Fique bem claro que o foco da crise criada pelo naufrágio da CPI do Grampo está na área de segurança pública do governo do Estado. Foi de lá que se manobrou o aparelho de escuta telefônica conhecido como Guardião, responsável pela interceptação ilegal de cerca de seis mil telefonemas durante as investigações do assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, e que deu origem à CPI.
A desastrada operação do Guardião - a bisbilhotar as atividades de advogados, cidadãos de bem e até de jornalistas - resultou na exoneração do então secretário de Segurança do Estado, Rodney Rocha Miranda, depois que uma pífia investigação policial por ele determinada apontou como responsável pelo grampo em "A Gazeta" um anônimo funcionário da operadora Vivo.
Esse dado é muito importante para evitar interpretações dúbias do problema capazes de desviar o próprio rumo das investigações sobre o ato de terror praticado contra a repórter Cristina Moura, de Século Diário. Se tais investigações forem mesmo adiante, como esperamos.
As atas das reuniões da CPI, que Cristina Moura examinou de forma criteriosa e explorou nos cinco texto iniciais da série publicada por Século Diário, mostram que o boicote às investigações da comissão foi comandado por gente da cúpula policial. São flagrantes as contradições e incongruências encontradas nos depoimentos desses funcionários convocados para depor.
Ninguém sabia de nada, ninguém viu nada, ninguém ouviu nada. Levado ao conhecimento da sociedade por Século Diário, o teor dos depoimentos - até pela sua fragilidade - mostrou com clareza por que a CPI terminou sem um relatório conclusivo e sem o indiciamento de um único suspeito.
Houve pressão externa e - mais grave ainda - negociação política para que a CPI chegasse a lugar algum. As especulações sobre a abertura de uma vaga na Assembléia para ser ocupada pelo suplente Rudinho de Souza, que presidiu a CPI, estão aí para comprovar tais manobras.
Portanto, o ato de terror de que Cristina foi vítima tem origem em algum biombo do poder que domina o Estado atualmente. Quem é a "gente graúda" que o autor do telefonema anônimo menciona e que tenta proteger por meio de métodos intimidatórios?
Ele cita ainda, no telefonema, "algum preso perigoso" que pode ganhar a liberdade em troca de um atentado contra a vida da jornalista. Quem pode dar liberdade a presos perigosos acautelados pelo Estado? Quem tem esse poder?
A sociedade sabe que a polícia - qualquer polícia, de qualquer estado - tem sua banda podre. Evidentemente, essa banda podre representa uma ínfima fração da corporação policial como um todo, em sua maioria constituída de profissionais sérios, competentes e dedicados.
Se quiser chegar ao culpado - ou culpados - do inominável ato de terror praticado contra Cristina Moura, a polícia terá que cortar na própria carne. Com isso, estará atendendo não apenas a um clamor da cidadania - que não admite mais esse tipo de ação política -, mas a uma necessidade da própria instituição policial.
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