Vitória (ES), edição de 16 de novembro de 2007    
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Festival do Rio 2007: expectativas



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
Primeira cena da obra-prima de Apichatpong Weerasethakul, Síndromes e um Século
A primeira boa notícia da programação do Festival do Rio 2007 é o desejo de reparação: esquecidos da lista do ano passado, as telas cariocas verão pela primeira vez Síndromes e um Século, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, e Sempre Bela, a continuação de A Bela da Tarde dirigida pelo velho garoto Manoel de Oliveira. Duas obras-primas vistas na Mostra de São Paulo de 2006, e que só fazem abrilhantar a bela seleção atual do Rio. Na primeira, o maior cineasta da atualidade revisita sua infância vivida pelos corredores de hospitais, onde seus pais médicos trabalhavam. Dali tira um grande tratado sobre a natureza cumulativa da memória, que não vai nos fazendo homens mais completos ao longo do tempo, mas sim pessoas cada vez mais fragmentadas, uma vez que nos multiplicamos em vários diferentes no passado e ainda seremos vários outros no futuro. Já Manoel de Oliveira quer saber muito pouco da reverência à obra de Luis Buñuel. Quando reencontra a Bela da Tarde quarenta anos depois, o diretor português observa não só sua resistência ao tempo, mas sobretudo a maneira como velhos hábitos dialogam com o mundo novo que agora cerca estes personagens. O sadismo do chantagista de 1967 continua presente, mas parece se potencializar num ambiente tão naturalmente sádico como o atual. E Manoel, incansável no alto de seus 98 anos, ainda aparece com um novo filme, Cristóvão Colombo - O Enigma, onde acompanha a aventura de um casal obcecado pela idéia de provar que Colombo era, na verdade, português. Quem se lembra de Um Filme Falado saberá bem o que esperar do novo contato de Manoel com a História.

E estes dois pitacos encerram as certezas sobre o que vem por aí. Sobre os filmes que ainda não vimos, só podemos imaginar (e torcer para que o dia de vê-los chegue logo). O primeiro da lista é, sem dúvida, Império dos Sonhos, o mais novo filme de David Lynch, cercado de burburinho por sua absorção completa das tecnologias digitais - foi filmado com câmeras que existem em qualquer departamento de qualquer universidade do país - e também pelo rompimento com os esquemas de distribuição tradicionais, virando Lynch um verdadeiro mascate de seu próprio filme. Mas Lynch é um caso desses únicos em que nem mesmo toda publicidade e antecipação podem prever o que vem de fato pela frente.

  
Foto: Divulgação
  
Laura Dern protagoniza a mais nova alucinação de David Lynch, Império dos Sonhos
A outra grande expectativa fica por conta de I'm Not There, cine-biografia autorizada e livre da trajetória do maior artista do século XX, Bob Dylan. Tudo o que já circulou na internet parece nos preparar para um espetáculo de puro arrebatamento, com a vida do músico sendo dividida em seis partes, cada uma interpretada por um ator diferente (entre eles o jovem negro Marcus Carl Franklin, que interpreta a infância de Dylan, as primeiras influências do blue grass e a inspiração no pioneiro do folk-country Woody Guthrie, e a atriz Cate Blanchett, vivendo Dylan na fase mais conturbada de sua carreira, quando decide abandonar os violões acústicos e assumir a guitarra elétrica e o peso de uma banda de rock). Todd Haynes, o diretor, já viveu uma experiência próxima a essa quando fez Velvet Goldmine, a partir da vida de David Bowie. Mas a complexidade que seus filmes adquiriram desde então (culminando no belíssimo melodrama à Douglas Sirk, Longe do Paraíso) faz pensar que I'm Not There talvez o inscreva definitivamente no rol dos grandes do cinema atual.

O prato para o cinéfilo de primeira viagem está, como sempre, repleto. Os dois filmes romenos maiores vencedores do último Festival de Cannes estarão pelo Rio: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro que conta a história de um aborto frustrado pela precariedade do sistema legal e ilegal de saúde da Romênia, numa gestação interrompida exatamente no período anunciado pelo título do filme; e California Dreamin', de Cristian Nemescu, vencedor da mostra Um Certo Olhar. O jovem diretor morreu antes de poder concluir a montagem do filme, e mesmo que esteja inacabado, o filme foi saudado pelo júri de Cannes como a mais inventiva e estimulante produção do último Festival. Mais dos filmes óbvios (e necessários): o novo Tarantino (Á Prova de Morte), o novo Wes Anderson (O Expresso Darjeeling), o novo Michel Gondry (Sonhando Acordado), o novo Ang Lee (Lust, Caution, que acaba de receber o Leão de Ouro de Melhor Filme do Festival de Veneza realizado no começo do mês), a adaptação do grande romance dos últimos tempos para o cinema (Desejo e Reparação, de Joe Wright, a partir do livro Reparação, do inglês Ian McEwan).

