("Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra as guerras." - Sigmund Freud)
A psicanalista Ruth Ferreira Bastos nasceu, contra a vontade, em São Paulo. "Minha mãe teve uma complicação no parto e naquela época foi obrigada a ir para São Paulo para garantir meu nascimento. Só fui lá para nascer, por isso me considero capixaba". Além do episódio do parto, Ruth ausentou-se novamente do Espírito Santo para fazer o curso de Psicanálise na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), isto nos idos de 1977.
De volta a Vitória, em 1983, iniciou seu trabalho na psicanálise. Hoje ela atende no seu consultório e é membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória (ELPV). A Escola Lacaniana tem suas raízes 1982, quando foi fundado o Colégio Freudiano de Vitória. Mais tarde, em 1991, o Colégio virou Sociedade Psicanalítica e, finalmente, ELPV, em 1995. Foram exatamente os membros da Escola, entre eles Ruth Bastos, que iniciaram, há cerca de dois anos, uma aproximação com o Instituto de Atendimento Sócio Educativo do Espírito Santo (Iases). Os membros da Escola estavam analisando como poderiam contribuir com a instituição que mantém adolescentes autores de atos infracionais que cumprem medida de privação de liberdade. O amadurecimento das discussões resultou no Projeto Re-Significar, iniciado a nove meses e que se encerra agora no final de junho (27, 28 e 29) com a realização do congresso 'Adolescência, Violência e a Lei'.
A psicanalista Ruth Bastos, uma das protagonistas do projeto, relata, nesta entrevista, sua experiência nesse processo. "Esse projeto visou uma intervenção e um estudo sistemático sobre os vários temas suscitados pela adolescência, sua relação com atos violentos, delinqüentes e criminosos que, em nossos dias têm, de forma radical, interrogado a Lei e a Autoridade". Na entrevista, a psicanalista faz análises sobre a banalização da violência, a redução da maioridade penal, o processo de exteriorização das leis e outros temas relacionados à violência.
Século Diário - Por que a Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória decidiu iniciar esse trabalho com os adolescentes em conflito com a lei que estão cumprindo medida sócio-educativa de privação de liberdade?
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Foto: Syã Fonseca
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Ruth - Nós assistimos a um vídeo no palácio do Governo de uma oficina de arte e papel feita com os adolescentes do Iases. No vídeo, havia uma fala de um adolescente que dizia o seguinte: - 'Reciclando papel pude pensar que eu poderia ter um outro papel na minha vida'. A partir daí, nós da Escola Lacaniana fizemos algumas reuniões com os técnicos do Iases para avaliarmos de que maneira a Escola poderia contribuir no processo de ressocialização desses jovens. Esse processo de aproximação não foi de uma hora para outra. A equipe técnica do Iases, durante essas conversas, foi apresentando uma série de demandas. Depois disso, começamos a pensar, de forma mais efetiva, qual o trabalho que poderíamos desenvolver em conjunto. Esse 'namoro' entre a instituição e a escola durou cerca de dois anos. Nesse período fomos construindo as linhas do projeto, o que poderia ser feito, qual a contribuição que os analistas poderiam trazer.
- E como foi esse processo de construção?
- O projeto Re-Significar, como ficou batizado, visou, desde a sua origem, um estudo sistemático sobre a violência, a adolescência, as toxicomanias e a criminalidade para possibilitar àqueles que trabalham com adolescentes em conflito com a lei um conhecimento menos preconceituoso em relação a esses jovens. Esse projeto, que está em andamento há nove meses, se encerra agora com a realização do congresso 'Adolescência, Violência e a Lei', que acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho aqui em Vitória. Mas voltando ao processo de construção, nesse tempo fizemos uma ampla discussão e reflexão sobre as condições da atualidade, onde o agir se sobrepõe ao pensar, onde as instituições mostram a sua precariedade com as conseqüências advindas daí: o aumento da agressividade, da destruição, da crueldade. Verificamos que a escola, a família, os governantes têm deixado nossas crianças e nossos jovens carentes de lei, de ideais, de vínculos que lhes dariam a capacidade de reflexão, de diálogo, e a possibilidade de internalizar as leis e os pactos para o bom convívio social.
- Qual é a realidade hoje desses adolescentes que se encontram privados de liberdade no Iases? E com relação aos educadores, já está havendo alguma mudança de visão na forma como eles enxergam esses jovens?
