(“Nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos”. Martin Luther King)
Rebeliões constantes e sangrentas que deixam um rastro de mortes e de terror; fugas facilitadas por policiais corruptos que também são responsáveis pela entrada de celulares, drogas e armas nas prisões; detentos comandando o crime organizado de dentro das cadeias; superlotação, falta de dignidade e desrespeito aos direitos humanos. Esses são só alguns dos problemas que já se tornaram corriqueiros no sistema prisional brasileiro. A situação crônica mobiliza organizações nacionais e internacionais preocupadas com esses verdadeiros “depósitos de gente” que, a cada dia, estão mais distantes de seu objetivo principal e final: recuperar essas pessoas para que elas possam ser de fato ressocializadas. Embora esse seja um câncer social que, de maneira direta ou indireta, espalha suas ramificações para toda a sociedade, grande parte das pessoas prefere se afastar do problema e simplesmente empurrá-lo para debaixo do tapete. Por sorte, uma minoria valente prefere encarar o desafio e dar sua contribuição para tentar transformar o caos em esperança de vida para quem está lá dentro e também para nós que estamos aqui fora.
Cristal Carvalho, proprietária da Cristal Produções, faz parte dessa minoria valente. Há cerca de quatro anos ela foi convidada pela Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) para produzir um vídeo que mostrasse às ações de ressocialização que eram promovidas dentro das penitenciárias capixabas. “Em princípio, confesso que o tema não tinha muito a ver com o trabalho da produtora. Mas quis conhecer de perto a realidade do sistema prisional para avaliar melhor a proposta”. Embora os amigos e familiares pedissem para que ela não se metesse com isso. Cristal foi buscar fibra e determinação no seu sangue nordestino – ela nasceu em Fortaleza, Ceará – para aceitar a empreitada. Percorreu quase todas as penitenciárias masculinas e femininas da Grande Vitória fazendo anotações e colhendo depoimentos. O resultado foi uma série de reportagens especiais que foram veiculadas no programa ‘Bem Viver’, (da GTV - canal 14), que é feito pela sua produtora. Essa primeira experiência fez crescer o interesse de Cristal pelo tema, principalmente quando ela soube que o número de mulheres envolvidas com a criminalidade crescia assustadoramente no Estado. “Esse dado me preocupou bastante. Então decidi que faríamos um documentário sobre esse tema”. No final do ano passado, durante o planejamento estratégico da produtora, Cristal fez questão de incluir no plano a produção de um institucional que fosse feito integralmente com recursos da produtora. Estava sendo escrita a primeira linha do roteiro de “Tucum: de um extremo ao outro”. Com 22 minutos de duração o documentário mostra o depoimento de 14 mulheres – uma delas já em liberdade – do Presídio Feminino de Tucum, em Cariacica. Desde que passou a ser exibido em mostras de vídeo e universidades, o documentário tem sido alvo de discussões acaloradas de pessoas que estão procurando soluções para o sistema prisional feminino. “Parece que o vídeo tem provocado bastante as pessoas. A intenção era justamente essa, levar o problema à tona para ser discutido na sociedade”.
Cristal Carvalho é especializada em comunicação empresarial. Começou a carreira na TV Minas, em Belo Horizonte. No Espírito Santo chegou há 21 anos para trabalhar na TV Vitória, onde ficou por 15 anos. Foi uma das idealizadoras do programa “Vivendo Melhor”. No entanto, o estresse causado pela grande demanda de trabalho fez com que Cristal procurasse um outro espaço profissional. Logo que a TV Gazeta lançou o Canal 14 (GTV), Cristal foi convidada para integrar a equipe. O programa, que continua no ar até hoje na GTV, mudou o nome de “Vivendo Melhor” para “Bem Viver”. O formato do programa também foi ampliado. Menos de dois anos depois ela montou a Cristal Produções e hoje, além do “Bem Viver”, produz vídeos empresariais e institucionais para diversos clientes.
- Século Diário: Como surgiu a idéia de fazer o documentário “Tucum: de um extremo ao outro”?
Foto: José Rabelo
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- Cristal Carvalho: O programa ‘Bem Viver’ tem uma parceria com o Movimento Capixaba de Voluntariado em um projeto chamado ‘Mão Solidária do Voluntariado’, que inclusive neste ano entre na sua quarta edição. Há cerca de quatro anos, logo quando abrimos a produtora, a Maria José, do Movimento de Voluntariado, disse-me que havia uma demanda da Secretaria da Justiça (Sejus) para produzir algo a respeito do sistema prisional no Espírito Santo. Em princípio, confesso que esse tema não tinha muito a ver com o trabalho da produtora. Porém, quis conhecer de perto a realidade do sistema prisional para avaliar melhor a proposta. Fiz então uma peregrinação por quase todos os presídios capixabas (masculinos e femininos) da Grande Vitória. A Sejus queria que produzíssemos um vídeo que desse maior visibilidade aos projetos de ressocialização. Mas eu queria saber primeiro quem era esse público e como eles estavam vivendo.
