Vitória (ES), edição de fim de semana
 
’Vinte anos depois de iniciado pelo dr. Carlos
Cley, o trabalho não parou mais de crescer’

Em ação, os voluntários da
guerra ao câncer de pele





José Rabelo


("Não basta conquistar a sabedoria; é preciso usá-la". Cícero)

Eles atuam nas paróquias das igrejas, nos postos de saúde, nas escolas ou nos centros comunitários. Com organização e criatividade transformam esses locais em verdadeiros hospitais de campanha. Nesses “hospitais” improvisados chegam a atender em média 500 pessoas num único fim de semana. A rotina é relativamente simples: uma longa fila se forma na porta e o trabalho é iniciado. As pessoas são identificadas, examinadas e os casos que exigem intervenção cirúrgica são resolvidos na hora. O paciente sai satisfeito, e o que é mais importante: livre da doença. Diante de tantas mazelas a que esse Estado assiste, em se tratando de saúde pública, parece até impossível imaginar que exista no Espírito Santo um projeto tão eficiente assim na área da saúde, com números de fazer inveja a muita gente que insiste em tratar a saúde de forma corporativista e monetária. Mas, felizmente, o projeto existe. E completou 20 anos no último mês de setembro. São duas décadas de combate ao câncer de pele em onze cidades - Marechal Floriano, Domingos Martins, Santa Maria de Jetibá, Baixo Guandu, Palmeira de Santa Joana (Itaguaçu), Serra Pelada (Afonso Cláudio), Alto de Jetiboca (Itarana), Vila Valério, Lajinha de Pancas (Pancas), Vila Pavão, Garrafão (Santa Maria de Jetibá) e Criciúma (Laranja da Terra) - em que o projeto atua.

Os pomeranos, principais beneficiários do projeto, são as reais testemunhas dessa ação. Eles, sim, valorizam esses profissionais e, se pudessem, entregariam o Prêmio Nobel da Paz a cada um desses médicos, enfermeiras e estudantes de medicina que, um final de semana por mês, levam até essas comunidades - o que deveria ser um direito de todo cidadão, mas que ultimamente se tornou artigo de luxo para poucos – o direito à saúde.

Tudo começou em 1987, com o médico Carlos Cley Coelho. O professor da Ufes, preocupado com a grande demanda de pacientes pomeranos que vinham do interior à procura de tratamento para a doença na Capital (Hucam), percebeu que tudo ficaria mais fácil se o atendimento fosse até às comunidades. As viagens para as cidades de colonização pomerana – etnia mais suscetível à doença – começaram. Nessa época, o médico Roberto Pagung era ainda estudante de medicina e pretendia se especializar em pediatria. Entretanto, por ser pomerano de Lajinha de Pancas (Pancas), sempre se interessou pelo projeto. Na primeira viagem teve oportunidade de conhecer o professor Cley. A afinidade foi grande. Talvez, naquele primeiro contato, o professor Cley já tivesse decidido que o jovem estudante seria seu sucessor. A partir daí, as coisas aconteceram rapidamente e a especialização em pediatria foi trocada pela dermatologia. O interesse pelo tema foi crescendo e acabou carimbando seu passaporte para a Alemanha, mais precisamente para Manheim, onde escreveu uma tese sobre a incidência de câncer na pele entre os pomeranos. De volta ao Brasil, Pagung retomou a missão pomerana. Em 2000, com a aposentadoria de Cley, foi legada a Pagung a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho. Hoje Pagung, que é coordenador da clínica, integra a equipe de mais seis médicos, duas profissionais de enfermagem e 28 alunos (25 de medicina e 3 de enfermagem).

Século Diário: - Como começou o trabalho de combate ao câncer de pele com as comunidades pomeranas?

Foto: Syã Fonseca
  
Roberto Pagung: - O trabalho completou 20 anos agora em setembro. O doutor Carlos Cley Coelho, pioneiro do programa, na época professor da Ufes, reuniu, em 1987, uma pequena equipe – ele e mais seis alunos -, pegou uma Kombi e foi para Vila Pavão. Depois disso, o trabalho não parou mais de crescer. Hoje, são sete médicos, duas profissionais de enfermagem e 28 alunos (25 de medicina e 3 de enfermagem).

