Vitória (ES), edição de fim de semana
 
A causa ambiental como bandeira
O mar como aliado





José Rabelo


("Existe o risco que você não pode jamais correr e existe o risco que você não pode deixar de correr" Peter Drucker)

Por ter escolhido o distrito de Santa Cruz (86 km ao norte de Vitória) como seu local de moradia, o professor de História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Luiz Cláudio Ribeiro já dá uma pista clara que é um apaixonado pelos refúgios ecológicos ainda preservados. Há 14 anos em Santa Cruz, o capixaba de Vila Velha passou da posição de mero admirador da natureza para a de um militante da causa ambiental. Em 1999, junto com outros moradores, fundou a Associação Amigos do Piraque-Açú (Amip).

O primeiro grande teste da entidade aconteceu quando a prefeitura de Aracruz cedeu uma grande área para uma empresa iniciar a exploração de minério no santuário ecológico. Essa batalha foi vencida pelo Amip com louvor: afastaram a ameaça de instalação da empresa e ainda conseguiram regularizar a reserva indígena de Caieiras II.

A vitória fortaleceu o grupo, que agora tem um outro grande desafio: criar a Apa Costa dos Corais, a Revis de Santa Cruz e a Unidade de Conservação do Piraque-Açú e assegurar em definitivo que essa riquíssima área ecológica não sofra novas ameaças.

Acompanhe a seguir a entrevista do professor Luiz Cláudio Ribeiro, que é mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) e Doutor em História Econômica pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Na Ufes, ele é também professor do mestrado e desenvolve uma linha de pesquisa em História e Meio Ambiente.

Século Diário: - Por que o senhor decidiu militar na causa ambiental?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
Luiz Cláudio Ribeiro: - Eu milito no movimento ambientalista desde 1999, quando eu comecei a participar de uma organização social criada pelos próprios moradores de Santa Cruz, chamada Associação Amigos do Piraque-Açú (Amip). Naquele momento, nós estávamos envolvidos na questão da poluição do Piraque-Açú, que na verdade é uma fenda que avança no continente. Esse braço de mar só vai se encontrar de fato com rio cerca de 10 km acima. Além de ser uma região muito bonita pelos aspectos naturais, é também uma região muito rica em biodiversidade. Num primeiro momento, nos preocupamos em pesquisar todos os estudos disponíveis sobre a região. Para isso buscamos informações desde Augusto Ruschi. Esses estudos confirmaram nossa preocupação sobre a importância de tornar a região uma área de conservação.

- Mas já havia algum movimento nesse sentido?

- Em 1986, essa região, durante a gestão do prefeito de Aracruz, Primo Bitti, se chamava Reserva Ecológica do Estuário de Piraque-Açú e Piraquemirim. Entretanto, essa área de conservação só existe no papel. Até hoje ela não foi implantada. Um dos objetivos da Amip, desde sua fundação, em 1999, era chamar a atenção para implantar de fato essa área de conservação. Inclusive, nessa época, a nossa intenção era de harmonizar seu funcionamento com a vida urbana existente em Santa Cruz, Coqueiral e com as aldeias indígenas da região. A idéia era também transformar a região num pólo turístico, tudo isso com o compromisso de conservar os recursos naturais.

- Em 1999, quando vocês começaram esse movimento, qual foi o papel da prefeitura de Aracruz?

- A prefeitura de Aracruz não tinha nenhuma proposta ou preocupação com a questão ambiental, nem tão pouco tinha recursos ou quadros técnicos competentes. Além disso, não respeitava as legislações nem em níveis municipal, estadual ou federal. A Amip verificou que havia um projeto em áreas indígenas e em áreas de preservação permanente. Mas a prefeitura, passando por cima da população, decidiu permitir a instalação de um pólo industrial de mineração. Já naquele momento, descobrimos que a prefeitura já havia destinado uma grande área, de cerca de 50 mil metros quadrados, para uma empresa chamada Totam Mineração, que só estava aguardando uma liberação final para iniciar a exploração dos depósitos sedimentares de minerais da costa de Santa Cruz

- A Amip conseguiu impedir a instalação da empresa?

- Nós concluímos que a implantação de um pólo com essas características na região provocaria um grande impacto na vida da comunidade de maneira geral e não ia trazer nenhum benefício a médio e longo prazos. Pelo contrário, causaria um grande prejuízo ambiental, porque a empresa dragaria o fundo de mar causando a perda da biodiversidade, erosões nas praias, enfim, promoveria uma série de transtornos que no futuro se tornaria muito difícil de ser revertido. Esses acontecimentos fez com que nós ampliássemos nossas pesquisas e nos indicou que aquela região apresentava características muito interessantes de biodiversidades. Confirmamos que esse era um dos poucos lugares do nosso litoral onde ainda existiam grupos residentes de botos cinzas, um grande número de baleias jubartes, o mero - que é peixe ameaçado de extinção -, o robalo - um peixe comercialmente importante da nossa culinária. Notamos também que algumas espécies já estavam em risco, como é o caso do peroá. Constatamos que todos esses ambientes estavam articulados, tanto o Piraque-Açú quanto a região marinha costeira. Nós cruzamos esses dados com as análises que foram sendo produzidas ao longo desses anos do programa Revizee (Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva). Todos esses estudos comprovaram que havia na região uma grande concentração de biodiversidade.

- Quer dizer, então, que todos esses estudos foram feitos a partir de pesquisas científicas?

- Sim. Nós temos a prática como pesquisadores da universidade, buscamos as informações disponíveis e nos preocupamos em trazer para esses trabalhos professores e pesquisadores com conhecimento comprovado, como a dra. Viviane Testa, dra. Jaqueline Albino, dr Jean Cristóvão Joie. Todos do Departamento de Recursos Naturais da Ufes. Buscamos também informações com pesquisadores da USP, como Leila Lombo, dra Maria Julia Belém, do Museu Nacional, entre outros pesquisadores. Além dos dados científicos, tínhamos também muitas informações do dia-a-dia da comunidade, baseadas nas nossas saídas de observação, das conversas com pescadores etc.

- Havia um outro estudo da empresa que justificava a implantação da atividade de mineração?

  
Foto: Ricardo Medeiros
  
- Exatamente. Há um vício dos estudos ambientais atuais. Hoje os empreendimentos procuram sempre seduzir tanto os governos locais quanto estaduais apresentando argumentos como a quantidade de emprego que irá ser gerada, e justificando também as receitas e impostos que serão arrecadados pelo poder público com a implantação de um novo empreendimento. A prefeitura de Aracruz, naquele momento, aceitou a proposta da empresa de imediato, inclusive ajudando a divulgar amplamente para a sociedade os benefícios que a empresa traria para a região. Mostramos que isso não era verdadeiro, de fato existiam alguns empregos, que poderiam ser gerados, mas isso não significava nenhuma vantagem realmente interessante pelo número de empregos e pelo valor dos salários que seriam pagos. Buscamos então o DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) e o próprio Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e mostramos para esses órgãos que era temerário implantar na região uma atividade com aquelas características. Para se ter uma idéia, havia uma atividade semelhante a essa nos Sul da França, no Mediterrâneo, e o governo francês havia dado um prazo de cinco anos para a empresa que fazia esse tipo de exploração mineral encerrar suas atividades. Descobrimos também no DNPM que, além da Totam, havia uma outra empresa, a Talento Reciclagens, que queria se instalar no local. Se elas tivessem essa permissão para minerar o fundo marinho, explorariam também com certeza a faixa costeira.
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