- E o que a senhora constatou durante essas visitas?
- Procurei anotar tudo que vi. Além disso, fiz uma série de perguntas aos presos. Por exemplo, no Presídio de Segurança Média de Viana conversei com um detento já bem ‘senhorzinho’ que estava costurando uma bola. Ele me disse com satisfação que era o seu primeiro dia de trabalho. E ressaltou que o pior da prisão era a ociosidade. Foram a partir de depoimentos como esse que eu percebi a importância de se fazer um trabalho que pudesse sensibilizar a sociedade sobre a dura realidade do sistema prisional e que era preciso criar condições para que essas pessoas de fato possam se reintegrar à sociedade. Saí de lá e escrevi o projeto ‘Recuperando Vidas’, em parceria com a Sejus. Eu percebi o quanto as ações de ressocialização eram importantes para dar visibilidade ao outro lado da vida dessas pessoas.
- E como vocês trabalharam o conteúdo desse primeiro material?
- Nós fizemos uma série de reportagens especiais que foram veiculadas no programa ‘Bem Viver’. Mostrávamos nessas reportagens ações de ressocialização que aconteciam nos presídios masculinos e femininos e estavam dando resultados. Uma ocasião nós convidamos para um café-da-manhã as principais autoridades do Estado que estavam envolvidos de forma direta ou indireta com a questão. Chamamos juízes, promotores, secretários de governo, empresários e formadores de opinião para assistirem a um vídeo que produzimos especialmente para o encontro. Nossa intenção era sensibilizar essas pessoas que têm funções estratégicas nas decisões relacionadas ao sistema prisional e provocar a discussão. A partir daí, continuamos buscando novas oportunidades, sempre que era possível, para levar o debate à sociedade.
Foto: Divulgação/Cristal Produções
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| Inrerna no Presídio de Tucum
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- Essas experiências foram amadurecendo a idéia de fazer o documentário de Tucum?
- Sim. No final do ano passado, quando estávamos fechando o planejamento estratégico da produtora para 2007, fiz questão de incluir no plano a produção de um institucional que fosse feito integralmente com recursos nossos. Eu havia acabado de saber que o índice de criminalidade entre as mulheres estava aumentado consideravelmente no Espírito Santo. Esse dado me preocupou bastante. Então decidi que faríamos o documentário sobre esse tema. A equipe, num primeiro momento, foi contrária a idéia. Eles achavam arriscado filmar dentro de um presídio. Mas acabei convencendo a equipe a aceitar o desafio. Quando comecei a montar a história, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Miriene Soares. Na época em que estávamos fazendo o ‘Resgatando Vidas’, o Tribunal de Justiça lançou o programa ‘Recomeçar’. E a Miriene, que ganhara a liberdade havia três meses, foi beneficiado pelo programa. Ela recebeu a oportunidade de trabalhar na Rede Gazeta, que aderiu ao programa. Eu fiz questão de incluir o relato de Miriene – das mulheres do documentário, a única que está fora do sistema prisional – pelo fato da história dela ter dado certo. Atualmente, ela é chefe de serviços gerais na Gazeta. Quando a entrevistei eu olhava para ela e começava a chorar. E ela continuava firme respondendo às perguntas. Eu tentava imaginar o que aquela mulher havia passado na penitenciária. Ela me dizia: ‘Eu estou aqui trabalhando e meus filhos agora podem contar comigo’. Isso me tocou bastante porque era um depoimento muito forte, muito sincero. Você percebia que a vida dela estava se desabrochando novamente. Por isso, o título do documentário é esse – ‘Tucum: de um extremo ao outro’ -, porque essa era a maneira de mostrarmos que havia duas vertentes. A história de Miriene passou a ser um incentivo para as outras detentas, porque prova que a mudança é possível. Em seguida, montamos o projeto e apresentamos à Sejus para recebermos a autorização para gravar o documentário. Para minha surpresa não houve dificuldades para a secretaria liberar as filmagens. O secretário da Sejus, Ângelo Roncalli, disse que era preciso mesmo mostrar essa realidade à sociedade.
Foto: José Rabelo
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- Por que a senhora escolheu as mulheres?
- Quase 90% das mulheres que cumprem pena são mães. Se essa mulher é ressocializada ela leva consigo a família. No entanto, no caso de reincidência, ela também vai acabar tornando seus familiares, principalmente seus filhos, mais vulneráveis à criminalidade. A realidade da mulher é muito diferente à do homem. Quando a mulher é presa, os maridos, na sua grande maioria, não visitam as esposas. Os homens, e praticamente toda a sua família, abandonam as mulher na prisão. A mulher não. Ela se mantém firme, dando total apoio ao companheiro que se encontra preso. Por isso, a ressocialização entre as mulheres se torna fundamental. As pessoas precisam olhar para essa situação como um problema social. Porque, se não fizermos nada para reverter esse problema, todos nós continuaremos sendo reféns da violência que é maior a cada dia.