- O que levou o doutor Cley a iniciar esse trabalho?

- Foi uma iniciativa dele como professor. Porque, antes disso, Arlindo Lagass, que coordenava o Albergue Martin Lutero da Igreja Evangélica da Confissão Luterana de Vitória, começou a trazer os pomeranos do interior do Estado para serem atendidos pelo doutor Cley no ambulatório do Hucam (Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes). A maioria apresentava câncer de pele com grandes lesões. O professor Cley percebeu que o número de pacientes era cada vez maior. Entretanto, aquele grupo que havia decidido procurar tratamento era uma minoria. Ele imaginou que o número de pessoas com a doença poderia ser bem maior nas suas cidades de origem e julgou que seria necessário se aproximar dessas pessoas e aos poucos iniciar um trabalho de prevenção nessas localidades. Porque, se elas chegavam a apresentar tumores com até 10 cm, é porque a doença já persistia há muitos anos. Para um tumor de pele atingir esse tamanho são necessários 10 a 15 anos. A intenção do doutor Cley era identificar essas lesões mais no início ou antes mesmo que elas aparecessem, dando ênfase ao trabalho de orientação e prevenção. No início, a parceria era entre a Ufes (Pró-Reitoria de Extensão) e o Albergue da Igreja Luterana. Logo em seguida, o doutor Cley trouxe a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Mais recentemente as prefeituras dos 11 municípios que recebem o projeto passaram a apoiar o trabalho.

- A iniciativa do professor Cley de aproximar a medicina da comunidade tem sido fundamental para o sucesso do trabalho?

- Isso foi muito importante, principalmente em se tratando de pomeranos. O pomerano é um povo mais fechado, reservado. Desde que vieram para o Espírito Santo, há cerca de 150 anos, eles já mudaram bastante. Mas ainda hoje há pessoas que não falam o português. Imagine há 20 anos... Como o câncer de pele é uma doença muito insidiosa, ou seja, seu processo é muito lento até provocar alguma conseqüência mais grave para a pessoa, essa procura por ajuda médica só acontecia quando a situação já estava extrema. Pelo fato de não incomodar muito no início, a pessoa acabava adiando o tratamento. Além disso, havia outras dificuldades, como a distância da Capital – só havia tratamento em Vitória o que tornava o deslocamento complicado, eles não queriam perder um ou dois dias de trabalho na lavoura para procurar tratamento -, o fato de muitos não dominarem o idioma (português) também pesava. O resultado é que as pessoas acabavam convivendo com a doença o máximo que elas podiam.

- Quando o senhor entrou para o projeto?

- Desde o começo eu já sabia da existência do projeto, mas eu ainda estava muito no início da faculdade. Em 1989, fui convidado para uma das viagens, ainda como aluno. Foi quando eu tive oportunidade de me aproximar do doutor Cley. Nessa conversa ele soube que eu era pomerano e tinha um interesse especial de participar do trabalho. Logo no início ele me convidou para ser monitor do grupo de alunos e ajudar na organização do trabalho. Naquela época, como a equipe era bem menor, o monitor era responsável por uma série de atividades. Não havia enfermeiras ou pessoas da comunidade ajudando, como acontece hoje. Nós tínhamos que correr atrás do material e esterilizá-los, organizar o grupo de alunos que participaria da ação, o local, enfim, era muita coisa para fazer.

- A partir daí o senhor não se desvinculou mais do trabalho?

- Sim. Inclusive, logo depois que concluí a faculdade, o doutor Clay me disse que eu seria o seu sucessor. Em princípio, antes de conhecer o projeto, eu pensava em fazer pediatria, mas ao iniciar o trabalho com os pomeranos mudei meu foco para dermatologia.

- O fato de o senhor ser pomerano deve ter pesado na sua decisão?

- Com certeza. A satisfação de poder trabalhar com os pomeranos é muito grande para mim. Outros alunos, no decorrer desses anos, também ficaram sensibilizados com o trabalho e optaram pela dermatologia. Com a minha irmã, por exemplo, aconteceu o mesmo.

- O que o projeto tem de especial que acaba fazendo com que as pessoas se ‘apaixonem’ pela dermatologia?

