A tela na minha frente parece um imenso campo de futebol vazio onde é preciso criar um jogo, de preferência com meu time ganhando. E não mais que de repente, descubro que tudo já foi escrito e reescrito - todos os jogos jogados, alguns perdidos, alguns ganhos. Final de campeonato.
A vida é um jogo, nada mais lugar-comum, mas que fazer se é verdade? Já disse um filósofo fazendo as vezes de juiz da partida, por que desprezar os lugares-comuns, se eles refletem a voz do povo? E para não desperdiçar outro lugar-comum, sabemos que a voz do povo é a voz de Deus. Ou a vida, como o jogo, é uma caixinha de surpresas.
Plagiando a muito plagiada frase de Pessoa, Jogar é preciso. Tenho que pôr a bola no campo, e quando o juiz chamado Tempo apita, tenho que achar palavras capazes de seguir as regras do jogo. Um verbo toma a bola de uma conjunção, domina na entrada da área, dribla um substantivo, passa um erro de concordância, chuta - a bola vai fora.
O juiz apita, mas o relógio não obedece ao jogo interrompido e continua correndo...
Numa entrevista, perguntaram ao Veríssimo onde achava assunto para manter sua substanciosa coluna diária. Ele não disse que era mais bem dotado, ou mais inteligente, ou mais criativo que os outros, no que foi modesto. Disse apenas que precisava se organizar. E temos aí mais um plágio (outra vez) para Pessoa: Organizar é preciso.
Os escritores americanos famosos (e ricos) têm uma equipe trabalhando nos bastidores, pesquisando assuntos potenciais aos quais eles têm apenas que acrescentar o toque do gênio. Primeiro colaborador, "Oh, tenho uma ótima. Escreva sobre a nova moda de banir as modelos magricelas dos desfiles".
"Não, a medida chegou tarde demais. Quando a coluna for publicada, todas já terão morrido de bulimia". O segundo colaborador se adianta, "Tenho aqui as novas leis de imigração do Bush..." O escritor lembra as centenas de outras colunas que já escreveu sobre o assunto, "Não, os projetos de lei de imigração do Bush, como a guerra do Iraque, não chegam nunca a um final feliz".
E o terceiro colaborador, "Ah, temos outro candidato a presidente americano que é latino com raízes brasileiras". O escritor se entusiasma, "Esse parece um bom assunto... quais as chances dele ganhar?" " Zero". "Então não serve. O que mais vocês têm aí?" Silêncio entre os bem-pagos colaboradores. O escritor arranca os cabelos, "Estou lhes pagando para me trazerem boas idéias"... Deve ser um emprego difícil.
O juiz apita, tempo esgotado, hora de mandar a coluna. Mais uma vez o jogo termina empatado. Talvez o próximo...
|