Vida de Imigrante - O espelho da vida




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA



Depois de uma noite longa e maldormida, acordo e deparo com um estranho ser no meu quarto. Cabelos desgrenhados, envolto numa estranha bruma cinzenta, rosto enrugado e assustado. Uma alienígena fugindo de seu planeta ameaçado de extinção? Ou um fantasma que errou o caminho do limbo?

Tateio em busca dos óculos e a névoa desaparece de repente. Um pente resolve o problema do cabelo, um banho quase-frio melhora a aparência do rosto. Ah, o que seria de nós sem os espelhos? Na Veneza da Idade Média, o vidro era tão precioso que sua fabricação era considerada segredo de estado. Os empregados eram pessoas mudas - ou lhes cortavam as línguas - para que não revelassem a preciosas técnica.

Os italianos também guardavam a sete chaves a receita de seus queijos e seus vinhos. Inventaram o latim e Sofia Loren, e se não inventaram o macarrão, por certo o aperfeiçoaram. Os alienígenas brasileiros que se espalham pelo mundo são odiados na França e amados na Itália. Ou vice-versa. Somos considerados predadores ambientais, mas não criamos núcleos racistas intolerantes, como outros imigrantes.

Tem um filme chamado "Jackie e Onassis", em que Jaqueline Kennedy é a santa e Maria Callas a vilã.. Tem outro filme chamado "Callas e Onassis", em que Callas é a santa e Jackie a bruxa. Tudo uma questão de ponto de vista. Nos dois filmes, o verdadeiro vilão é Onassis, o grego.

O feio Aristoteles era o homem mais rico e portanto mais poderoso, e portanto mais cobiçado do mundo. Andava com as mulheres mais bonitas e mais famosas do mundo. Um cruzeiro pelo Mediterrêneo em seu iate Christina era o sonho de muita gente importante. O homem mais rico do mundo hoje, Bill Gates, não dá e não freqüenta festas fabulosas, é bem casado e não anda com mulheres famosas. Gates criou o estilo anti-playboy.

Um jornal compara a visita de Bush e de Clinton ao Brasil. Nos tempos de Clinton os americanos ainda eram bem-recebidos e Clinton podia se dar ao luxo de ser amigável e brincar de burlar seus segurança. Agora temos uma guerra perdida, e como num filme ruim, o diretor não sabe como terminá-la.

As eleições americanas esquentam. Pela primeira vez, uma mulher e um negro são candidatos a candidatos. E Bush sabe que, nessa disputa, quem sai perdendo é ele. Que os anjos digam Amém. E os entendidos já vislumbram os muitos problemas que surgirão, se um desses dois for eleito.

No caso de Hillary, como o marido vai ser chamado? Primeiro cavalheiro? No caso de Obama o problema é mais sério. Sendo mestiço, há dúvidas em como definir sua raça. Afro-americano não se aplica bem, porque ele é filho de uma branca e um negro muçulmano. Todas as outras definições são consideradas pejorativas.

Aguardem nova adição ao complicado vocabulário politicamente correto. Como a guerra de Bush, essa coluna também não sabe como terminar. Melhor se auto-implodir, levando junto todos os espelhos, os políticos, e os playboys do mundo.