Vitória (ES), edição de 16 de março de 2007    
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Curtas na tela



Leonardo ViSo


  
Foto: Divulgação
  
O curta Rosália, que será exibido nesta terça (20), na Mostra
Já começo com um aviso: é quase uma matéria feita entre amigos. Era para escrever um texto mais formal, sem piadinhas restritas a poucos. Tarefa bem simples: falar sobre a Mostra CurtaGrav que acontece terça (20) e quarta (21). O problema seria entrevistar colegas e fingir que assim não eram. Não é questão de não saber separar profissional de outras relações ou muito menos de "dar uma forcinha" para eles, deixemos isso para os eventos que realmente precisam desses artifícios. É melhor já deixar tudo claro.

A mostra CurtaGrav é uma realização do Grupo de Estudos Audiovisuais da Universidade Federal do Espírito Santo, o Grav. Não foi à toa que a Ufes (em frente ao Cineclube Metropolis, para ser exato) foi o local escolhido para conversar com os organizadores da mostra e fundadores do Grav. Em meio a conversas paralelas e o barulho do fim da sessão de O Labirinto do Fauno, o professor Alexandre Curtiss fala sobre o grupo, do qual é orientador (há um ano o Grav virou um projeto de extensão da universidade). "Começamos as atividades no segundo semestre de 2003. Diz a lenda por causa de uma disciplina que eu dei sobre crítica de cinema", conta.

Terra em Transe, do Glauber Rocha, foi o filme que inaugurou as sessões do Grav. Curtiss relata que no início o grupo escolhia os filmes aleatoriamente, mas o resultado não era satisfatório. Para melhorar as discussões, resolveram tirar melecas. "Fizemos uma lista com vários diretores. Cada nome foi escrito em um papel que depois de bem dobrado ficou a aparência de uma meleca. E dessas melecas (atualmente 254) sorteamos um nome", explica Curtiss. Depois de sorteado o diretor, são escolhidas três obras do mesmo para serem assistidas e discutidas pelo Grav, semanalmente.

Enquanto Curtiss me falava sobre o Grav, ao meu lado Kênia Freitas, que também faz parte do grupo, ouvia toda a conversa atentamente. Aliás, partiu dela as informações que o professor esquecia. É divertido ver como as memórias têm funcionamentos diferentes sobre o mesmo assunto. Deixo o Curtiss de lado, um pouco, e ouço a Kênia que me dá mais detalhes sobre o funcionamento do grupo. Ela conta que após assistirem os três filmes de um diretor, o grupo faz um debate sobre as obras assistidas. Esse debate é gravado e transcrito. A intenção é que no final desse processo sejam elaboradas resenhas críticas para serem publicadas em uma revista produzida pelo grupo.

A conversa retorna para Alexandre Curtiss. Para ele, mais do que discutir a produção audiovisual, o Grav tem a pretensão de fazer essa discussão com identidade própria. Ele acha que a revista terá um papel importante, pois será reflexo dessa identidade. E promete na publicação uma abolição de todos os equívocos que encontra em revistas do gênero. "Farei o papel do editor mesmo. Acho que será preciso selecionar muito bem o que será publicado, para não cometermos os mesmo erros", disse. Apesar de parecer fazer a linha dura, é o próprio Curtiss quem diz que hoje o funcionamento do Grav é de um jeito "solto", já que os participantes têm liberdade de se organizar dentro do grupo de acordo com seus interesses. De uma dessas aglutinações, surgiu a idéia de realizar mostras.

Mostra CurtaGrav
A mostra CurtaGrav é a segunda organizada pelo Grav. Kênia Freitas conta que a primeira aconteceu em 2006, e tinha como tema o cinema latino-americano. Ela também informa que, simultaneamente, está sendo produzida para abril uma mostra dos filmes do diretor russo Andrei Tarkovski.

No primeiro dia da mostra que começa nesta terça (20), serão exibidos sete curtas-metragens de diversos lugares do Brasil. No segundo dia, acontece uma retrospectiva com diretor Erly Vieira Jr., com a exibição de quatro trabalhos e um debate com o diretor. Para ter mais detalhes da mostra, Kênia me indica falar com o jornalista Vítor Lopes que é o curador da mostra.