- Primeiro existe o fato de você passar a ver a dermatologia com outros olhos. Talvez hoje em dia não, porque atualmente a dermatologia está muito associada à questão estética e isso significa dinheiro. Antigamente, havia um preconceito muito grande com a dermatologia porque ela tratava só doença. As pessoas achavam que as doenças de pele eram algo mais simples, de menor importância. Muito pelo contrário, a dermatologia exige muito estudo e dedicação. Até os professores de outras áreas passavam essa visão preconceituosa da dermatologia aos alunos. Ela era considerada uma especialização que conferia pouco status ao médico. Mais intensamente no início da década de 90, quando ela assume esse conceito estético, é que a dermatologia passa a ser valorizada. Para mim, desde o início, o significado foi totalmente diferente. Quando se está em contato com essas comunidades você passa a entender a dimensão do problema. Você sabe que eles não vão largar um dia de trabalho na roça para vir até Vitória queimar uma ‘casquinha’ no braço. Quando você está lá essa intervenção é feita na hora, o paciente sai dali tratado, satisfeito, com seu problema resolvido. O principal nesses 20 anos de trabalho é que, além de você permitir a essas pessoas o acesso à saúde, você está também fazendo um importante trabalho de orientação para a prevenção da doença. Hoje, muitas pessoas já se protegem da exposição solar excessiva com filtros solares e roupas mais adequadas (chapéu, blusa de manga comprida etc.). Esses são indicadores importantes que mostram que o trabalho está dando resultados. Hoje é raro encontrarmos pacientes com grandes lesões como havia antigamente.

- Existe um controle estatístico do trabalho que dimensione o atendimento nesses 20 anos?

- Precisamente, não. O controle desses dados, infelizmente, sempre foi muito precário. Não havia ninguém para cuidar desses dados. Ou cuidávamos do trabalho ou fazíamos essa parte mais burocrática. Como o trabalho é mais importante, essa parte numérica foi sempre deixada meio de lado. Aos poucos, estamos sistematizando esses dados, pois essas informações não interessam somente a nós, mas também a diversos pesquisadores que estudam a doença.

Foto: Syã Fonseca
  
- Dados mais recentes, de 2005 a 2007, revelam que o número de casos de câncer entre os pomeranos tem aumentado. A que se deve esse aumento?

- Esse dado é muito interessante. Realmente, pelos dados, é possível perceber que o número de atendimento está caindo enquanto os casos da doença têm aumentado. Isso está acontecendo porque nos últimos anos nós estamos focando o trabalho no atendimento às pessoas que apresentam lesões cancerígenas. Não queremos que o projeto se torne um “tapa buraco” das prefeituras, senão acabamos atendendo a todos os casos de dermatologia da cidade. Nosso foco é câncer de pele. Houve uma época em que atendíamos todos os casos de dermatologia dos municípios. Consultávamos 500 ou 600 pessoas e tratávamos 50 casos de câncer de pele. Nessa última ação em Vila Pavão, por exemplo, atendemos cerca de 350 pessoas e constatamos aproximadamente 80 casos da doença. Essa mudança está agregando mais qualidade ao atendimento.

- Essa ação voltada à prevenção aliada à intervenção imediata tem sido o grande trunfo do projeto, haja vista os resultados alcançados. O senhor não acha que esse mesmo modelo poderia ser aplicado para controlar outras doenças?

- Acredito que sim, Acho que, de certa forma, isto está começou a ser feito pelo Ministério da Saúde e pelas secretarias estaduais e municipais. O Programa de Saúde da Família (PSF) é um exemplo. Hoje nós recebemos pessoas encaminhadas pelas equipes do PSF com câncer de pele ou com algumas manchas que nem sempre são cancerígenas, mas poderiam ser – os agentes de saúde não têm obrigação de saber se é câncer ou não porque não são especialistas. Isso demonstra a importância do trabalho de prevenção desses agentes. Mesmo porque nós precisamos de pessoas na comunidade que façam uma ação permanente. É preciso lembrar que vamos de ano em ano em cada uma dessas cidades. Para um melanoma, por exemplo, um ano é muito tempo. Daí a importância de intervenções como essas do PSF.

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