Numa exposição que discute a relação entre o olho e a paisagem, qual o lugar da pintura? Talvez seja essa a primeira pergunta que fazemos ao distinguirmos o nome de Andréa Abreu entre os participantes da coletiva
Conspectus. Afinal, estamos falando de uma artista cujo processo é marcado pela fixação do movimento na tela, ao pintar, sem intermédio de pincel algum (ela mergulha as mãos diretamente nas latas de tinta) uma série de imagens abstratas. Dessa forma, Andréa promove um deslocamento da paisagem que seus olhos apreendem para o domínio do individual: uma pintura rica em movimento, em cores conflitantes, de modo a permitir ao espectador visualizar, depois de terminada a obra, os gestos "gigantescos" executados pela figura
mignon da artista.
| |
Foto: Arquivo Século
|
|
|
|
Andréa assim descreve seu
modus operandi: "São séries de dez telas, através da técnica de
decoupeé. O processo consiste em afixar, diretamente na parede, um lençol de cretone azul, de 2,2m por 1,8m com o auxílio de um grampeador (rocama). Em seguida, utilizo as palmas e dedos das mãos para pintar (e por vezes os pés), em gestos que se expandem em espacialidade pela superfície da tela. O start é dado quando encho a mão de tinta branca e começo a pintar em algumas partes da superfície azul do lençol. Não utilizo o pincel por que ele é um elemento que me desagrega da pintura. Seguem-se camadas de azul, vermelho, amarelo, branco e preto, escolhidas aleatoriamente, de acordo com a minha necessidade no momento. Sinto que a pintura vai se constituindo muito rapidamente à minha frente, mais um descontrole que um controle. Só me afasto da tela quando a pintura está completada, alguns minutos depois. Como o gesto tem se tornado cada vez mais abrangente em minha pintura, tenho trabalhado com formatos cada vez maiores".
No dia seguinte, Andréa sobrepõe outro lençol ao primeiro, cuja tinta ainda se encontra fresca, e uma nova pintura é realizada no segundo lençol. Pela porosidade (e semi-transparência) do suporte (cretone), as camadas de tinta da segunda tela invadem a tela anterior, fazendo com que as sensações e memórias evocadas pelo gesto pictórico dialoguem, em lugar da sucessão de presentes independentes, instantâneos, que poderíamos obter caso as telas fossem pintadas isoladamente uma das outras.
A série de pinturas continua, uma por dia, até atingir o número de dez telas sobrepostas. Andréa diz que a tinta de uma nova tela pode atravessar até quatro ou cinco telas, deixando resíduos de suas camadas de tintas pelas anteriores. Também a parede sobre a qual os lençóis foram afixados acumula alguns resíduos dessas tintas, num resultado bastante interessante.
É nessa hora que pergunto à artista o porquê dos lençóis: "A escolha desse suporte remete a uma intimidade que possuo com o tecido, marcada pelas lembranças de minha infância no interior de Minas Gerais", ela responde, acrescentando ainda ser o lençol "uma espécie de roupa sobre a qual exerço diversas atividades cotidianas: dormir, ler, namorar, fazer refeições...".
O resultado dessa técnica já havia sido levado a público na segunda exposição individual de Andréa, realizada em 2006 na Galeria Espaço Universitário (Vitória, ES). Mas a grande sacada de
Conspectus foi a de reconstituir o atelier da artista: algumas telas (as primeiras da série, produzidas no próprio espaço expositivo) permanecem sobrepostas, afixadas com pregos na parede do MAES, enquanto que obras "intermediárias" da série estão dispostas sobre um cavalete, sem chassis, manuseáveis pelos visitantes. Apenas as telas finais estão devidamente emolduradas e expostas nas outras paredes da sala. No chão, vemos os resíduos das tintas, fazendo o espectador recordar, o tempo todo, a intensidade do embate entre Andréa Abreu e suas paisagens interiores.
E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com
|