('Liberte os outros. Ao libertar os outros, você estará se libertando' - Henfil)
Na última semana de abril, houve um projeto de grande importância para a cultura quilombola na chamada região do Sapê do Norte: "A Primeira Semana do Resgate Quilombola do Porto São Mateus". O local, bonito e bucólico, era porta de entrada dos escravos que vinham da África. Lá ficavam também as sedes das empresas escravocratas. O projeto, que teve o patrocínio da Petrobras e o foi organizado pela Comissão Espirito-santense de Folclore, desenvolveu uma série de atividades culturais na semana. Mas o ponto alto, sem dúvida, foram as palestras proferidas pelo escritor, poeta e historiador capixaba Sebastião Maciel de Aguiar.
Nesta entrevista, Maciel, considerado o maior historiador sobre a cultura negra do Espírito Santo, faz um relato dessa oportunidade inédita que o projeto lhe proporcionou, de poder falar para alunos dos ensinos fundamental e médio das escolas de Conceição da Barra e São Mateus. "Essa experiência foi extraordinária. Esse momento, de poder contar para a juventude a verdadeira história de seus antepassados, que, até então, tiveram esse direito negado pelas elites acadêmicas e historiográficas, foi muito especial para mim."
Maciel, que aos 13 anos de idade andava com o avô pelo sertão entrevistando ex-escravos e fazendo levantamento historiográficos de "personagens esquecidas" pela história tida como oficial, acredita que "vai ser difícil conter essa avalanche extraordinária de interesse do Brasil de hoje pelo o resgate dessa memória. O melhor é que esse processo está sendo impulsionado pelos mais jovens. Você percebe que, sobretudo, as crianças, com as idades mais elementares, têm grande interesse em conhecer o assunto".
Autor de 137 livros, sua última obra publicada é uma biografia de Pelé ("Pelé - O Rei da Bola"). Maciel é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, e já foi secretário estadual de Cultura.
Século Diário: - Qual sua avaliação sobre esse encontro com os estudantes?
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Foto: Nerter Samora
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Sebastião Maciel de Aguiar: - Foi surpreendente, do ponto de vista do interesse demonstrado pela grande maioria dos estudantes presentes nas palestras. Eu calculo que tenham passado pelas palestras cerca de 5 mil alunos. Falar sobre esse tema foi, na verdade, tratar de um assunto presente na vida da maioria desses estudantes. Muitos dos presentes, ao ouvirem as histórias contatadas por mim, se lembraram das histórias que eles ouvem em casa, que são contadas por seus familiares. Eles recontavam essas histórias como histórias não oficiais, que não despertavam o interesse das elites historiográficas. Portanto, uma história que não era levada muito em consideração.
- E qual foi a reação dos estudantes?
- Quando o aluno participa de uma palestra com esse fundamento, que resgata as histórias que eles ouviram em casa, ele se sente muito mais à vontade. Aí as perguntas surgem como uma verdadeira enxurrada. Quando eu abria para o debate, ficava impressionado com o nível de conhecimento que eles tinham do assunto. Não eram perguntas de curiosos. Por isso, eu acredito que destes 5 mil alunos que participaram das palestras, no mínimo uns 4 mil tinham muito conhecimento das histórias e dos temas tratados porque receberam essas informações dos seus antepassados.
- Mas é preciso levar em consideração que Conceição de Barra e São Mateus estão numa região originariamente de negros. Não havia razão para ser diferente. Ali os negros sempre foram maioria e os brancos representavam uma elite.
- De fato. Inclusive, se não me falha a memória, a única escola que não aceitou participar das palestras foi justamente uma escola particular de São Mateus, na qual estudam filhos de funcionários das grandes empresas que se instalaram no local. Já as escolas públicas, que têm na sua grande maioria jovens descendentes de negros, tiveram uma participação maciça. O que eu me refiro é ao conhecimento, não o conhecimento aflorado. Mas era impressionante... quando você puxava um tema, sempre havia um que balançava a cabeça indicando que já conhecia aquela história. Como se ele quisesse dizer: 'Isso eu sei, minha avó contou para mim ou ouvi do meu bisavô', e por aí vai...
- Mas o senhor não espera por isso?
- Não, eu até esperava. Como você mesmo disse, essa é uma região tipicamente de negros. O que eu não esperava era o despertar do interesse extraordinário sobre os temas. Eu tinha uma ligeira desconfiança que o tempo e a historiografia oficial tivessem conseguido aniquilar a memória desses mais jovens, sobretudo a televisão, Big Brother, essas coisas todas. Mas, felizmente, estava redondamente enganado. Essa história está presente. Falta, na verdade, alguém para começar a levantar fatos e dados. É preciso que alguém puxe essas histórias. Para você ter uma idéia do interesse, eu falava para turmas de até 500 alunos. E o que era mais interessante é que eles estavam tão concentrados no assunto que havia um silêncio absoluto no auditório. As professoras comentavam: 'Nossa, no dia-a-dia das salas de aula é uma rebeldia para a gente conseguir conduzir uma aula com 30 alunos, aqui com 500 eles mantêm uma atenção fora do comum'. Eu, realmente, me surpreendi com o nível de interesse de jovens negros e não tão negros com as histórias de seus ancestrais.
- Qual o assunto que despertou mais interesse nos estudantes?
- Houve um grande número de perguntas relativas a uma série chamada "História dos Vencidos", escrita há alguns anos, que tem uma série de personagens. Eles queriam saber mais sobre o período da Lei do Ventre Livre. Eles aprendem na escola que a lei foi sancionada pela princesa Isabel em 28 de setembro de 1871. A partir daí, a lei diz que os nascidos ali tornam-se livres, mas os senhores são obrigados a ser tutores desses jovens negros. Isso na prática não aconteceu. Todos sabem que em São Mateus não interessava mais o sistema escravocrata manter essa lei do ponto de vista da legislação da forma como ela foi feita. Como as crianças negras não podiam mais ser escravizadas, vendidas, permutadas etc., então, eram todas eliminadas.
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Foto: Nerter Samora
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Mas antes disso houve uma outra eliminação, não tão conhecida, que era das crianças portadoras da síndrome de down (a forma mais freqüente de retardo mental causada por uma alteração cromossômica) ou de crianças que nasciam com qualquer outro defeito físico. Essa história começou assim. Imagine, essas pessoas ficaram 250 anos vendendo e comprando gente. A economia de São Mateus era baseada no comércio de escravos. Com a Lei Eusébio de Queiroz, em 1850, que proíbe o tráfico negreiro da África para o Brasil, as coisas mudam completamente. Em 1856, temos o último navio negreiro vindo da África. Uma escuna chamada Mary Smith, que foi apreendida no Porto de São Mateus com 350 escravos. Esses escravos foram devolvidos para a África e os mercadores, todos do Espírito Santo, foram presos. De 1856 a 1871 começa o período das chamadas fazendas de reprodução, criada pelas elites. Nesse período, nenhum negro, com o mínimo problema físico ou que nascesse com peso inferior a três quilos era aproveitado. Eram todos sacrificados. A partir de 28 de setembro de 1871, todos passaram a ser eliminados, não só os que apresentavam qualquer problema físico ou mental. Essas histórias são contadas ainda em casa pelos familiares mais antigos, porém, de uma forma nebulosa, surreal. Quando eu confirmei essas histórias, foi uma integração impressionante.