Vitória (ES), edição de 27 de março de 2007    
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A mão tagarela



Erly Vieira Jr.
Atualizado toda Terça-feira, às 16 horas

Garatujas são desenhos de criança que mais se assemelham a garranchos. Foi com esse nome que Hélio Coelho batizou as figuras misteriosas retratadas em seus desenhos e pinturas, em especial nesses últimos dez anos. Algumas delas são constituídas de verdadeiros emaranhados, num traçado intricado, repleto de detalhes inquietantes, como os mil olhos que parecem surgir de algumas telas - não à toa, uma delas tem como título: Eu tenho sete olhos para te ver, eu tenho sete espadas para me defender.

Por isso, não se espante se, durante a exposição de Hélio no Espaço Universitário, aberta na última quinta-feira (22), você tiver a impressão de estar sendo observado, como se fosse uma floresta e os olhos de diversas criaturas espreitassem no meio da noite escura. Ainda que seja dia. Ainda que o branco predomine na maioria dos trabalhos.

"A tela branca me dá medo. É como se fosse uma porta fechada e ali dentro estivesse algo pavoroso. Fico diante dela, e depois de algum tempo crio coragem e meto o pincel. Faço umas manchas aqui e ali e o medo vai embora. Só aí é que eu vejo que aquele medo era pura tolice." - Esse é um trecho do depoimento do artista, aplicado na galeria como espécie de introdução ao admirável mundo das garatujas.

Desenho e pintura aqui parecem se confundir o tempo todo. Definir onde um termina e onde o outro começa é quase impossível, inclusive para o próprio artista. Explicando o processo de elaboração de um trabalho chamado O rei, Hélio diz que primeiro ele fez uma pintura colorida, para em seguida aplicar uma camada de tinta branca, desconstruindo a figura anterior e permitindo a instalação de um novo conjunto de desenho/pintura, enquanto que a sobreposição do branco às camadas coloridas provocavam um efeito furta-cor, meio violeta, meio azul... Tal qual um vitral visto do avesso, como ele mesmo compara.

O processo de Hélio Coelho vem de uma inquietação: "Eu quero furar a parede. Colo a tela na parede, pego o lápis de carpinteiro e desenho: esse encontro do lápis com a textura irregular da parede me ajuda a exaurir a gastura com muito mais prazer", declara ele, numa conversa nossa ao telefone, no dia seguinte à abertura da exposição. E essa inquietação sempre existiu: quando criança, aos 3 ou 4 anos de idade, ele só conseguia dormir após rabiscar qualquer coisa. Às vezes, ele acordava e ficava desenhando no escuro, enquanto o atrito da ponta do lápis com o papel o acalmava.

Essa individual marca o retorno de Hélio Coelho a Vitória, depois de quase três anos trabalhando em Porto Alegre com cinema de animação. Inclusive, a exuberante vinheta de abertura do projeto Revelando os Brasis leva a assinatura de Hélio, e demorou diversos meses para ser construída, tamanha a profusão de detalhes. Só na confecção dos cenários, com dezenas de figuras coloridas pintadas em lona, recortadas e coladas uma a uma, foram necessários três meses. O resultado é impressionante, de modo que a "mascote" do projeto, uma câmera de vídeo com tripé, dotada de asas e que levanta vôo, é o tipo de imagem que persiste na memória muito depois de terminada a exibição da vinheta.

E de onde surgem essas figuras? "As figuras surgem compulsivamente. Tenho a mão tagarela", revela o texto na parede da galeria. Segundo Hélio, é só ele fechar os olhos que elas vêm, numa intensidade absurda. Numa outra passagem desse depoimento, ele revela: "É comum eu sonhar com as pinturas. Sonho com as imagens falando comigo, sonho até com coisas que ainda não pintei. As cores também ficam falando". Segue-se a narração de um belíssimo episódio, em que ele diz ter sonhado com a cor amarela, que se transformou numa sombra quase de dimensões humanas, e começou a se queixar de que ele estaria preferindo pintar com o vermelho, deixando-a de lado. Hélio diz que, quando acordou, pintou uma linda tela amarela, e conclui o texto com um "Sonhar colorido faz bem".

Ver Hélio Coelho pintando, inclusive, é uma experiência muito empolgante: as figuras surgem sempre de formas inusitadas, saborosas. Eu tive o privilégio de vê-lo em ação três vezes, todas nos últimos cinco anos: a primeira, num evento em que ele pintou sobre a tela de projeção do Cine Metrópolis, experiência que considera uma das mais intensas que ele viveu; a segunda, quando, ao cair da tarde, ele pintou o muro do já desativado Casarão d'Afeira, num evento realizado em fevereiro de 2003; a terceira, quatro meses depois, durante a confecção do estande da Secretaria de Estado da Cultura na I Bienal Capixaba do Livro. Nas três ocasiões, senti-me hipnotizado pela compulsão de Hélio em produzir essas verdadeiras tatuagens. Aliás, observando uma das telas em exposição, denominada Os populares, dá vontade de tatuar no corpo inteiro todas aquelas figuras estranhas, inquietas, fascinantes, tão tagarelas quanto a mão que as desenha.


E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com


 

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