Vitória (ES), edição de 27 de março de 2007    
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Verdades Cambiáveis



Carlos Calenti Trindade
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas

A Lara, uma amiga minha, me disse uma vez, quando soube que o livro que eu estava lendo era escrito por um judeu: "Ah! De novo, Betão!? Não dá mais, né!? Depois de tudo que eles estão fazendo com os palestinos". Ainda bem que ela não me viu com o Adeus, Columbus, do Phillip Roth, um judeu americano, tal como o Jonathan Safran Foer, autor do livro que resultou na reprimenda acima.

Adeus, Columbus, o livro, é composto por uma novela (também nomeada de Adeus, Columbus) e mais cinco contos, e é o primeiro livro que Roth escreveu, lá pros idos de 1959. Todas as narrativas, de uma forma ou de outra, têm suas tramas tangenciadas pela relação dos personagens com o judaísmo. Em algumas, esse é mesmo o tema central. A maioria também carrega o humor judeu típico, disseminado pelos filmes de Woody Allen: com ironia, famílias superprotetoras e tudo mais.

Tudo se ilumina, o livro de Safran Foer, tem algumas semelhanças com o Adeus.... Ele também é o primeiro livro do autor, foi publicado quando Jonathan tinha quase a mesma idade (25 anos) que Roth tinha quando lançou seu primeiro livro (26 anos), tem o judaísmo como centro da trama e é cheio de humor. Mas o livro é um romance contemporâneo e é também repleto de diferenças em relação ao outro.

(Na verdade todas essas relações são bastante arbitrárias, são formas da crítica criar seus discursos, referenciá-los. Dizer (como já foi dito por outras pessoas) que o Foer é o novo Roth, ou que eles têm pontos em comum (que é o que tento dizer), pode ser uma grande mentira, mas completamente aceitável e verdadeira dentro dos limites e das verdades cambiáveis que um texto cria em sua coerência, dentro dos seus argumentos, que não precisam ter uma correspondência exata com a "realidade". A crítica que eu mais gosto é aquela que cria outro mundo a partir da obra que analisa, que usa o livro (no caso) para construir e exibir o seu modo de ver as coisas. Assim, a crítica é uma ficção, e, na ficção bem engendrada, mentiras são verdades).

As narrativas de Roth são bem lineares. A novela que dá título ao livro, por exemplo, conta a história da descoberta e da trajetória de um amor entre dois jovens judeus americanos de forma bem clássica: início, meio e fim; introdução, desenvolvimento e clímax; apenas uma voz narrando em primeira pessoa e etc. O que é sempre um descanso, um alívio das formas intricadas e complexas que a literatura pós-moderna utiliza. De vez em quando eu gosto de pegar um livro que conte uma história assim pra ler, linear e inteligentemente.

Já o romance de Foer tem duas vozes narrativas diferentes, se utiliza de duas instâncias de relatos, além de cartas, e intercala uma história no presente e uma no passado. Tudo para contar a história do personagem com o mesmo nome do autor, um escritor americano que vai para a Ucrânia atrás da história de sua família e do povoado de origem, Trachimbrod. A narração dessa aventura é feita pelo guia ucraniano de Jonathan, chamado Alexander Perchov, que não sabe inglês muito bem. Por isso essa parte do livro é cheia de pequenos erros engraçados de (devido à tradução) português. Ele por exemplo chama dinheiro de moeda-corrente o tempo todo, ou em vez de dizer que têm insônia diz que "permanece consciente com bastante atraso".

A outra parte do romance é a história do povoado (shteltl - em iídiche) de Trachimbrod através dos séculos, até o nazismo chegar aos seus limites e interrompê-la. Trachimbrod parece uma Macondo judia e européia, e a história é cheia de momentos que se aproximam bastante do realismo fantástico, como o Livro de Sonhos Recorrentes, onde os moradores do shteltl escrevem os seus sonhos.

Entre essas partes do livro se interpõem cartas de Alexander para Jonathan, que em alguns momentos são desnecessárias, explicando demais alguns aspectos do romance, mas que em outros momentos são extremamente comoventes, transformando o guia ucraniano, definitivamente, no grande personagem do livro.

Por mais que a busca pela reconciliação de Foer (personagem) com sua família e também com seu povo seja essencial para o desenvolvimento do romance, ela também não deixa de ser um "pretexto", na verdade um contexto, para que sejam contadas as relações familiares e pessoais que ligam esses personagens. Nisso, Tudo se ilumina se aproxima de Adeus, Columbus. Na novela principal do livro, o judaísmo e as diferenças entre judeus pobres e ricos, conservadores e ortodoxos, servem como uma espécie de infra-estrutura que baseia o romance entre os personagens principais, Neil Klugman e Brenda Patimkin, e seus relacionamentos familiares (nesse aspecto há uma personagem memorável, a tia de Neil, Tia Gladys, supra-sumo da super-proteção mal-humorada).

Ambos os livros também compartilham o efeito de nos motivar a ler mais obras dos autores. Do consagrado Roth fica a felicidade de saber que existem muitas obras consideradas ainda melhores que Adeus, Columbus para desfrutarmos. De Safran Foer, a expectativa do que vem por aí (o seu segundo romance: Extremamente alto & incrivelmente perto já foi lançado no Brasil).

Mesmo sabendo o que os judeus andam fazendo com os palestinos.

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