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Foto: Arquivo Século
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| A capa do catálogo de 30 anos Galeria Espaço Universitário
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Uma curiosa anedota da virada dos anos 80 para os 90 serve como poderosa ilustração do papel da galeria Espaço Universitário na cena das artes visuais capixabas dos últimos 30 anos. Na época, a discussão sobre "conceito" ainda estava ausente do meio acadêmico da Ufes (embora fosse um dos principais horizontes da produção artística mundial desde meados dos anos 60). Por conta disso, Neusa Mendes (que esteve à frente da galeria durante 27 anos, e que foi quem me contou esse episódio há alguns anos) montou a curadoria de uma série de três exposições que discutissem o estatuto do conceitual na produção capixaba da época. Um dos trabalhos, assinado por Orlando da Rosa Farya, consistia num saco cheio de laranjas deixado no chão da galeria. "Apenas" um saco de laranjas. Muita gente na época não entendeu o que aquele objeto estava fazendo na exposição, ainda mais se pensarmos que se tratava de uma galeria mantida pela academia para promover a formação e ampliar o repertório dos profissionais das artes plásticas.
O tempo foi passando e as laranjas iam aos poucos apodrecendo, até que restasse apenas um odor peculiar e um punhado de bagaços murchos. E aí que a obra, supostamente "perecível", metamorfoseava-se: o líquido que vazava do saco, à medida que as laranjas iam se decompondo, formou, no chão da galeria, uma mancha, uma espécie de gravura prensada pelo volume do objeto. E foi a partir deste momento que se pôde enfim perceber que o mero saco de laranjas sintetizava o propósito daquela curadoria: pensar a obra não como contemplação, mas como investigação, como deslocamento de um pensamento. Até hoje a "gravura" está visível no chão da galeria.
Esse trabalho do Lando me faz refletir acerca do conflito que a arte contemporânea tem com a própria formação de acervo: muitas obras importantes são perecíveis, exatamente por estar nessa condição de efemeridade a discussão que seus artistas propõem. Fico imaginando como museus e galerias podem lidar com essa condição da obra que se degrada como parte de seu processo e, dada a centralidade que esse tipo de produção tem dentro da contemporaneidade, indago as formas de manter um acervo representativo que contemple tal situação (e logo me vem à cabeça aquela linda escultura gigantesca de gesso do Carlito Carvalhosa, que ia do teto ao chão do MAES, no final de 2004, durante a exposição
Impermanência e Transitoriedade, e que foi pensada exatamente para ser destruída ao final da mostra, ou ainda o belíssimo
Chorinho, com a cola quente aplicada diretamente por Hilal Sami Hilal numa exposição no Museu da Vale poucos anos atrás).
Por essas e outras questões, saber que o Espaço Universitário esta semana lança o catálogo de seu acervo completo, dentro das comemorações dos seus trinta anos, é motivo de muita comemoração. Afinal, estamos tendo acesso à mais representativa coleção de artes visuais mantida em solo capixaba, que engloba desde nomes fundamentais do cenário nacional (e que tiveram exposições importantes lá) até episódios importantes da trajetória completa de vários dos principais nomes locais: nele, podemos encontrar diversas fases de artistas como, entre outros, Orlando da Rosa Farya, César Cola, Hilal, Freda e Hélio Coelho, que abre uma individual nesta quinta-feira (e que será assunto de uma coluna posterior). Poder adquirir e levar pra casa uma amostra desse material tão precioso é um prêmio que todos nós ganhamos - e, ao qual, merecidamente, temos direito.
Afinal, o Espaço assumiu a função, durante essas três décadas, não só de apontar a produção emergente local, mas de referendá-la, trazendo como contrapontos alguns nomes seminais das artes brasileiras (Amílcar de Castro, Rubens Gerchmann, Bispo do Rosário), além de coleções importantes como as gravuras do Museu Nacional de Belas Artes (ainda na década de 80), a coleção do Museu Castro Maya, as cinco exposições de Lasar Segall, o Miró, que acabou ocupando o térreo da Biblioteca da Ufes em 95...
Se lembrarmos que, antes da inauguração do Museu da Vale e do MAES, não havia museu de artes plásticas no Espírito Santo, fica mais fácil perceber o quanto o Espaço Universitário funcionou como uma espécie de proto-museu (inclusive a partir da instalação de sua reserva técnica no começo dos 90, com o patrocínio obtido pela Bolsa Vitae). "Os alunos da Ufes, em meados da década passada, não conheciam a geração antecedente simplesmente porque não havia um museu", recorda Neusa Mendes. "Isso abriu espaço para que realizássemos
Procedência, um projeto que aconteceu na virada do século, para pontuar a produção local dessas décadas". Nesse projeto (interrompido com a nomeação de Neusa para a Secult, em 2003), foram realizadas retrospectivas de Lando, Hélio Coelho e César Cola, reapresentando o conjunto de sua produção sob o viés de suas respectivas trajetórias para toda uma nova geração.
Isso só foi possível graças à respeitabilidade que o acervo do Espaço Universitário possui, exatamente pela preocupação anterior em cruzar a investigação/provocação da produção local, trazer alguns momentos importantes da história da arte e apresentar o trabalho de grandes artistas nacionais que serviram de referência para os locais. Se formos comparar com o acervo da Homero Massena, que também comemora três décadas de atividade este ano, a diferença sobressai gritantemente: afinal, o acervo da Homero foi constituído a partir de um percurso bastante irregular de exposições, muito por conta das constantes trocas de gestão a cada eleição. Essa força que o acervo do Espaço Universitário possui, essa coerência entre o conjunto das obras que o compõem, configura-se indubitavelmente como um grande texto curatorial.
Ao vislumbrarmos a trajetória desse conjunto de artistas, em exposições tão marcantes quanto algumas que vi durante os treze anos que acompanho o cenário capixaba (
Objeto Obeso, a coletiva
5031,
Brain Slicer,
Sedução, a série
Procedência, a individual de Rosana Paste em 2002, a homenagem a Freda Jardim, entre tantas outras), fica visível a formação de acervo como uma trajetória também: afinal, estamos falando não de uma curadoria posta, em que o curador restringe-se a escolher entre obras anteriormente produzidas, mas sim, de um processo paralelo à construção da obra. Como uma vez me disse Neusa: "Quando você constrói um texto curatorial, você não pode fazer descolado do artista. A minha necessidade de construção do texto é sempre junto à obra".
E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com
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