Vitória (ES), edição de 16 de março de 2007    
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Patos gordos não podem voar



Carlos Calenti Trindade
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas

O problema de Fup, essa pequena maravilha de Jim Dodge, é que é realmente embaraçoso lê-lo no ônibus (onde, diga-se de passagem, grande parte das minhas leituras é feita). Primeiro porque tem um grande pato verde na capa do livro que eu tenho (edição de 1984, Nova Fronteira), o que lhe dá uma enorme semelhança com capas de livros infantis. Mas tudo bem, nós somos adultos e não ligamos para isso, certo? Também há o fato de que o livro é muito engraçado. E você fica rindo sozinho no ônibus enquanto lê. Logo, as pessoas pensam que você é um retardado, que, do alto da sua "adultice", ri sozinho de livros infantis.

Mas toda a graça de Fup reside exatamente aí: esse é um livro que não se leva a sério. Algumas pessoas parecem acreditar que a literatura tem que ser séria, como se seriedade fosse sinônimo de profundidade. O humor que percorre todo o livro de Dodge, no entanto, me transmite justamente profundidade, que é também uma filosofia de vida: a vida não tem juízo. Esse absurdo que é viver e não saber nada pode ser muito engraçado. Vovô Jake, um dos personagens do livro, diz: "Algumas coisas, não é possível explicar, talvez até a maioria das coisas. É interessante pensar nelas e fazer alguma especulação, mas o principal é que se tem que aceitar as coisas tal como são, e seguir em frente com aquilo que se entende".

Fup, o livro, se centra em poucos personagens, na família formada pelo tal vovô Jake, um velhinho jogador beberrão de boca suja e com quase cem anos, que fabrica o seu próprio uísque, "o velho sussurro da morte", que ele acredita piamente o fazer imortal; pelo Miúdo, com quase dois metros, neto de Jake e obcecado em construir cercas e em caçar o Cerra-dentes, um porco-do-mato obcecado em destruí-las; e, por fim, por Fup, uma pata mal-humorada que tem nove vezes o tamanho de um pato normal e que, por isso, não consegue voar.

(O nome Fup, dado obviamente pelo vovô Jake, vem de um trocadilho intraduzível: Fup duck (pato Fup) soa como Fucked Up (fodido)).

Essa família, bem pouco tradicional, passa ao largo do que se vê, por exemplo, nas já clichês famílias disfuncionais dos filmes independentes americanos. Por uma questão simples: eles se gostam e são satisfatoriamente felizes no rancho californiano em que vivem. Mesmo com suas fixações, suas limitações e seus medos, os laços que ligam esses personagens transparecem uma ternura imensa. Uma ternura que também é a que o autor tem com os seus personagens e que nós, leitores, compartilhamos sem reservas. Tanto que o livro virou praticamente um best-seller (na capa está escrito: "um best-seller do underground"!) e um objeto de culto, passando de boca em boca, de mãos em mãos e agora de blog em blog, sempre com entusiasmo. É um livro pra todo mundo que acha que vai ser imortal até morrer.

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Aproveitando que hoje é dia da poesia (coisa que eu acabei de descobrir graças ao ES TV 1ª Edição), aí vai um poema do Jim Dodge, traduzido pelo Joca Terron e descoberto na comunidade do orkut de Fup:

Preceitos básicos e avisos adicionais a jovens escroques

Não tente roubar uma vaca maior que sua caçamba.
Não mostre seu rabo pra Polícia Rodoviária.
Negociatas longas com grana curta é prejuízo na certa.
Não confunda o Evangelho com a Igreja.
Nunca dedure familiares ou amigos.
Evite morar em qualquer lugar onde não dê pra mijar da porta da frente.
Só porque é simples não significa que é fácil.
Não deixe seu olho grande preencher cheques que sua barriga vazia não possa bancar.
Se você não a quer, não a provoque.
Não estacione entre dois cachorrões jogando sujo.
Qualquer um amassa tomates; o foda é fazer o molho.
Nunca se é pobre demais para deixar de prestar atenção.
Não remoa por aí suas paranóias.
Nunca durma com uma mulher que considere isso um favor.
Se for atingido por um valentão, dê-lhe a outra face. Se rolar de novo, atire no filho da puta.
Manter é sempre duas vezes mais difícil do que conseguir.
Nunca atravesse uma cidade pequena a 120 por hora com a filhota do xerife nua na garupa.
Nunca registre o preto no branco.
Se você não está confuso então não tá entendendo nada.
Amar é sempre mais difícil do que parece.

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E-mails para o colunista: carloscalenti@yahoo.com.br


 

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