Que nem morcego dormindo





Tavares Dias


Não é nova a percepção de que o mundo está de cabeça pra baixo, que nem morcego dormindo. Ou, mais precisamente, que os conceitos de certo e errado, as relações de causa e feito, de estar livre e estar preso, muitas vezes estão confusas. O que era parte passa a ser o todo, o que era todo vira parte, o determinante passa a ser variável, por aí.

Por exemplo: um sujeito me disse que usa drogas porque é livre. Uai, livre pra ser dependente? Dessa liberdade aí, compadre, eu passo. Minha parte eu quero em euro. A mim parece mais lógico dizer que bom é o que liberta e ruim é o que prende, que tal?

Pra mim, pessoalmente, a esculhambação passou do aceitável.

Minha primeira trombada com a percepção de que a harmonia se rompera aconteceu há muito tempo, lá na juventude. Fazia já uns cinco anos que eu vivia no Rio quando voltei à minha terrinha natal, por entre as montanhas Gerais, e convidei minha turma pra matar a saudade dos velhos tempos com uma boa serenata.

A idéia foi bem-recebida, mas o estranhamento não tardou.

-Quem passa na Delegacia?, ouvi de um dos amigos que continuavam morando por lá.

-Como, Delegacia?, perguntei.

-Ah, agora, pra fazer serenata, a gente precisa de autorização da polícia.

Até uns poucos anos antes, o único risco que alguém podia correr, pelas madrugadas de Tumiritinga, era o de pegar um resfriado. Ou de desmaiar de bêbado e ser conduzido pela polícia, num gesto humanitário, para dormir na Delegacia, no estrito sentido de evitar algum problema de saúde causado pelo ventinho úmido que às vezes sobe do Rio Doce para a cidade, de madrugada.

De lá pra cá, por mais de 30 anos, o que tenho visto é a barbárie se instalando rápida e inexoravelmente, sem que a perplexidade geral permita sequer um ensaio de reação.

Hoje, como se sabe, filhos não respeitam pais, o princípio da autoridade foi pro saco, pais matam filhos, filhos matam pais, políticos roubam como nunca, o narcotráfico mata e manda matar, desafiando o poder constituído, antigos democratas narcotizados pelo poder viram patéticos e imperiais ditadorezinhos bananeiros, o crime organizado domina a política mundial.

A boçalidade é a tônica. O jornalismo cada vez mais se mistura com a publicidade. Colunas de futilidades pululam pelos principais veículos de comunicação do país. Na televisão, muitos jornalistas já não sabem se são jornalistas mesmo, se são palhaços ou algum outro tipo de artista. Atletas fazem propaganda de drogas. A velha Igreja Católica, sempre ela, condena a camisinha, incentivando seus fiéis a seguir na contramão do combate ao flagelo da Aids.

A cultura imposta pela Nova Roma, com seu calvinismo caduco, faz confundir realidade com fantasia; faz seu próprio povo comer todo o lixo que sua publicidade descompromissada vende como se fosse alimento, produzindo um grotesco amontoado de obesos compulsivos; seu cinema ensina crianças e adolescentes a matar colegas em escolas, bares e supermercados; apregoa que o país dos outros é o seu quintal, e que ali vale tudo; afirma que é ético e moral destelhar a casa do mundo para cobrir a sua própria.

Todo império é estúpido, mesmo, caso contrário não seria império. Se a Nova Roma fosse o Brasil, não sei se não seria melhor, o que de toda maneira não pode servir de consolo nem de atenuante para a monstruosidade atual que oprime o mundo.

Mas, apesar de parcialmente anestesiado como tantos, ainda consigo me chocar com certas coisas. Me conta um amigo que, dia desses, chega de uma festa, de madrugada, com a noiva, e precisa passar em frente a uma boate gay. Na calçada do estabelecimento, um grupo de rapazes conversa alegremente. Ao ver o casal, um deles faz uma pose caricata, uma expressão de nojo, aponta para meu amigo e sua noiva que caminham abraçados em direção à portaria de seu prédio, e solta a pérola:

-Que coisa mais antiga, homem com mulher.

É mole ou quer mais?