Som na caixa, mano





Tavares Dias


No meio de tanta nuvem escura, uma luz.

Abro o e-mail e lá está o recado do querido amigo Alexandre Lima, cantor, compositor, guitarrista e bandleader do grupo Mahnimal.

Alexandre está na Europa, com sua banda. Acaba de tocar no Festival de Montreux, na Suíça, um dos palcos mais cobiçados do mundo. "O público pediu bis três vezes", comemora meu talentoso amigo.

O amigo quer saber notícias de uma produção local de que participamos, como vão as coisas por aqui, no estúdio. No anexo, a foto da banda, o Alexandre de guitarra no pescoço em meio aos efeitos de luzes e de fumaça.

"No Brasil, fazer sucesso é pecado mortal", costumava dizer o maestro Tom Jobim, nosso maior nome lá fora, em termos de música. E o Tom dizia também que "O Primeiro Mundo é bom, mas é uma merda", ao que um amigo certo dia estranhou. E o Brasil, Tom? "Ah, o Brasil é uma merda, mas é bom".

Então, fico supercontente vendo o Alexandre Lima e sua banda serem progressivamente reconhecidos, nacional e internacionalmente.

Para além de preferências estéticas, são profissionais competentes que estão na luta há muitos anos, que entendem do seu riscado, que conhecem o gosto da poeira da estrada e o peso de todos os desafios inerentes à carreira de quem se mete a viver de qualquer manifestação artística neste estranho País.

Deixemos a Arte fazer, conforme o registrou Aristóteles, seu papel de representação, de mimese, de elemento potencializador de catarses. Porque neste mundo de mentira, de enganos e de imagem, como no Mito da Caverna, de Platão, em que as pessoas estão todas presas, de costas para a realidade, e percebem apenas imagens projetadas pela luz solar numa parede da gruta, a arte pode no mínimo nos levar por um tempo ao reino da fantasia, onde nos reconectamos a nós próprios de modo a poder representar novamente, no dia-a-dia, o personagem que escolhemos representar ou a que fomos empurrados pelas necessidades da vida.

No noticiário dos jornais, um prédio que desabou, no Espírito Santo, e matou duas pessoas, ferindo outras 20. Em âmbito nacional, o desastre do avião da TAM, a morte de ACM, os boletins do PAN, no Rio, e as fotos de dois assessores presidenciais fazendo gestos de toc-toc e fuc-fuc ao saberem da possibilidade ocorrência de falha técnica e não-gerencial no caso da tragédia de Congonhas, citada acima.

Pois que viva, então, a banda capixaba Mahnimal. E que viva o Alexandre Lima.

Som na caixa, galera, que ninguém é de ferro.