Domingo é dia...





Tavares Dias



Coisa boa é domingo. Pelo menos para as pessoas não-solitárias.

Eu gosto. Por mim, tinha mais de um toda semana. Até uns três eu tinha coragem de aceitar, sem reclamar. Mais, não. Periga virem esses japoneses, coreanos e chineses, tudo nego linguarudo, dizer que a gente é preguiçoso. Pega mal demais.

Domingo, pra mim, é que nem aquela bola que o nosso zagueirão tira de bico pela linha de fundo, no futebol de várzea, e joga lá na outra rua, por cima de um monte de casas, quando a gente tá levando sufoco do adversário nos últimos minutos de um jogo que a gente está vencendo a duras penas por um gol de diferença. Até ela voltar, amigo, a gente já respirou, bebeu água, molhou a cabeça, essas coisas.

Domingo é dia de mar, de rio, de lagoa, de roça, de montanha. Dia de pescaria, pra quem gosta. De ver um bom dvd, quem sabe mais de um. Dia de dormir de tarde. É dia de prestar mais atenção ao biorritmo da gente, afinar o instrumento corpo, deixar de estar personagem e ser apenas pessoa, deixar de representar esses papéis que tantas pessoas esperam que a gente siga representando (como infelizmente a gente também espera delas), dia de ser só a gente mesmo. Exceto, é claro, no caso daquelas pessoas que eventualmente dão plantões nos finais de semana, ou que trabalham todo domingo. Nesse caso, o domingo costuma ser outro dia e ter outro nome.

Domingão é uma beleza. Dia de tirar espinhos dos pés da molecada, passar rifocina nas perebas que eles arrumam no sítio, na praia, na pelada, no pique-esconde, sei mais lá onde. É quando a galerinha fica mais doce, mais dengosa, mais colada na gente. Coisa de primeira.

Dia de boa música, de um churrasquinho, pernas pra cima, conversa de pé de orelha com parentes, amigos e compadres.

Dia de ficar lagartixando, jiboiando, espreguiçando, ficar de pomba-rolou, que é tudo uma coisa só, mas, como o esporte, pode ter várias modalidades. Afinal, cada um à sua moda e estilo.

Mas, como nada é perfeito, tem uns negócios danados pra estragar domingo. Um deles é atender ligação telefônica de serviço de telemarketing. Horrível. Melhor é xingar o vendedor. Eu xingo mesmo. Fim de semana não, tá doido?

Outra coisa medonha é visita de mala, gente sem limite. Nesses tempos de e-mails e celulares, o melhor é não tender interfone no domingo. Pelo celular e pelo e-mail, fica mais fácil de espanar pra lateral e jogar lá no fosso a mala sem alça que quer te visitar justamente no domingo, sem que a amizade tenha densidade suficiente pra justificar a visita.

Também tem outra coisa horrível pra domingo: derrota do time da gente. Sempre tem um cretino que liga pra te gozar. Nesses casos, melhor não atender telefone depois das seis. Ou só atender o celular, pra você poder identificar o cretino e fingir que a bateria caiu, enquanto vai deixando a cabeça desinchar.

Tem outras coisas piores, mas aí já é melhor deixar barato. Tem coisa que não vale lembrar. A tal da segunda-feira, então... oh, falei...rs.