sem abrir. Volta là às oito e às dez, e consegue amealhar a suave quantia de $23.00. Que não lhe custou nenhum esforço.

Paula pensa nas muitas caixas de correio espalhadas pela cidade, muita gente recebendo - e jogando fora a mesma carta - sem abrir. Poderia fazer uma incursão noturna pelos condomínios das redondezas... O bom senso a manda para a cama, tinha que acordar cedo no dia seguinte. Já estava feliz com o que havia ganho sem nenhum esforço.