Vitória (ES), edição de 30 de outubro de 2006    
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É Tudo Verdade (em fragmentos)
Três destaques do primeiro fim-de-semana da maior mostra de documentários do país



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  


Santiago, de João Moreira Salles

Apresentado na abertura do festival, o novo filme de Salles trabalha com dimensões paralelas, vive delas, quer expor a construção do documentário de maneira vertical: não apenas aquilo que se registra da realidade e que, montado seqüencialmente, ganha um "efeito de verdade", mas o modo como se opera esse registro, os artifícios utilizados para consegui-lo, a denúncia da fabricação dessa verdade. Maior, no entanto, que um simples meta-filme, a Santiago interessa também mergulhar no documentário enquanto o processo íntimo de um cineasta que, em algum momento, decide virar seu olhar para um determinado objeto ou personagem, e que nesse contato com um indício tangível da realidade (uma casa, uma pessoa, uma coleção de papéis), precisa também pensar, questionar, e colocar em crise a sua própria realidade, seu modo de relação com o mundo e com o cinema.


João Moreira Salles retorna ao material que filmara em 1992, mas que nunca conseguira montar, uma série de entrevistas feitas ao longo de cinco dias com o ex-mordomo de sua família, o argentino Santiago, e também imagens que fez da casa em que nascera e onde vivera com a família até a juventude. Nestas imagens originais havia o confronto com sua memória afetiva, com os anos passados com os irmãos e os pais, com as impressões deixadas pela figura tão altiva de Santiago, e a tentativa de resgatar isto através do restabelecimento do contato com o mordomo e com a antiga casa da família Salles, agora vazia e abandonada.

A frustração desta primeira tentativa se arrasta até o segundo confronto. Em agosto de 2005 o cineasta decide retomar o projeto de treze anos antes e agora, não bastassem suas lembranças da infância, precisa também lidar com sua postura ética e artística durante as filmagens, lidar com a natureza do ser documentarista, com o peso dos anos e dos outros trabalhos realizados neste intervalo de tempo.

Há o clássico olhar sobre o outro, sobre o mordomo e suas histórias de vida, mas numa outra dimensão, surgida no subtítulo "reflexões sobre o material bruto". Há também o olhar sobre si mesmo, e aqui Santiago assume uma pessoalidade por vezes até mesmo cruel. O desencanto de João Moreira Salles com sua postura na relação estabelecida com Santiago é evidenciado por uma narração em primeira pessoa que acompanha todo o filme, e que vai desvendando e questionando todos os métodos utilizados em 1992, bem como suas tentativas de repor, em 2005, a franqueza e a dignidade que faltaram no momento da filmagem.

Santiago é um filme de culpa e redenção, e se resolve muito bem quando assume isso. É, de certa maneira, a confirmação de uma metalinguagem intrínseca à própria natureza do documentário, de modo que nunca estamos lidando diretamente com a realidade, ou com determinado recorte político, histórico ou social dentro dela, mas que filmes desse gênero são, em última instância, documentários da relação que um cineasta cria com o mundo. Os melhores momentos do filme são aqueles em que João Moreira Salles se entrega completamente à disposição em reverenciar a figura e a memória de Santiago, e tudo aquilo que elas deixaram de marca em sua própria vida. Quando insiste num certo didatismo investigativo da caixa-preta do documentário, reafirmando inúmeras vezes a impureza desse processo de captura do real, colocando em xeque toda a espontaneidade que se supõe diante de um filme assim, aí Santiago acaba perdendo aquilo que, paradoxalmente, é sua maior força: o fato de que o caráter de fabricação de qualquer produto de cinema, seja ele documentário ou ficção, é incapaz de, por si só, condenar aquele filme à falta de vida e pulso. Desde que haja alguém disposto a enxergar essa pulsação nas imagens (como este João que olha para seu passado e quer atualizá-lo), sempre existirá a possibilidade de fazer correr sangue pelas veias deste produto.

Acampamento de Jesus (Jesus Camp ), de Heidi Ewing e Rachel Grady
Iraque em Fragmentos (Iraq in Fragments), de James Longley

  
Foto: Divulgação
  




Estes dois filmes americanos, indicados ao último Oscar na categoria de documentário, trabalham exatamente na mesma chave. O que interessa aqui é perceber a relação entre a religião e a política, o modo como aqueles que tomam parte de determinada fé acabam, eventualmente, também assumindo posturas partidárias clássicas, num processo cultural de tal modo estabelecido que os próprios rumos da política mundial acabam sendo determinados não mais em parlamentos, mas em igrejas ou mesquitas.

O que surpreende, no entanto, é ver reproduzida no coração da América, em Acampamento de Jesus, a mesma lógica doutrinária que sempre supúnhamos ser uma marca do Islã. É o que a própria pastora-chefe do tal acampamento diz, com todas as letras: os mulçumanos começam a treinar suas crianças dentro da crença do Alcorão a partir dos cinco anos de idade, então por que não fazer o mesmo aqui?

Veremos então a indústria da crença evangélica americana sendo aplicada em crianças de não mais que 12 anos, um acampamento de férias onde os pastores ensinam a eles como a ciência é falível, e por isso o criacionismo é a única explicação possível à evolução da humanidade, ou então como o aquecimento global é uma farsa e, partindo de uma campanha anti-aborto, como a América precisa se livrar das impurezas e voltar a ser a Nação de Deus que sempre foi. A relação entre esta lavagem cerebral imposta às crianças e a política de George W. Bush é evidente (não só veremos um culto em que uma pastora traz uma foto em tamanho natural do presidente americano e conduz as crianças a adorá-lo como se fosse um santo, como também saberemos que o chefe de todas as igrejas crentes do país tem acesso livre ao gabinete da Casa Branca, e tem reuniões semanais com Bush, para definir sua agenda político-religiosa).

  
Foto: Divulgação
  



No Iraque pós-invasão americana veremos a mesma relação, mas em chave totalmente oposta. Ali, Iraque em Fragmentos perceberá que a queda de Saddam Hussein e o restabelecimento político de diversas facções religiosas oprimidas pelo regime anterior, ao invés daquela fé cega/faca amolada que sempre imaginamos, gera uma incrível clareza e consciência da conjuntura do país.

Reunidos também em cultos, os mulçumanos iraquianos utilizam esse espaço da religião para aguçar sua visão sobre a postura do invasor e sobre as determinações necessárias ao povo local para resistir e confrontar as forças de ocupação. Todos os entrevistados, inclusive algumas crianças, sabem exatamente os motivos da invasão e os danos que ela causou ao país, falam do interesse pelo petróleo e do descaso com a população submetida a este novo regime opressor, agora disfarçado de cavaleiro da democracia. Vemos um Iraque que ainda engatinha no rumo de um equilíbrio entre a religião e a política, nas imagens da perseguição brutal a vendedores de álcool em feiras públicas, nas cenas de auto-flagelo, ou então no registro da confusão de nervos durante as primeiras eleições no país, mas é impossível dizer que esta relação é baseada na má-fé e no ditatorialismo de certos grupos poderosos. Muito diferente da América de Acampamento de Jesus, onde a promiscuidade entre o Estado e a fé parecem muito mais assustadores.


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