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Foto: Divulgação
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Não deixa de ser bastante apropriado que o novo filme de Saskia Sá se chame
A Fuga. Assumir idéias, apresentar-se ao trabalho, cumprir propostas apresentadas, seguir adiante dentro daquilo que se anuncia, tudo isso é sustado pela diretora num movimento de escapada constante. Em primeiríssima instância, foge-se do protagonista do filme, um velho músico que vê sua vida atual mergulhada numa apatia incongruente com sua vocação artística e sua memória da juventude. Ou ao menos essa parece ser a idéia inicial, uma vez que o filme nega constantemente a condição de Sebastião Modesto como objeto de interesse, aproveitando qualquer motivo alheio ao personagem para rapidamente abandoná-lo em nome de algo mais espetacular. No cômputo geral, é mesmo do cinema que Saskia Sá parece querer fugir - e não falamos nem mesmo do “bom” cinema. São os aspectos mínimos, aquilo que está na raiz do fazer cinematográfico que tão clamorosamente escapam de
A Fuga: constantes desastres de atuação, critérios entre o mínimo e o nenhum para decidir onde colocar a câmera, a partir de que pontos de vista acompanhar esta história, uma fotografia que torna toda a ação uma espécie de tabula rasa da história da imagem, sem qualquer cuidado para além do “é preciso deixar tudo claro para que possamos ver o que acontece”, algo certamente muito mais digno de um supermercado do que um curta-metragem exibido numa tela grande.
E tão mais fácil seria descartar
A Fuga apenas como um produto mal-realizado, não fosse também uma pesadíssima agenda de propósitos que não só mata qualquer possibilidade de cinema, como demonstra uma total inconseqüência com o objeto de que se trata - no fundo, um recorte específico dentro da vida de um personagem ficcional, mas reverberado fortemente na realidade. A primeira vez que a câmera de Saskia Sá registra Modesto, o vemos apenas de relance. Depois de um périplo documental pela cidade, chegamos finalmente ao subúrbio e, caminhando pela rua, entramos na casa do protagonista, onde ele não é mais que um adorno preso no portão e ao qual não se dá qualquer atenção, seguindo direto até a cozinha (na casa funciona uma pensão), onde perderemos um longo tempo assistindo a mais uma participação cômica de Ignácia Freitas, no papel-de-sempre da empregada. Evidentemente, antes de retornarmos a ele, haverá mais alguém a chamar atenção para si e interromper o caminho da câmera até Modesto: desta vez, para que possamos assistir Luiz Tadeu Teixeira declamando um poeminha apocalíptico enquanto se embriaga. Abandonado lá onde a imagem não mais o exibe, o protagonista é pela primeira vez - como por diversas outras ao longo do filme - apenas o trampolim para os saltos que realmente interessam à Saskia Sá.
E o que parece interessar, no fim das contas, é uma certa demonização do ambiente suburbano, necessária para que a oposição com a pureza de espírito de Modesto seja ainda mais óbvia para o espectador. Tudo é mau ao redor de Modesto - e porque fomos direto à cozinha de sua casa, na primeira cena do filme, senão para descobrir que a empregada não só é insolente, como ainda bebe cachaça escondido dos patrões enquanto bate bifes?
A Fuga do protagonista, propriamente, é preenchida de personagens igualmente malévolos, num tom que beira o preconceito de classe. Num boteco qualquer, vemos a dona do estabelecimento como uma praticante contumaz da extorsão (quando pede recompensa para dar notícias do paradeiro de Modesto), uma lésbica masculinizada e sua acompanhante (“putinha”, nos termos dados pelo próprio filme) e um jovem bom-vivant negro que traz a droga que será consumida pela turma - não qualquer droga, não um fumo leve, mas uma droga injetável, símbolo maior da perversidade. Perdido no meio deste mar de desumanidades, era de se esperar que o velho músico pudesse então surgir como o baluarte da bondade no coração, mas quando finalmente podemos vê-lo em ação, executando sua arte ao violão, Saskia Sá não lhe dá nem mesmo 5 segundos de atenção: a canção é interrompida bruscamente pela montagem. Perde-se tempo num longo beijo ardente entre as duas moças, mas ouvir o que seu próprio protagonista tem a dizer é algo que
A Fuga definitivamente não tem paciência para fazer.
E se nem a um mínimo de respeito à realidade de Sebastião Modesto o filme consegue chegar, é potencialmente vergonhoso que ainda se atreva a penetrar seus sonhos. Não resta dúvida que a memória do amor na juventude, do violão tocado à beira da praia, da canção popular que o músico tão bem executa e representa, enfim, não resta dúvida que essa memória é valiosa. Mas Modesto, e o cinema, mereciam moldura melhor para seus sonhos que a pequena cena bucólica de época à la comercial de tevê. E mereciam um filme melhor para testemunhar sua vida que este
A Fuga.
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