A velha guarda francesa (que um dia chamamos "nova") está bem representada com a última produção de Claude Chabrol (Uma Moça Dividida em Dois) e Jacques Rivete (Não Toque no Machado). Mas a atenção francesa se vira também para o documentário auto-biográfico da atriz Sandrine Bonnaire. Estreando na direção, ela mostra em O Nome Dela É Sabine a história de sua irmã, que tem 38 anos e é autista. Ainda teremos o aguardado Em Paris, de Christophe Honoré, estrelado pelos dois mais importantes jovens atores do cinema francês, Louis Garrel e Romain Duris, e Uma Velha Amante, de Catherine Breillat, mais uma chance de conferirmos o fulgor de Asia Argento, desta vez num papel de época.

Asia também estrela o filme do veteraníssimo Abel Ferrara, Go Go Tales, escalado para a seção Midnight Movies. Quem pôde assistir Maria, sua obra-prima lançada nos cinemas este ano, pode esperar por outro caminho neste filme novo. Go Go Tales retorna aos ambientes prostibulares e ao submundo que Ferrara tão bem soube filmar no começo da carreira. E de outro americano já sabemos também o que esperar: Gus Van Sant vem aí com seu Paranoid Park, quarto longa-metragem de uma tetralogia involuntária sobre a juventude americana que, até aqui, já rendeu três dos maiores filmes dos últimos tempos: Gerry (2002), Elefante (2003) e Últimos Dias (2005). Paranoid Park trata da experiência de um jovem skatista que, acidentalmente, mata o segurança do parque em que costumava correr. Chamado pelo próprio Van Sant de "o Crime e Castigo visto a partir da adolescência", o filme ainda traz como atrativo o retorno da colaboração do fotógrafo Christopher Doyle, com quem Van Sant já trabalhara em Psicose (1998), e que é mundialmente conhecido por seu trabalho em filmes como Amor à Flor da Pele e A Dama na Água.

Mas são os pequenos filmes grandes talvez o maior barato da maratona carioca. A cineasta japonesa Naomi Kawase, sempre presente e premiada em Cannes mas infelizmente desconhecida no Brasil, vem ao Rio com Floresta dos Lamentos, onde explora a relação entre um idoso e a enfermeira que cuida dele no asilo a medida em que embarcam numa aventura fantástica pelo meio de um bosque, ela marcada pela perda do filho ainda criança, ele indo se reencontrar pela última vez com o túmulo de sua falecida mulher (a quem ele, mesmo assim, continuou escrevendo por toda a vida). Mais que isso, temos a nova experiência de Harmony Korine (o jovem roteirista de Kids e Ken Park), cujo Mister Lonely flagra a relação entre um sósia de Michael Jackson e uma sósia de Marilyn Monroe, que acabam fugindo para uma comunidade onde só vive gente parecida com famosos. E também o argentino Pablo Trapero, que depois de Do Outro Lado da Lei e do maravilhoso Família Rodante, chega com Nascido e Criado, sobre um sujeito tentando esquecer um trágico acidente com a família ao se isolar numa comunidade do sul da Patagônia.

  
Foto: Divulgação
  
Cate Blanchett é uma das várias caras de Bob Dylan em I'm Not There
E como se não bastasse, o Festival do Rio segue tendo a mais importante competição de longas-metragens brasileiros do país. A Premiére Brasil deste ano está repleta de boas expectativas (mesmo naquilo que deixou fora de concurso). Do veterano Eduardo Coutinho, cujo Jogo de Cena vem causando furor desde que foi exibido em Gramado dois meses atrás, ao curta-metragista estreante no longa Gustavo Spolidoro, com Ainda Orangotangos, a seleção dos filmes nacionais é uma das mais fortes dos últimos tempos.

(e olha que nem falamos de Tropa de Elite, visto esta semana na primeira sessão pública oficial e que será em breve comentado com mais dedicação aqui nesta coluna - mas adianto que todo o fenômeno cultural que o filme já vem provocando pode ser pouco perto do que ele ainda dará de pano para a manga, sendo o grande filme que é).

Num ano em que as retrospectivas (filmes clássicos chineses e faroestes com John Wayne) foram incrivelmente programadas com cópias em DVD - e, portanto, indignas do preço de um ingresso de cinema - resta mesmo o mergulho nessa imensidão de cinema contemporâneo que o Festival do Rio oferece. A largada está dada a partir de hoje, e pelas próximas duas semanas ficaremos completamente imersos nestas imagens do mundo. Sempre que pusermos a cara para fora d'água pra dar uma respirada, comentaremos algo por aqui.

Bons filmes para todos nós!


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