Vitória (ES), edição de 30 de outubro de 2006    
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Motoqueiro Fantasma



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  


No prólogo de Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, EUA, 2006) somos avisados que o herói, ao contrário do que se poderia esperar, não é único. Não a própria encarnação da bondade e da justiça, muito menos a figura na qual todas as vontades de transformação do mundo se acumulam, e explodem em super-poderes e salvamentos mirabolantes. O Motoqueiro é apenas uma recorrência. Sempre que necessita, seja lá para qual tarefa, o Diabo (ele mesmo) convoca um cidadão comum a estabelecer com ele um pacto, a realização de todos os seus desejos em troca da venda de sua própria alma. Foi assim ao longo dos milênios, da penúltima vez a coisa se deu no ambiente do Velho Oeste americano de 150 anos atrás e agora, em sua mais recente versão, é de Nicolas Cage que o Coisa Ruim tirará o justiceiro de crânio aparente e flamejante.

Mas antes que cheguemos a Nicolas Cage, há o tal prólogo, e ali, no momento em que o contrato faustiano é assinado, Johnny Blaze é apenas um garoto, interpretado por outro ator, numa época passada. Motoqueiro Fantasma começa naquilo que só podemos entender como sendo a década de 80, com todos seus pecados, seus excessos e suas virtudes, e isso não é mera coincidência. Há aqui um herói de história em quadrinho que tem, como todos os outros da Marvel, uma crise existencial, um trauma familiar, alguma densidade psicológica. Mas o grau de complexidade deste caso é muito maior, porque estamos lidando com uma dupla personalidade radical. Não apenas um fotógrafo nerd que eventualmente voa pela cidade lançando teias de aranha, ou um pacato cientista que, quando irritado, fica verde e musculoso. O Motoqueiro carrega um paradoxo ancestral, eterno, pois equilibra dentro do mesmo corpo o justiceiro comandado pelo Diabo e o super-herói que salva inocentes (um trabalho, portanto, divino). É a própria materialização da luta entre o Bem e o Mal.

Seria virtualmente impossível que Motoqueiro Fantasma, filho da geração recente de produtos de cinema que se aproveitam dos produtos de quadrinhos, assumisse com a integridade necessária uma causa tão pouco industrializada como a de seu protagonista. Para a nossa surpresa, no entanto, o diretor Marc Steven Johnson não se exime do confronto com ela. Se mergulhar na perturbação psicológica do Motoqueiro e investir naquilo que comumente se chama de "humanização" não é uma opção, que se tome a via contrária, onde tudo o que se queira tirar deste drama de identidade é sua aparência, sua superfície, ela mesma já bastante contaminada pela competição entre o céu e o inferno (e não é o chão, a superfície terrena, exatamente o elemento a separar as alturas das profundezas?).

É aqui que os anos 80 jogam um papel fundamental. O filme vira o passeio sentimental por uma década de grandes filmes ruins, ali onde foram feitos os belos filmes de terror e aventura que ainda passam na tevê de vez em quando, filmes absolutamente despreocupados com a conseqüência de suas ações, com a fundamentação de seus princípios, filmes sem projeto, verdadeiramente pós-modernos em toda sua entrega ao momento. De Sexta-Feira 13 a Coração Satânico, de Mestres do Universo a Os Aventureiros do Bairro Proibido: teremos aqui o mesmo clima de becos escuros e úmidos, ilhas de medo e violência plantadas no seio das cidades grandes, a mesma insistência na trilha sonora de sintetizadores e solos macabros e distorcidos de guitarra, o mesmo prazer em equilibrar efeitos computadorizados de última geração e a boa e velha explosão de faíscas (o plano magnífico em que o Diabo, travestido de Peter Fonda, chega ao circo em que o jovem Johnny Blaze trabalha é cheio dessas faíscas), o mesmo humor corrosivo e deslocado (ou para que mais serviria a careta que o garçom faz quando Eva Mendes pergunta se ela é bonita, senão para o puro prazer de se fazer comédia física?).

Obviamente, o lado diabólico da personalidade do Motoqueiro perderá a luta, e sua cruzada pelo bem seguirá, fazendo com que os culpados sofram por todas as vítimas que afligiram, e poupando os verdadeiramente inocentes. Mas do mesmo modo que é impossível esquecer que este herói tem o crânio maligno exposto e sempre em chamas, também não há como disfarçar a boa surpresa em ver mais um caça-níquel da indústria do entretenimento tão explicitamente ousando brincar de ser um filme da Sessão da Tarde, desses que já não se fazem mais hoje em dia.


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