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Foto: Divulgação
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Icarus, de Victor-Hugo Borges (SP)
Feito seu filme anterior,
Historietas Assombradas (Para Crianças Mal-Criadas), o novo trabalho de Victor-Hugo Borges vive de um confronto. Mas em
Icarus ele não é apenas base de uma trama, o confronto como maneira de fazer avançar narrativamente a relação entre personagens, como ponto de partida para a profusão de uma série de imagens que dão conta do universo delineado nas histórias que uma avó conta para sua netinha antes de dormir.
Icarus está falando do drama específico de um protagonista, acompanha sua trajetória manifestando seus sentimentos através de diversos signos visuais diferentes, está mesmo tentando dar razão e sentido ao trauma e conseqüente redenção de sua trama, mas como todo grande filme,
Icarus está falando, acima de tudo, do próprio cinema, e tão diretamente, da própria natureza do cinema de animação.
No centro da história de um menino que nunca vê seu pai aviador porque está sempre dormindo quando este chega do trabalho, existe uma máquina. O pequeno robozinho de brinquedo que fica ao lado da cama do menino tem dupla expressão, alegre-triste, e Icarus só pode ter certeza que seu pai esteve em seu quarto à noite e lhe deu o sempre esperado beijo de "bons sonhos" porque percebe que a tristeza foi mudada para alegria no rosto do brinquedo, pelo gesto físico de seu pai. Não é por acaso que se trata de um boneco estático que é animado por um humano a partir de sua manipulação: o personagem do pai realiza o mesmo trabalho de
stop-motion que Victor-Hugo e sua equipe fizeram para produzir
Icarus. Mas, além dessa dimensão física, existe o efeito sentimental. Icarus só percebe o pai porque vê o brinquedo mudado, e quando deixa de vê-lo, sabe que seu pai já não existe mais, talvez morto em algum acidente aéreo que nunca vemos, mas que sabemos ter existido. E, a todo tempo em
Icarus, só conseguimos nos envolver e nos emocionar tanto com tudo aquilo que Victor-Hugo nos exibe, porque sabemos que a animação daqueles bonecos estáticos que são postos em movimentos nos garante que, por trás daquilo, houve alguém que quis nos mostrar, como a simples mudança de expressão de um robô, que ele lá esteve.
E é esse o grande conflito vivido por
Icarus, com uma integridade rara: em que medida a presença de personagens bonitinhos e fofos, da estilização dos cenários, da profusão de cores e formas tão específicas, enfim, de toda uma construção visual completamente distante de qualquer senso de realidade pode, eventualmente, falar tão diretamente sobre ela, sobre isso que a experiência empírica da vida não-animada nos apresenta diariamente? O que vemos ali é um combate permanente entre o desejo de sonho e o pragmatismo da vida terrena, uma tensão entre o querer íntimo e a História, um personagem que mergulha no pesadelo puro quando se dá conta que seu pai nunca mais participará de sua vida, e um diretor que não consegue deixar este menino viver estas trevas sem que possa, mesmo que furtivamente, lhe devolver a presença do pai num vôo imaginário - e tão verdadeiro.
É um poder muito grande, este de dar vida àquilo que não existe. E, ainda assim, também muito difícil escapar da idéia de que um bonequinho de papel e massinha, quando animado, não diz respeito apenas ao universo da fabulação, mas sim à própria vida de que ele é, momentaneamente, preenchido. O que não poderia faltar, e aí talvez resida a grandeza de
Icarus, é a consciência de que é de dúvidas, e nunca das verdades absolutas, que se faz a experiência humana. Victor-Hugo dá à Icarus a chance do reencontro com o pai, mas é impossível ignorar que a primeira cena do filme mostre o menino interrompendo o vôo de uma joaninha, matando-a com um tapa. Impossível ignorar que a última imagem do filme mostra o robozinho com a expressão da alegria, mas que a narração nos diz que o boneco enferrujou e que Icarus envelheceu e já é pesado demais para voar (para sonhar, para acreditar na possibilidade de rever o pai). Daí não se tira uma síntese. Daí não se tira uma lição. É de sonho e pesadelo, de ecos do terror expressionista e do conto-de-fadas infantil, em pé de igualdade, que vive
Icarus. E daí, o que se tira é cinema puro.
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