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A dialética de Brecht



Felicia Borges

  
Foto: Divulgação
  

A Companhia do Latão, de São Paulo, um dos mais importantes grupos de teatro brasileiro, se apresenta nesta quarta (17) e quinta-feira (18) no 3º Festival Nacional de Teatro. Comemorando seus dez anos, a companhia fez um retorno à obra de Bertold Brecht, a principal inspiração que originou a equipe em 1997, com o espetáculo O Círculo de Giz Caucasiano, considerada uma das peças mais dialéticas do autor alemão.

Escrita entre 1944 e 1945, durante o exílio de Brecht nos Estados Unidos, o texto tem narrativas concêntricas. O prólogo se passa em um colcós (fazenda coletiva) soviético, onde há uma discussão sobre a posse de terras entre agricultores (que as cultivam) e criadores de cabra (que tiveram de abandoná-las durante a guerra). O diretor da peça, Sérgio Carvalho, fez uma adaptação do prólogo original, substituindo-o por um curta-metragem com participação de grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do assentamento Carlos Lamarca, do MST, em Sarapuí (SP), uma forma de aproximar o texto da realidade brasileira. “O prólogo discute um pouco do texto do Brecht e o hoje”, explica Carvalho.

Na seqüência, agora no palco, para resolver o dilema, o primeiro grupo resolve encenar uma lenda, O Círculo de Giz Caucasiano: durante uma revolta em um palácio, a mulher do governador assassinado se esquece do filho na fuga. Uma criada salva o bebê e o cria. Anos mais tarde, a mãe biológica retoma o poder e reivindica o filho. Um juíz se encarrega de decidir com quem ficará a criança. Traça um círculo no chão com um giz, onde põe o menino, e pede para que cada uma delas o puxe pelo braço. Quem conseguir tomá-lo da outra o terá por direito.

É como se fossem três peças em uma só, mas todas estão interligadas. “É uma mesma história. Ela tem uma diferença em si, mas é um texto só. É um dos textos mais importantes de Brecht e certamente o mais bonito”, diz o diretor. Esta peça de Brecht é uma das que mais aplica o método dialético, porque é plena de contradições, até na sua própria construção.

“Faz 10 anos que o Latão trabalha seguindo os princípios de Brecht e o grupo é conhecido por seguir essa tradição do teatro dialético. Ao mesmo tempo, a teatralidade do grupo é diferente, é contemporâneo. Há uma diferença histórica, mas isso é uma exigência do próprio Brecht, da perspectiva histórica”, fala Carvalho, que também é professor de Dramaturgia e Crítica Teatral na Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP).

Para dar conta da grande quantidade de personagens, a Companhia do Latão recorreu a grupos com filosofia de trabalho próxima a sua, como o Núcleo Argonautas, o Galpão Folias, o Teatro do Pequeno Gesto e a S. Jorge de Variedades, convidados especialmente para esta montagem. A peça é uma superprodução com 11 atores no palco, fazendo mais de uma centena de papéis, 21 canções especialmente compostas para a peça e dois músicos em cena tocando cello, piano, instrumentos orientais e rabeca.

Platéia
A peça estreou no Rio no ano passado, no Centro Cultural do Banco do Brasil, em homenagem ao cinqüentenário de morte do poeta alemão Bertolt Brecht (1989-1956), com teatro cheio todas as noites, precisando até mesmo fazer seções extras. Depois foi para São Paulo, Cuba, participou dos festivais de teatro de Londrina e Recife, entre outras cidades.

Apesar das quase três horas e meia de espetáculo, com intervalo, a recepção do público tem sido muito boa. “É uma peça longa, mas que é necessária para contar essa história que o Brecht escreveu. A peça é muito forte, muito comovente, o público não se desliga dela”, diz Carvalho.

A peça foi traduzida pelo poeta Manuel Bandeira, que a considerava uma obra-prima do teatro épico, e não tinha uma grande montagem nos palcos brasileiros desde 1963, quando foi encenada pelo Teatro Nacional de Comédia, com direção de José Renato.

Esta é a primeira vez que a companhia se apresenta em Vitória. “Vai ser muito importante para a gente porque é das poucas capitais brasileiras que a gente ainda não se apresentou”, diz o diretor. Além das encenações, Sérgio Carvalho também vai fazer uma palestra de demonstração de trabalho na quinta-feira (18).

  
Foto: Divulgação
  
Companhia do Latão
Para comemorar os dez anos da Companhia uma série de realizações está marcada, a começar pela produção de DVDs didáticos ligados a diversos espetáculos do grupo, como Ensaio sobre o Latão, Santa Joana dos Matadouros, Ensaio da Comuna, Auto dos Bons Tratos, A Comédia do Trabalho, O Mercado do Gozo, Ensaio para Danton, Visões Siamesas, Equívocos Colecionados, O Círculo de Giz Caucasiano e O Nome do Sujeito.

O grupo também pretende lançar três livros que documentam seu trabalho teórico e literário. Todo o projeto foi premiado com a Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo e com o prêmio Myriam Muniz 2006 da Funarte.

Uma das mais brechtianas e marxistas equipes do país, o trabalho da Companhia do Latão é uma mostra da possibilidade de utilização contemporânea do pensamento de Marx e Engels como ferramenta estética.

Serviço
O Festival Nacional de Teatro apresenta a peça O Círculo de Giz Caucasiano, da Companhia do Latão (SP), no Teatro João Carlos de Oliveira (Carmélia), Rua Engenheiro Manoel Passos de Barros, s/n, Mário Cypreste, Vitória. Na quarta-feira (17), às 19h, a apresentação é só para convidados. Para quinta-feira (18), também às 19h, 150 ingressos serão distribuídos a partir das 13h na portaria do teatro. Na quinta-feira (18), o diretor Sérgio Carvalho faz uma palestra de demonstração de trabalho, às 16h, no mesmo teatro.

Saiba mais!
Clique aqui e acesse o site da Companhia do Latão.

Clique aqui e vá ao site do 3º Festival Nacional de Teatro.

 

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