Vitória (ES), edição de fim de semana
 

'Cheguei a morar em barco
e em casas de barro'





José Rabelo


("A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude". Espinosa)

A médica capixaba Theresa Cristina Cardoso Silva recebeu, no final do mês de abril, o Prêmio Brasil de Medicina. A premiação, considerada o Oscar da medicina, já homenageou nomes como Adib Jatene, Dráuzio Varella e Ivo Pitangui. Os critérios de seleção consideram a relevância dos serviços desenvolvidos na área de pesquisa, na conduta profissional e nos trabalhos sociais realizados. A escolha dos premiados é feita a partir de uma consulta pública com entidades médicas, veículos de comunicação e profissionais liberais de outras áreas.

A vocação pela medicina comunitária da médica infectologista começou ainda na Universidade Federal da Amazônia, quando, no segundo ano da faculdade, ingressou no extinto Projeto Rondon. Sua vontade era desbravar rios e selva em busca de comunidade esquecidas. Mas recentemente a experiência foi na África, num trabalho com a comunidade de Cacine que durou três meses. Hoje, além de ser a médica responsável pelo Programa de Combate à Dengue no Estado, Theresa Cristina ainda arranja tempo para realizar trabalho voluntário no Vale do Jequitinhonha.

Confira a entrevista completa, onde a infectologista revela os números reais da dengue no Estado e fala sobre as principais doenças relacionadas ao meio ambiente que afetam nosso cotidiano.

Século Diário: - Como a senhora iniciou sua trajetória medicina?

  
Foto de: José Rabelo
  
Theresa Cristina: - Eu sou capixaba, mas quando eu tinha 17 anos meus pais se mudaram para o Amazonas. Fiz vestibular para Medicina em Manaus e entrei na Universidade Federal do Amazonas. Onde depois fiz especialização em infectologia pelo Instituto de Doenças Tropicais do Amazonas.

- Então, o fato da senhora estar no Amazonas acabou influenciando sua escolha por infectologia?

- Com certeza, porque lá doenças tropicais e infectologia oferecem um campo de pesquisa bastante amplo. Fiz dois anos de infectologia, mas trabalhei também com hemoderivados - coleta, transfusão e análise do sangue -,e em pronto-socorros. Mas, antes disso, no segundo ano da faculdade me inscrevi no Projeto Rondon. Para atender às populações ribeirinhas dos afluentes do Amazonas. Aí passei por São Sebastião do Acumã, Presidente Figueiredo e outros comunidades ribeirinhas, todas elas bem distantes da capital. Nós ficávamos morando dentro do barco por até 45 dias.

- Mas havia um médico coordenando o trabalho dos estudantes?

- Não, éramos todos alunos. Quando saíamos de Manaus os médicos nos entregavam uma medicação básica. Era uma equipe multidisciplinar de estudantes de medicina, odontologia, educação física, letras. Nós fazíamos atendimentos e desenvolvíamos uma série de atividades com essas comunidades carentes.

- Mas os estudantes de medicina davam somente orientação, não é?

- Não, nós fazíamos atendimento mesmo, como médicos. Aquelas comunidades ribeirinhas eram completamente esquecidas. Por exemplo, eu estive numa ilha fluvial onde moravam somente 17 famílias em palafitas, para chegar até lá era uma verdadeira aventura.

- Vocês devem ter se deparado com uma série de dificuldades...

- Diversas. Por exemplo, nós não levamos soro antiofídico e tivemos um caso de um homem que havia sido pecado por cobra. Fizemos os primeiros socorros e o levamos para o hospital mais próximo para ser medicado. Era muito comum também casos de afogamento. Numa outra localidade, encontrei uma menina de três anos que estava morrendo afogada. Então, o jeito foi fazer respiração boca-a-boca para salvar a criança. Eu acho que nessas horas, nessas situações em que não há recursos, a gente acaba sendo um pouco milagroso até. As pessoas também vêem a gente como uma espécie de Deus.

- Quando a senhora voltou para o Espírito Santo?

- Voltei para o Espírito Santo em 1989. Nessa época, eu estava grávida da minha primeira filha e minha família também já estava em Vitória. Chegando aqui, fiz concurso na prefeitura de Vitória e no Iesp (Instituto Estadual de Saúde Pública). Passei por quase todos os hospitais: Santa Casa, Dório Silva, Hospital das Clínicas. Quando entrei na prefeitura a gestão era do PT e estava sendo iniciado o trabalho de DST/Aids. Logo, aproveitando minha experiência, me colocaram para trabalhar no Centro de Referência de DST/Aids. No Estado, assumi a Coordenadoria do Centro de Zoonoses. A partir daí, as coisas ficaram difíceis para mim, porque eu tinha duas funções extremamente importantes e complexas. Então sugeri que e prefeitura e o Estado fizessem um acordo para me liberar de uma das funções. E desde 1996 estou aqui na Secretaria de Estado da Saúde.

