Vitória (ES), edição de fim de semana
 
‘O domínio da cultura geral é uma
característica marcante do colecionador’

Conhecer a história é o grande segredo





José Rabelo


("O segredo da felicidade consiste não em fazer o que se gosta, mas em gostar do que se faz." James M. Barrie)

Foto: Syã Fonseca
  
O jornalista e publicitário Léo Amorim (foto) nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (sul do Estado). Mas antes mesmo que aprendesse a falar mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu pai era funcionário público federal e a função dele exigia mudanças constantes e repentinas. A vida “nômade” impediu que Amorim construísse amizades duradouras. Para piorar as coisas, ele também não tinha irmãos para brincar ou mesmo para brigar. O jeito foi se adaptar à vida solo. Como passatempo, ele se dedicou à leitura. Aos 10 anos já havia lido quase todos os livros das Edições de Ouro e outras publicações, como a revista “Eu Sei Tudo”, que para ele, à época, “era uma fonte de descobertas fantásticas”.

Mas, como toda criança também gosta de brincar, Amorim ganhou um jogo de botões de presente. O novo brinquedo despertou sua vocação para o colecionismo. Depois dos botões vieram os chaveiros, as canetas e as moedas. Ainda na Copacabana dos anos 50, fazendo mais uma peregrinação diária à banca de jornais, Amorim se deparou com uma imagem inusitada que lhe encheu os olhos. “Aquele pequeno retângulo colorido, que fez o mundo parar por um instante, se transformou no primeiro cartão da minha coleção. Exibia, despudoradamente nu para aquela época, a foto de um índio Xavante com o olhar feroz e a expressão estranhamente infantil dos guerreiros indígenas do nosso Brasil selvagem”.

Do Xavante para cá, o colecionador já juntou mais de 40 mil cartões-postais. Ele é dono do primeiro cartão que circulou no mundo, em primeiro de outubro de 1869, o Correspondenz Karte, idealizado por Henrich Von Sthephan, do Império Austro-Húngaro. O colecionador tem outras raridades que ele garante que não vende, não troca, nem empresta. Para ele, o verdadeiro colecionador não faz nada pensando em ganhar dinheiro depois.

Como Amorim não coleciona cartões para ganhar dinheiro, ele também precisou trabalhar “um pouco”. Quando começou no jornalismo, em 1966, no jornal “A Tarde”, já estava morando em Salvador. “Iniciei como todo mundo, como repórter de polícia. Depois passei para a televisão. Fui um dos fundadores da TV Tribuna – concessionária da Rede Globo na Bahia. Quatro anos depois fui para a TV Tupi, no Rio de Janeiro. Da Tupi fui para a Globo Rio. Paralelamente, comecei a entrar na publicidade. Trabalhei na JMM Publicidade no Rio”. Depois dessas experiências em publicidade, Amorim passou a se voltar mais para a arte. “Desenvolvi um tipo de ilustração que era uma inovação no Brasil: ‘a colagem pura’. Apresentei esse projeto para as revistas de São Paulo e houve um grande interesse. Em 1974 me mudei para São Paulo e durante 20 anos fui o único ilustrador que trabalhava com esse tipo de técnica”. A criação da técnica acabou fazendo com que Amorim passasse por quase todas as editoras paulistas, das pequenas às grandes. “Fui convidado para dirigir a revista da Fotoptica (primeira revista especializada em fotografia no Brasil). Depois apareceram outras revistas. Foi aí que o vírus do jornalismo me pegou novamente. Comecei então a fazer ilustrações e muitas vezes matérias para essas publicações”. Esgotado, Amorim decidiu aceitar o convite para dirigir as rádios Tupi e Difusora (Emissoras Associadas), onde permaneceu por seis anos, até o seu fechamento, quando o grupo Associados quebrou. “Nessa época, os Buaiz tinham acabado de comprar a rádio Vitória e me chamaram para cá. Acabei dirigindo a rádio Vitória por cinco anos, até me desentender com eles. Voltei novamente para São Paulo, desta vez para a Ilha Bela. Morei três anos por lá, mas não me adaptei. Entretanto, não quis voltar para São Paulo e voltei para o Espírito Santo”.

Século Diário: - Além de colecionar cartões, o que o senhor está fazendo atualmente?

Léo Amorim: - Estou escrevendo meu segundo livro.

- Qual o assunto?

- Não posso revelar ainda.

- O primeiro é sobre o quê?

- Sobre sexo. A Ponto G – uma rede de sex shopping de São Paulo – me encomendou o livro. Como fui repórter de polícia por muito tempo, tinha um vasto material sobre prostitutas, garotos de programa, tarados sexuais etc. Eu tinha essas anotações guardadas que serviram de inspiração para o livro. A primeira edição do “Tratado das Taras” está esgotada. Vou lançar outra edição agora.

  
Ipanema e Leblon década de 30
- Como começou a fascinação pelos cartões-postais?