- A re-significação de posturas usuais com esses adolescentes se mostra urgente. A atitude de pena, o olhar que os enquadra como vitimados só cristalizam sua posição reivindicatória. O ódio, o horror pelos seus atos e a revanche através da punição, por um lado nos protege de ver que a maldade também nos habita e por outro os fixa no enquadre do mal. A única saída para que nosso adolescente não seja tragado pelo tráfico nas transgressões estaria na possibilidade de eles serem tomados como sujeitos num ambiente onde a ética vigora, tornando cada um capaz de se responsabilizar pelos seus atos. O trabalho com esses jovens exige que os profissionais insistam na função paterna, a função que introduz a mediação simbólica, função que limita a satisfação, ensina o não, dá um basta nos excessos, permitindo ao jovem o acesso à cultura, à possibilidade de estabelecer acordos com o outro e com o mundo frente aos conflitos.
- E como foi para a senhora a experiência com esse trabalho?
- Na verdade, antes de conhecer melhor o Estatuto da Criança e do Adolescente, a realidade desses jovens em conflito com a lei, eu percebi que também tinha um certo preconceito. Eu me perguntei: por que usar a palavra conflito no lugar de crime, se na verdade eles cometem crimes? Mas depois que eu fui aprofundando meus estudos sobre essa questão e entendendo melhor essa realidade, de certa forma, eu passei a aceitar essa terminologia. Porque é nesse momento, entre o infantil e a adolescência, que as coisas vão se definindo. É o momento no qual acontecem vários rearranjos. É aí que nós definimos nossa posição sexual, por exemplo. Embora, desde a infância você já tenha um posicionamento pelo masculino ou feminino, isso só vai ser concretizado com os primeiros encontros com outro sexo. Nós percebemos que muitas coisas que iam numa direção na fase da infância se desviam na adolescência. No trabalho com os técnicos do Iases apareciam demandas nesse sentido. Eles fizeram relato de um caso em que os pais eram trabalhadores, dois dos filhos também trabalhavam e estudavam e apenas um seguiu para o tráfico. E eles questionavam: 'Por que, com exemplos positivos dentro de casa, ele se desviou?'
- De fato essa questão é muito mais complexa do que parece. Mesmo porque há diversos casos de jovens de classe média, de famílias teoricamente estruturadas, envolvidos em delitos. A senhora não concorda?
- Realmente a questão é muito mais complexa. Não é só o adolescente que está em conflito com a lei, o mundo também está em conflito com a lei. A idéia primeira de todos nós é que as condições sociais propiciam o delito. Na verdade isso está se invertendo muito. Veja o que está acontecendo no Congresso Nacional, por exemplo. Nós estamos passando por um momento em que diversas pessoas estão sendo questionadas por não respeitarem as leis. E o adolescente, na verdade, se presta a estampar os impasses do mundo. Pelo fato de ele ainda estar saindo da infância, se desgarrando, ele se desarruma. Tudo aquilo que ele era na infância, ele vai deixar de ser na adolescência. Ele vai se lançar para algum modelo de imagem que ele tiver no mundo. A adolescência acaba sendo uma fase de transgressão, que na verdade é um impulso saudável. O jovem que está muito conforme a todas as situações familiares ainda não entrou na adolescência, embora ele possa ter 12, 13 ou 14 anos, ele continua na fase infantil. Ele ainda está 'prisioneiro' daquilo que seus pais esperam para ele. Para a psicanálise a entrada na adolescência é justamente esse pedido de liberdade. Nós dizemos também que a adolescência porta uma delinqüência. Delinqüência no sentido desse deslocamento de um lugar para outro. Ele está desviante do lugar onde ele era esperado. Esse processo acaba sendo necessário e saudável para que ele entre na adolescência.
- Pela visão da psicanálise, até que ponto a influência do meio, da questão socioeconômica, pode ser determinante para o jovem partir ou não para a transgressão?
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Foto: Syã Fonseca
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- Primeiro é preciso considerar que existe uma crise em relação às leis. As leis estão muito exteriorizadas, elas não estão internalizadas. Aquelas crianças que tiveram na família todo um encaminhamento a respeito dos valores, dos ideais, dos princípios, provavelmente vão estar mais bem preparados, num futuro, para internalizarem as leis. Porque hoje o maior valor é o espetáculo do consumo. A palavra vai cada vez mais perdendo sua força, seu valor. É claro que isso não é para todos. Mas no geral, se pensarmos o que é prevalente na sociedade atual, a palavra ou a imagem? É lógico que é a imagem. Eu fiz uma metáfora, numa dessas reuniões com os educadores de Iases, sobre essas questões relacionadas às transgressões características da adolescência como sendo transbordamentos. Eu construí a seguinte imagem: se você tem um rio onde seu leito é bem marcado, os transbordamentos que vêm inundam as margens, mas depois, voltam para seu caminho normal. Entretanto, se esse leito não é bem definido, os transbordamentos inundam sempre e o rio não volta ao seu leito normal. Então, os valores, os princípios, tudo isso que é passado pela família, pela escola é que vai construindo o 'leito do rio'. Se a criança não recebeu essa formação é quase certo que suas escolhas poderão ser, num futuro, equivocadas.