Vitória (ES), edição de 27 de março de 2007    
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O som da terra



Henrique Alves

  
Foto: Divulgação
  
Pena Branca: 47 anos de música caipira
Representante do que há de mais legítimo e fiel à cultura caipira, a dupla Pena Branca e Xavantinho se desfez em 1999, com o falecimento de Xavantinho. Mas Pena Branca não quis arrumar outro parceiro. "Se eu fosse arrumar outra dupla, ia mudar o estilo. Prefiro seguir na carreira solo para dar continuidade ao que a gente fazia", conta. O violeiro, cantor e compositor se apresenta nesta quarta-feira (28), a partir das 19h30, em Vitória. Por telefone, Pena Branca proseou com Século Diário.

Sem a companhia do irmão, Pena Branca já lançou dois discos: Semente Caipira (2000), cujo repertório foi elaborado com Xavantinho, e Pena Branca canta Xavantinho (2002). O show desta quarta vai trazer canções destes discos, além das indispensáveis Cálix Bento, Cuitelinho, Jardim da Fantasia e, lógico, Cio da Terra.

Naquele sotaque puxado da gente do interior, de uma simpatia simples e cativante, Pena Branca explica como será o show. "É uma coisa bem nossa, bem tradicional. A gente começa com o Caetano, o Canto do Povo de um Lugar [e cantarola, "todo dia o sol levanta/ E a gente canta/ Ao sol de todo dia"]. Embora seja um trabalho de moda de raiz, vai ser bem pra cima. A minha maior felicidade é quando eu subo no palco e vejo lá embaixo o povo cantando". Sua viola de 10 será acompanhada pelo baixo, violino e bandolim de Ricardo Zoi e pela percussão e vibrafone de Priscila Brigante.

Foram 40 anos de dupla. E 20 anos para gravar o primeiro disco. Os irmãos de Uberlândia sedimentaram uma carreira no Triângulo Mineiro e no Centro-Oeste, se apresentando em feiras e bailes sob as alcunhas de José e Ranulfo [José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca e Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho], Peroba e Jatobá, Zé Mirante e Miramar, depois Xavante e Xavantinho e, finalmente, Pena Branca e Xavantinho.

A mudança para São Paulo em fins dos anos 60 tem a ver com o batizado definitivo da dupla e com a consagração irrevogável de seu talento.

Por Minas Gerais, eles se apresentavam em trio, os dois irmãos - Xavante e Xavantinho - mais o sanfoneiro Pinagi. O trio se chamava "Pena Branca". "Mas aí fomos pra São Paulo. O Pinagi ficou, ele tinha uma namorada por lá, essas coisas... Chegando em São Paulo, já tinha um tal de Xavante, e a gente não queria repetir, não é? Então resolvemos usar o nome do nosso trio lá de Minas. E aí nasceu o Pena Branca e Xavantinho", conta.

Quando resolveram tentar a sorte em São Paulo, com certeza eles sabiam que seria pedreira. Mas não imaginavam se deparar com tantas dificuldades. Tentaram por vários caminhos chegar ao sucesso. Em vão. Pena Branca chegou a desistir da carreira.

"A gente estava acostumado com Minas Gerais, a dupla ensaiada, tudo certinho. Então, a gente pensou, em São Paulo seria a mesma coisa. Mas não foi. Em São Paulo, ou tem que ter padrinho, ou tem que ter dinheiro. Como a gente não tinha dinheiro, o jeito seria ter um padrinho", relembra Pena Branca.

Apadrinhados
E arranjaram um: uma produtora do apresentador Rolando Boldrin. "Nóis era u'a espiga de mio e ela foi lá e debuiô nóis", conta. Assim, em 1980, eles chegaram ao Festival MPB-Shell, na Rede Globo, em que classificaram a música Que terreiro é esse?, de Xavantinho. No mesmo ano, o produtor Roberto Oliveira, da WEA, convidou a dupla para gravar seu primeiro disco Velha Morada.

Sobre a ameaça de deixar tudo de lado, resgata Pena Branca: "O Xavantinho era mais 'cabeça', mais consciente das coisas. Eu era também. Mas era muito apavorado, sabe? Eu pensava 'Ih, ta demorando muito. Vamo voltá'. Achei que seria fácil. Mas aprendi que a gente tem que trabalhar para conseguir as coisas.".

  
Foto: Divulgação
  
Cio da Terra e Cálix Bento estão no repertório do show
Outra vitória memorável na carreira da dupla foi o disco Cio da Terra (1987). Nele a dupla pôs abaixo a diferenciação entre o repertório matuto e o urbano. "Naquela época, era tudo separado na nossa música, samba, música caipira", diz. Reforçando a inovação, Milton Nascimento participou da gravação da música-título, cuja autoria é dele e de Chico Buarque. "Foi a primeira 'quebrada' desse gênero na nossa música. Diziam 'Nossa, uma dupla caipira cantando com um cara da MPB!'.

Quando respondeu a Século Diário o que a cultura caipira havia dado à cultura brasileira, o músico Renato Teixeira afirmou: "Todos os países precisam cantar seu lado espiritual, poético. A moeda de mais valor no mundo de hoje é a emoção. E a música caipira tem isso no relacionamento com a terra, no cultivo da terra, formatando, assim, a cultura brasileira".

A visão de Pena Branca acerca da riqueza da música caipira vai pelo mesmo caminho. "A música caipira está no coração, no sentimento do povo". Foi breve, mas muito claro.

Serviço
O show de Pena Branca será nesta quarta-feira (28), a partir das 19h30, na Estação Porto, no Armazém 5 da Codesa (Avenida Getúlio Vargas, Centro, Vitória). Entrada franca.

 

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