- E qual é exatamente sua função aqui na Secretaria hoje?

- Atualmente, eu sou a única médica da Vigilância Ambiental. Aqui nós tratamos de todas as doenças relacionadas ao meio ambiente. Nós analisamos e monitoramos fatores de risco ambientais causadores de doenças. Por exemplo, nós não 'vigiamos' o ar. Nós fazemos a vigilância de pessoas que adoeceram em decorrência de algum fator relacionado ao ar.

- E Quais são as principais doenças relacionadas ao meio ambiente?

- No caso de fatores biológicos, temos as doenças causadas por picadas de mosquito, como, por exemplo, a dengue, a leishmaniose (tanto a cutânea como a visceral), a malária. Causadas por roedores temos a leptospirose, hantavirose. Na água temos a febre tifóide. Existe também as DTas - Doenças Transmitidas por Alimentos.

- Nesse caso, das DTAs, a Vigilância Ambiental trabalha em conjunto com a Sanitária?

- Exatamente. Quando temos um caso de DTA, a Vigilância Sanitária investiga o alimento que causou a doença, enquanto nós vamos investigar o fato em si, ou seja, quantas pessoas adoeceram, como a doença evolui, sintomas etc. A partir da análise desses dados, depois de sabermos as proporções do surto, nós adotamos as chamadas medidas de controle. Decidimos se é necessário interditar o restaurante, orientamos os médicos para que eles saibam qual será a conduta a ser adotada com o paciente. Por exemplo, recentemente, em Cariacica, tivemos um caso de meningite eosinofílica, um caso bastante raro no Brasil. Tio e sobrinho resolveram fazer uma aposta durante um churrasco para ver quem conseguia comer mais lesmas, essas de jardim. Contraíram esse tipo de meningite que é gravíssima, estão em tratamento até hoje e vão ficar com seqüelas. Nesse caso, identificamos o protozoário, fomos até o local e constatamos que todos as lesmas que se encontravam ao redor dessa residência estavam contaminadas. Então, você pode comer um alface mal lavado num restaurante em Vitória que venha dessa região e contrair a doença. É dessa forma que se dá o trabalho investigativo da Vigilância. Nós mapeamos a área, verificamos a extensão da contaminação, decidimos quais serão as medidas de controle a serem adotadas, orientamos os agentes de saúde sobre a doença, alertamos os médicos.

- E quais são as doenças causadas pelo ar?

- Temos aqui no Estado a Vigiar. Esse é um projeto-piloto que só acontece em cinco cidades brasileiras, entre elas Vitória. As doenças do ar são consideradas um processo não biológico, e essa já não é mais minha área. De maneira geral, a função da Vigiar é identificar os efeitos agudos e crônicos decorrentes da contaminação do ar; avaliar os efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde das populações expostas; vigiar os indicadores de qualidade do ar e da saúde; avaliar os riscos à saúde decorrentes da poluição atmosférica e fornecer elementos para orientar as políticas nacionais e locais de proteção da saúde da população frente aos riscos decorrentes da poluição atmosférica.

- As doenças que surgem na Grande Vitória e no interior do Estado são muito distintas?

- Por exemplo, a dengue é considerada uma doença urbana, então, conseqüentemente, vamos ter maior incidência em grandes centros. Embora, hoje, a dengue esteja se interiorizando, e esse é um fenômeno nacional. A malária aparece mais em regiões montanhosas. Já a leishmaniose visceral só é registrada na zona Noroeste do Espírito Santo, na divisa com os estados de Minas e Bahia. No geral, a região noroeste e a que detém o maior fator de risco para doenças, provavelmente por características daquele ecossistema.

  
Foto de: José Rabelo
  
- De janeiro a abril deste ano, a Secretaria de Saúde registrou 3.515 casos de dengue no Estado, inclusive foram notificados 14 casos de suspeita de dengue hemorrágica. Como está sendo organizado o controle da doença no Estado?

- No nosso Estado, a maior incidência da dengue hoje é em Bom Jesus do Norte, a proporção é 5 mil por 100 mil habitantes, ou seja, de cada 100 mil habitantes de Bom Jesus, 5 mil têm risco de adoecer. Na Serra, embora se tenha 638 casos nesse período (janeiro a abril), a incidência, se comparada a Bom Jesus, com 503 casos, é bem menor, 250 por 100 mil habitantes. Depois temos uma situação preocupante em Nova Venécia, Baixo Gandu e Piúma.
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