Vitória (ES), edição de 08 de novembro de 2007
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Diáspora negra



Leonardo ViSo

  
Foto: André Cypriano
  
Isidia Ramos da Costa. Nas tradições africanas, as mulheres e os mais velhos são os responsáveis pela transmissão oral do saber e do conhecimento. Esta é uma referencia estrutural na existência e manutenção do espaço tradicional dessas comunidades. Comunidade: Curiaú, Macapá (AP).
Quando a Lei Áurea foi decretada é bem capaz de os quilombos não terem acreditado nela. Muitos morreram sem saber que um dia ela existiu. Aliás, ela existiu? Há quem tenha toda certeza que não. Argumentos não faltam para mostrar o quanto a população e a cultura negras são marginalizada no Brasil. Lembram da tentativa de cotas na Universidade Federal do Espírito Santo e suas conseqüentes manifestações?

Hoje, 119 anos após a Princesa Isabel ter "liberto os escravos", ainda encontramos mais de dois milhões de brasileiros que vivem em mais de 2 mil e quinhentos quilombos espalhados pelo país. Os remanescentes quilombolas estão em praticamente todos os estados. Seja em áreas cujo metro quadrado vale muito, como no meio da zona sul carioca. Ou seja, em terras "pertencentes" a grandes empresas como a Aracruz Celulose. Teimosos, insistem em resistir.

Dois parágrafos depois, finalmente vem o motivo dessa matéria falar sobre quilombos - não que eles por si só valham uma reportagem. Nesta quinta-feira (8), será aberta a exposição Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência, do fotógrafo documentarista André Cypriano. Quarenta fotografias de 11 comunidades quilombolas compõem a exposição. As fotos são frutos do livro homônimo oriundo da pesquisa e da cartografia do geógrafo e pesquisador Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, professor da Universidade de Brasília (UNB), com imagens de André Cypriano.

A curadora da exposição Denise Carvalho ressalta a importância da cartografia - e das conseqüentes fotos geradas - para a comunidade quilombola. "As fotos mostram a diáspora negra da África até os dias de atuais", disse Denise. Ela explica que para escolher as comunidades para serem fotografadas foram usados critérios como diversidade regional e receptividade ao trabalho.

Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência retrata - literalmente - o cotidiano das comunidades quilombolas, abordando temas como as relações com a terra e a territorialidade, o desenvolvimento sustentável (resgate da cultura local, principalmente com o incentivo ao artesanato e à agricultura), as relações sócio-culturais nas diversas manifestações festivas e religiosas, a preservação dos vínculos e manutenção da ancestralidade dessas comunidades e seus principais personagens.

Para as fotos da exposição Cypriano, trabalhou com negativo convencional preto-e-branco, tratado digitalmente. Quilombolas... segue a linha do fotógrafo que documenta há vários anos estilos de vida e práticas de sociedades em lugares menos conhecidos nos remotos cantos do mundo, com uma tendência para o raro e extraordinário. É possível que o "extraordinário", no caso dos quilombos, ainda deva ser aqueles que insistem em não reconhecer sua legitimidade. Cada papel que se prestam a fazer que só resistindo.

Serviço
A Casa Porto das Artes Plásticas abre a exposição Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência, com fotografias de André Cypriano, nesta quinta-feira (8), às 19h, para convidados, e na sexta-feira (9) para o público em geral. Praça Manoel Silvino Monjardim, 66, Centro, Vitória (antiga Capitania dos Portos). Visitação de segunda a sábado, das 10 às 20h, até 21 de dezembro. (27) 3381-6929.


 

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