A conversa então agora é com Lopes. Muda também o ambiente, agora estamos na rua da Lama, pacata no começo da semana, no mesmo bar onde Lopes afirma ter tido a idéia de fazer a mostra. Seu telefone toca. É Erly Vieira Jr. comentando sobre a repercussão que estavam tendo. Lopes se diz um pouco assustado com o burburinho que a mostra vem causando, mesmo que no fundo ele se mostre bem feliz com isso. "Eu tinha acesso a catálogos de festivais de cinema e também a vários de seus realizadores. Via que muita coisa não era exibida no Estado. Freneticamente comecei a mandar e-mails falando da intenção de realizar a mostrar, daí foram chegando os filmes", narra. Ao todo, Lopes mandou mais de 500 e-mails, os quais resultaram em 20 trabalhos e desses foram selecionados sete. "Muitos responderam falando que a idéia era muito interessante, mas não mandaram os vídeos. Estou esperando", brinca.

Para chegar na seleção dos setes filmes, Lopes usou como um dos critérios o ineditismo dos trabalhos no Espírito Santo. "São trabalhos muito bons que foram inclusive rejeitados por festivais capixabas. Com exceção de um deles, todos os outros nunca foram exibidos aqui", explica. Os outros filmes ficam para as próximas edições da mostra, que deve acontecer a cada três meses. Um detalhe sobre a mostra é que ela será ao ar livre. "É uma forma de torna o evento mais acessível e para termos um espaço de confraternização e de encontro. Se fosse dentro de uma sala de cinema, assim que acabassem os filmes as pessoas iriam embora".

Já em relação à retrospectiva da obra de Erly Vieira Jr, Lopes explica que veio da necessidade de se recuperar filmes que ficaram "perdidos" depois de terem sido pouco exibidos e também se ter espaços de debate com os diretores de curta-metragem. "É um espaço que não é muito dado a quem faz curtas. Os diretores sentem falta de críticas sobre seus trabalhos. Convidei o Erly por ele ser um diretor acessível e aberto à discussão sobre seus filmes". Então, vamos ver o que pensa Erly Vieira Jr: o sabatinado.

Retrospectiva
Quando começo a conversar com Vieira Jr, ele solta: "Vai me sabatinar também? Tenho medo dos jovens turcos do Cahiers du Cinemá de Vitória". Ele considera o trabalho do Grav muito importante por ser a primeira experiência no Estado de uma mostra em que o foco é a produção crítica. "Montar em retrospectivas, repensando o conjunto da obra de um diretor sobre o viés do pensamento crítico, é algo formidável. Ainda mais agora que alguns realizadores locais estão num estágio de possuírem um conjunto de obras audiovisuais quantitativa e qualitativamente significativo", afirma. Apesar de achar cedo para chamar seu conjunto de trabalhos de obras, ele afirma está bastante lisonjeado com o convite.

O diretor lamenta a falta de espaços no Estado que discutam as visões que cada realizador tem sobre as temáticas e linguagens que ele aborda, seus pontos de vista sobre os assuntos tratados nos filmes e vídeos ou sobre o próprio "fazer audiovisual". "Quase toda vez que se abre espaço para discutir o audiovisual local, o assunto recai nas políticas, nas leis de incentivo, na falta de recursos, ou seja, fala-se de política e economia, mas nunca de estética. Por mais que também ache importante discutir as condições de produção e recepção das obras", completa.

  
Foto: Divulgação
  
O curta Rosália, que será exibido nesta terça (20), na Mostra
Sobre as expectativas para a sabatina, ele conta que está bastante curioso sobre o que será perguntado e ouvir opiniões diversas sobre as coisas que realizou. "Provavelmente, haverá uma série de pontos de vista totalmente novos, há a chance de discutirmos coisas as quais eu talvez não tenha percebido tão claramente. O papel da crítica é levantar questões, confrontar pontos de vista, fazer a obra crescer". Ele atenta para a possibilidade da discussão gerar nele um "incômodo bom" que pode motivá-lo a produzir mais, tentando responder com novos filmes e vídeos às questões que são lançadas. "Assim sendo, toda discussão é bem-vinda. Eu acho que eu só tenho a ganhar e, de certa forma, todos nós ganhamos quando as idéias são debatidas, confrontadas, reformuladas, reescritas", diz o homenageado.

Serviço
Mostra CurtaGrav. Abertura nesta terça (20) e retrospectiva do diretor Elry Viera Jr na quarta (21), às 19h, no Pátio interno do Cemuni V, Centro de Artes, Ufes (Campus De Goiabeiras. Avenida Fernando Ferrari, 514, Vitória). Entrada Gratuita.

Saiba mais!
Clique aqui e acesse o site do grav

Clique aqui e acesse o blog da mostra


 

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