- Além de ser filho único, meus pais mudavam constantemente de cidade. Ficava difícil para fazer amigos. Isso me levou a optar por atividades individuais. Comecei a ler muito cedo. Com 10 anos tinha lido quase todos os livros das Edições de Ouro. Paralelamente aos livros me dediquei às coleções. A primeira foi de jogos de botões. Dos botões passei para chaveiros, depois para canetas, etc. Colecionar sempre foi uma coisa que me instigou. A coleção por cartões-postais eu iniciei quando morava no Rio de Janeiro, na década de 50. Um belo dia, na visita diária e infalível à banca de revistas da rua República do Peru em Copacabana, esquina da minha infância, onde comprava balas, revistas de sacanagem de Carlos Zéfiro e a inesquecível ‘Eu Sei tudo’, brilhou no canto do meu olho uma coisa pequena e colorida que, nas andanças pelo mundo dos meus poucos quarteirões, não tivera chance ainda de conhecer. Estava ali ao alcance das minhas mãos, balançando ao vento como se fosse um ovni. Era um cartão postal. Colorido, brilhante e que me deu a sensação de ter acabado de descobrir a entrada do túmulo de Tutankamon. Aquele pequeno retângulo colorido, que fez o mundo parar por um instante, se transformou no primeiro cartão da minha coleção. Exibia, despudoradamente nu para aquela época, a foto de um índio Xavante com o olhar feroz e a expressão estranhamente infantil dos guerreiros indígenas do nosso Brasil selvagem. Nas mãos levava o enorme arco e as flechas decoradas.
Pronto, eu havia sido contaminado inapelavelmente pelo vírus da cartofilia.

- Alguém na sua família era colecionador?

- Por incrível que pareça, não. Acho que isso tem a ver com uma curiosidade muito grande de querer descobrir coisas novas. Por exemplo, eu tenho uma moeda inglesa com o carimbo do Ira (Exército Republicano Irlandês) e o rosto da Rainha Elizabeth. É uma moeda raríssima. O Ira usava esse carimbo para avisar quem ele pretendia eliminar. Eu só coleciono moedas que têm uma carga de história atrás. Isso é muito interessante.

- O senhor deve conhecer uma série de colecionadores do Brasil e de outros países. Com essa vivência é possível dizer que as pessoas que se dedicam ao colecionismo têm algumas características de perfil que se assemelham?

- Com certeza. Até parece cabotinismo eu falar assim, mas, afinal de contas, essa é a verdade. Geralmente, o colecionador de carão-postal, selo ou moeda é uma pessoa muito bem instruída, culta e com nível de educação elevado. Porque seria muito difícil para um indivíduo mediano ficar um mês pesquisando de onde veio aquele determinado cartão. Ele precisa conhecer a história para buscar aquela informação. Eu diria que o domínio da cultura geral é uma característica marcante do colecionador.

- As pessoas, normalmente, imaginam que o colecionador é aquele tipo de sujeito que tem muito tempo ocioso para se dedicar à coleção. Isso necessariamente é verdadeiro?

- Não necessariamente. O colecionador normalmente tem uma única coleção. Algumas pessoas, como eu – a minoria -, possuem várias coleções. Quando o indivíduo está centrado naquilo ele sabe exatamente como empregar seu tempo de uma forma racional para buscar as informações. A internet também é uma ferramenta que auxilia bastante a otimizar o tempo de pesquisa. Fica muito mais fácil e não exige tanto tempo assim.
- Quantos cartões o senhor tem hoje na sua coleção?

- Cerca de 40 mil. Entretanto, nessas idas e vindas, mudando de um local para o outro, acabei deixando muitos cartões pelo caminho. Meu pai implicava com a minha coleção a cada mudança. Porque eu sempre tinha muita coisa para levar. E eu acabava distribuindo alguns cartões para os amigos. Se eu tivesse guardado todos os cartões que passaram pelas minhas mãos, seguramente eu teria hoje mais de um milhão de postais.

- Dessas 40 mil peças qual delas têm significado especial para o senhor e qual tem maior valor de mercado?

- Os primeiros postais são valiosíssimos. Eu tenho o primeiro cartão postal, o ‘Correspondenz-Karte’, que passou a circular no império Austro-húngaro em primeiro de outubro de 1869. Essa peça não é única. Há outras espalhadas pelo mundo. Mas quem tem não vende, não empesta e não troca. Agora, eu gosto muito dos postais antigos do Brasil do início do século passado. Por exemplo, eu tenho um de Vitória de 1901 que eu gosto bastante. Os cartões das duas grandes guerras também aprecio muito.

- Qual foi o primeiro cartão a circular no Brasil?

- Embora o Brasil tenha sido um dos primeiros países a editar selos, demorou um pouco para fazer circular os primeiros postais. O primeiro é de junho de 1894, que à época era chamado de carta-bilhete e trazia a ilustração ‘Cabeça da Liberdade’.

  
Primeiro postal do mundo
- No entanto, depois que começou, o número de cartões que passou a circular no Brasil foi estrondoso?

- De fato. Depois que começou foi embora. Na verdade, o cartão-postal foi a primeira mídia que levou imagem e texto para outros continentes. Inicialmente, eram somente ilustrações. Depois, com o advento da fotografia a circulação aumentou ainda mais. No início do século XX, diversos países autorizaram a impressão integral da imagem na face frontal do cartão. Até então, por questão burocrática, só era permitido compor a face frontal do cartão com o selo e uma pequena ilustração. No Brasil, os primeiros cartões com impressão fotográfica traziam imagens do Rio de Janeiro e de Salvador. Uma curiosidade é que a indústria pornográfica nasceu a partir dos cartões-postais. Os cartões eróticos franceses do início do século passado inspiraram as primeiras revistas pornográficas na França. Foi a primeira vez que as pessoas tiveram contato com a foto de uma mulher nua.

- As pessoas costumavam endereçar esses cartões abertamente?

- Não. Quando o faziam, punham em envelopes. Geralmente, as pessoas colecionavam esses cartões. Eu mesmo tenho vários. Todos em preto e branco. Havia fotógrafos consagrados que produziam esses cartões dando ênfase para o nu artístico. E havia também os pornográficos de sexo explícito mesmo, que hoje valem cerca de 50 dólares no mercado.
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