("A tarefa da imprensa e encorajar o debate,
não suprir o público de informação" - Christopher Lasch)
O professor Guilherme Filgueiras, como ele se intitula - porque, afinal, quem nasce professor morre professor - acredita que a violência no esporte se combate com educação e prevenção. "A punição, mesmo quando é inevitável, nunca é uma medida eficaz". O secretário de Esportes e Lazer de Vitória, aos 62 anos, ainda é dono de uma boa forma física, que conquistou ao longo das dezenas de anos que dedicou à prática esportiva. Coincidência ou não, aos 14 anos, quando saiu de Cachoeiro do Itapemirim e se mudou com a família para a Capital, foi morar logo vizinho ao Praia Tênis Clube.
A herança esportiva legada pelo pai, Rafael Carvalho, goleiro e um dos fundadores do América Futebol Clube (atual Rio Branco), somada à admiração nata pelo esporte, acabou fazendo do Praia sua segunda casa. Lá foi atleta, professor, diretor e sócio emérito.
A carreira de professor universitário começou na Ufes, em 1975, onde se formou em 1967. Na Ufes desenvolveu os projetos mais importantes da sua carreira e foi onde acabou se aposentando em 1996. Depois disso assessorou por mais de dois anos a Secretaria de Esportes na gestão do governador Vitor Buaiz. Em seguida passou "bons" oito anos na Escola Técnica Federal. Foi professor também no Sesi. "Só saí da Escola Técnica mesmo porque o prefeito João Coser me chamou para assumir a Secretaria de Esportes".
Guilherme Filgueiras, o entrevistado desta edição, tem uma outra fascinação além do esporte: ele é colecionador de mais de 10 mil reportagens de jornais e cerca de 300 fitas de vídeo sobre o tema violência e esporte. Esse importante acervo, que o professor começou a construir em 1975, faz uma dura crítica à imprensa esportiva que, na sua opinião, se utiliza de uma verdadeira linguagem de guerra e acaba contribuindo para o aumento da violência. Na entrevista o leitor vai poder saber também quais são as idéias e projetos que Filgueiras tem para a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer.
Século Diário: - Por que o senhor decidiu iniciar essa coleção de reportagens de jornais e imagens de Tv sobre esporte e violência?
Guilherme Filgueiras: - Durante minha passagem pela Ufes desenvolvi vários programas, um deles foi o Projeto Treinos. Em 1978, a violência nos esportes começou a me chamar a atenção, sobretudo o futebol, que era o esporte que despertava maior interesse da mídia. E a violência, que já existia no futebol naquela época, acaba passando para torcedores, arbitragem, policiamento, dirigentes. Já havia todo um contexto de violência no futebol. Diante dessa situação, apresentei um projeto aos dirigentes esportivos que propunha mudanças nas regras do futebol que contribuíssem para a diminuir a violência dentro e, consequentemente, fora de campo. Por exemplo, a regra que proíbe que o jogador atrase a bola para o goleiro era uma das sugestões apresentadas por mim nesse projeto de reformulação das regras. A Fifa acabou adotando a regra três depois.
- Mas como essa regra ajudava a coibir a violência?
- Retardar o jogo é um recurso que irrita adversários e torcedores e acaba resultando em violência. A regra, além de melhorar a qualidade técnica do espetáculo, ajuda a tornar o esporte mais dinâmico diminuindo a violência. É o caso do basquete, futsal, por exemplo. Mas havia outras propostas, como a que impunha a eliminação do jogador da partida que excedia um determinado número de faltas, como acontece no basquete e no futsal.
- Como essas idéias foram recebidas na época?
- Fui muito criticado, as pessoas entendiam que não era possível alterar as regras num esporte que era universal, que já possuía toda uma tradição. Mas isso, no final das contas, foi, de certo modo, positivo, porque entendi que não era através das regras que seria possível promover essas mudanças e sim a partir de uma mudança de conceito. Foi então que criei um projeto de Educação Comunitária nos Esportes. Esse projeto propunha a instituição de um processo educativo de formação de todas as pessoas envolvidas no futebol. Nosso princípio era educação e prevenção para evitar a punição. A punição nunca é uma medida eficaz.
- Mas eu gostaria de saber um pouco mais sobre esse acervo que o senhor criou...
- Em 1978, comecei a me interessar pelo assunto, passei a colecionar tudo que era publicado nos jornais e vinculado na televisão que eu entendia que pudesse estimular a violência. Esse acervo tem hoje cerca de 3 mil imagens de televisão e mais de 10 mil reportagens jornalísticas sobre o tema. Hoje, o acervo está sob cuidados da Universidade de Vila Velha (UVV), que reorganizou todo esse material que fica à disposição de estudantes e pesquisadores interessados nesse tema. Já consultaram esse acervo até hoje mais de 10 mil pessoas, entre estudantes de Direito, Educação Física, Jornalismo, Sociologia etc.
- O senhor percebeu que a imprensa dava um tratamento tendencioso à notícia e isso acabava estimulando a violência, sobretudo no futebol?
- Sem dúvida. Ainda hoje, a terminologia utilizada pela imprensa é uma terminologia de guerra: duelo, confronto, artilharia, bomba, matador, batalha, e por aí vai. Quando você fala isso a torcedores, muitas vezes embriagados e sob o efeito da emoção natural que o esporte ocasiona, isso acaba criando um clima propício à violência. Por exemplo, você lembra do triste episódio do Carandiru em 1992. Na época os jornais publicaram suas manchetes dando destaque ao massacre dos 111 presos. Na mesma semana, um time amador ganhava por 15 a 0 uma partida de futebol. No título, a mesma palavra: "time massacra adversário".
- Esse estudo foi feito somente com os veículos de comunicação do Espírito Santo?
- Não, fiz um apanhado com jornais de diversas capitais brasileiras e gravei transmissões de diferentes emissoras de Tv. Na época, fui convidado para fazer palestras em diversos estados e inclusive para pessoas de outros países que se interessaram pelo estudo.
- E qual era a reação das pessoas diante do material?
- Alguns me chamavam de doido, ao mesmo tempo que muitos concordavam comigo. Cheguei a apresentar esse material para os quatro ministros do Esporte que passaram pelos últimos governos. Mas nenhum deles se manifestou. Na verdade, toda essa situação de violência que presenciamos nos estádios de futebol nos últimos anos revela que vivemos um retrocesso em relação aos outros países. As pessoas ainda não entenderam que a violência é combatida com educação e prevenção. Quando pegamos o exemplo dos estádios brasileiros percebemos que, provavelmente, o Brasil é o único país que ainda insiste em colocar grades para conter as torcidas. Se naquele jogo do Vasco, que a grade cedeu, se elas estivessem boas teriam morrido no mínimo umas 50 pessoas, que ficariam esmagadas nas grades. Como as grades estavam podres, elas cederam e o pessoal escapou para o gramado. Mas, veja qual foi o enfoque das autoridades... eles estavam mais preocupados em saber por que as grades não estavam em bom estado. Eles deveriam dar graças a Deus que as grades não resistiram, senão a tragédia seria maior. Eles deveriam estar preocupados em tirar essas grades e deixar o espaço livre, como acontece no mundo inteiro hoje. Nos ginásios de basquete americanos o torcedor fica praticamente dentro da quadra. Em resumo, o Brasil precisa fazer muita coisa nesse sentido ainda, e isso tem de começar pela educação.