Vitória (ES), edição de 30 de outubro de 2006    
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Letra e Música



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  


Há um paradoxo fundamental na linha de produção de Hollywood, uma indústria que lida com dólares aos bilhões, que negocia tacitamente o domínio cultural de um país sobre o resto do mundo, que tem gabinete próprio na Casa Branca e status de Departamento de Estado, e que ainda assim está inteiramente baseada na tão falível idéia da segurança. É evidente que a essa altura do campeonato os executivos dos estúdios já sabem muito bem que misturas promover, a que astros recorrer, que diretores-artesãos se comportam melhor dentro de certo tipo de gênero, qual público atingir, a que preço e ao custo de quais riscos, e isso torna aquela consciência da segurança uma ciência quase exata. E, no entanto, toda essa estrutura de negócios, que tem na comédia romântica uma de suas mais bem sucedidas e lucrativas empreitadas, acaba no fim das contas dependendo de elementos tão inseguros e impalpáveis como o carisma de um ator ou a química estabelecida entre um casal. Por vias bem diretas, Letra e Música quer lidar exatamente com essa matéria imaterial que dá corpo a tantos filmes.

No plano da construção narrativa, o mesmo acovardamento de sempre. Marc Lawrence segue sendo imune a qualquer tipo de criatividade (como bem sabemos desde seu primeiro filme, Amor à Segunda Vista), e nunca escapamos da obrigação de correção absoluta no modo de filmar encontros, olhares e amores. As piadas do roteiro se saem melhores, mas aqui importa muito pouco essa urdidura dramática, porque não são propriamente os dramas que interessam, nem tão pouco seu desenvolvimento, ou como os personagens se relacionam com sua própria natureza. A comédia romântica, essa que foi reavivada na metade dos anos 90 e da qual Letra e Música é um produto direto, é menos um gênero e mais um laboratório de reações, onde o que vale é a conjugação conseguida entre os elementos ali dispostos, o tamanho e as proporções da explosão que provocam.

De modo que interessa muito pouco que arremedo de trama se traçaria entre o rapaz e a moça, desde que o rapaz fosse o Hugh Grant e a moça fosse a Drew Barrymore: importante mesmo é vê-los juntos, pela primeira vez, saber tirar de cada um aquilo que deles se espera. Este é o ponto em que os atores (e as personas criadas em torno de si) são ingressos que se vendem por conta própria, e se o veículo para esse novo contato é um filme, que se faça algo menos sujeito a turbulências, enfim, algo mais seguro. Ou então um produto que tematize sua própria natureza de fabricação, espécie de documentário do funcionamento intestino desse fordismo artístico.

  
Foto: Divulgação
  


Assim temos dois atores carismáticos, de sucesso e alcance público comprovados por anos de exposição, trabalhando aqui não dentro de personagens, mas dentro da imagem pessoal na qual se sustentam, entre a revitalização de certos traços anteriores (é impossível não pensar no astro pop decadente que Hugh Grant interpreta, com suas danças oitentistas, sem lembrar que essa é apenas a maximização daquele mesmo número musical desengonçado que já o vimos fazer em Simplesmente Amor) e a constatação de uma certa excelência ao se realizar o-mesmo-papel-de-sempre. Nesse ponto, Letra e Música coloca em seu interior um contrapeso bastante eficiente, que consegue dar palpabilidade ao carisma de seus protagonistas. Posto ao lado da cantora adolescente que, na trama, é a grande estrela responsável por reativar a carreira do músico falido, Grant e Barrymore se destacam naturalmente, estabelecendo definitivamente o que é a graça alcançada pelo trabalho e aquela atribuída automaticamente a qualquer garota bonita que vira estrela.

E por fim não é outra a idéia do filme que não a própria construção da química, uma letra que precisa de música para ganhar vida, uma música que só se efetiva quando atrelada a uma letra, fórmula dos casais românticos de centenas de produtos dessa indústria, que ainda assim insiste em falhar de vez em quando, mas que uma vez funcionando - e aqui ela está incrivelmente azeitada - garante sucesso até mesmo em suportes tão melancolicamente inócuos como este. Quando os gêneros todos já estiverem destruídos, quando nenhum diretor meia-boca for capaz de assumir um projeto desses, ainda assim restará gente como Drew Barrymore e, sobretudo, como Hugh Grant (este quase-gênio), e esses nunca falham.


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