("As dúvidas são mais cruéis do que as duras verdades" - Moliére)
A parceria entre a chinesa Baosteel e a Companhia Vale do Rio Doce, que pretende produzir cerca de cinco milhões de toneladas métricas de placas de aço ao ano no Espírito Santo, está sendo comemorada diariamente pelo governo do Estado, setores da sociedade e por grande parte da imprensa capixaba como um verdadeiro “negócio da China”. As manchetes nos jornais não cansam de propalar que 18 mil empregos serão gerados no bucólico paraíso tropical de Ubu, que está com seus dias contados.
Os impactos ambientais e sociais causados pelo megaempreendimento - que sacramenta a opção do Espírito Santo pela indústria pesada, como quer o governador Paulo Hartung -, devem sepultar em definitivo as aspirações de região (Guarapari e Anchieta) de retomar seu projeto turístico. Embora o destino ainda seja um dos mais visitados do Estado, vem amargando nas últimas três décadas resultados cada vez piores. A chegada da siderúrgica, que traz no seu pacote de investimentos um terminal portuário e uma ferrovia (Litorânea Sul), deve igualar o balneário à apocalíptica Cubatão (litoral sul de São Paulo) do final dos anos 70.
Depois da tempestade, a bonança deverá ficar somente no bolso dos chineses, que varrerão seus lucros para fora das divisas do Estado e do País. Para a população de Ubu e região, provavelmente, vão sobrar desemprego, pobreza e mais uma avalanche de problemas sociais inerentes a esse processo avassalador que está sendo puxado pelo governo do Estado, amparado pela imprensa, Justiça e “ambientalistas de plantão”, que fazem a blindagem do governo, por meio da ONG Espírito Santo em Ação, criada pelo próprio Paulo Hartung e grandes empresários para credenciar e dar roupagem social aos projetos empresariais que vão se radicando no Estado.
Para analisar os impactos socioeconômicos da parceria Baosteel-Vale no Estado, Século Diário entrevistou Arlindo Villaschi, PhD em Economia, professor da Ufes e ex-diretor executivo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para o Brasil. Villaschi, que é capixaba de São Gabriel da Palha (norte do Estado), é considerado um dos mais importantes economistas do Estado. Detentor de uma carreira acadêmica invejável, que inclui passagens pela Universidade de Londres e da Califórnia, sempre reservou espaço nas suas atividades profissionais para se dedicar à docência e às pesquisas acadêmicas. O professor pôde acompanhar de perto o processo de instalação das grandes empresas no Espírito Santo na década de 70. A experiência nacional e internacional de Villaschi, que passou pelo Bandes (Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo), Fundação Jones dos Santos Neves, Secretaria de Indústria e Comércio do Espírito Santo (secretário entre 1979 – 1980), credencia o economista a fazer um comparativo entre o processo engendrado no Estado nos anos 70 e o atual, com a instalação da siderúrgica de Ubu pela parceria Baosteel-Vale. Apesar do cenário nada promissor para o destino das comunidades de Anchieta, Guarapari, Piúma e região, o economista, dentro de uma visão mais otimista, ainda aposta que é possível mobilizar a sociedade civil para que ela vá para o debate defender os interesses do “outro lado”.
“Acho que os movimentos sociais atuais estão mais bem organizados e instrumentalizados tecnicamente para possíveis embates. Não sei qual é a repercussão desses movimentos sociais na mídia, mas imagino que eles estejam bem mais fortalecidos.”
-Século Diário: - Nos meados da década de 70, quando as grandes empresas - CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão), Vale do Rio Doce, Aracruz Celulose - chegaram ao Espírito Santo, elas tinham como propósito livrar os países ricos dos processos “sujos” de transformação e jogá-los para cá. Essas empresas ocuparam uma mão-de-obra enorme durante a fase de construção de seus complexos industriais e depois dispensaram milhares de trabalhadores que passaram a viver, sem renda, à deriva da sociedade. Agora, com a implantação da Baosteel em Ubu, Anchieta, parece que a história se repete. Os chineses chegam para se instalar numa das áreas mais nobres do turismo capixaba (Guarapari e região), com a promessa de gerar cerca de 18 mil empregos. Depois da implantação, esse número deve cair para aproximadamente 3 mil postos de trabalho. O senhor concorda que esse modelo utilizado pelas grandes empresas na década de 70 pode ser revivido agora em Anchieta com essa parceria entre a Vale do Rio Doce e a Baosteel?
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Foto: Riokan
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Arlindo Villaschi - Acho interessante quando você constrói esse paralelo. A história da CST no Estado aconteceu entre os anos de 1973 e 1974. Eu acho que há dois marcos importantes na nossa história com relação à questão ambiental: um em 1972 e outro em 1992. Em 1972, o então ministro Pratini de Moraes (Indústria e Comércio) disse à época, em Estocolmo (Suécia), que o Brasil queria entrar no processo de industrialização de qualquer maneira. Seu discurso, como representante do governo brasileiro, era o seguinte: ‘Nós saudamos a poluição. Venham para o Brasil porque nós precisamos nos industrializar’.
Com relação a 1992, o senhor está fazendo menção à Eco 92?
- Justamente. O Brasil passa a adotar um outro discurso embalado pela Eco 92 (Rio de Janeiro). Ainda não é a proposta ideal, da forma como gostaríamos, mas o País passa a ficar mais atento à questão ambiental e aos poucos começa a avançar. O Brasil sai da Eco 92 com algumas diretrizes muito claras. Eu recordo que o Greenpeace fez um protesto aqui no Espírito Santo, no Rio Piraque-Açu (Santa Cruz, distrito de Aracruz), para dizer à Aracruz Celulose que ela não poderia continuar utilizando cloro para produzir celulose branqueada. Devido à repercussão do protesto em toda a mídia, a Aracruz, espertamente, aposentou o cloro e passou a beneficiar a celulose com oxigênio. O ano de 1992, na minha opinião, é um marco não só para o Brasil, mas também para o Espírito Santo, a partir do momento em que uma entidade representativa como o Greenpeace volta os olhos para os problemas ambientais capixabas. O Brasil, como um todo, passa a se despertar para a consciência ambiental. O projeto para recuperação do Rio Guaíba (Porto Alegre-RS) é de 1992, assim como o projeto de recuperação da Baía de Guanabara (Rio de Janeiro) e do Rio Tietê (São Paulo), que ocorrem um pouco depois, são exemplos claros desse novo paradigma. Diversos outros núcleos urbanos brasileiros também começam a se preocupar com a sustentabilidade dos recursos hídricos. Resumindo, a partir de 1992 o Brasil monta um novo arranjo institucional muito mais forte na área de meio ambiente. É preciso ressaltar, no entanto, que a legislação ainda não é suficientemente eficaz para garantir o poder de polícia para as instituições deterem alguns processos ilegais. De qualquer maneira, essa institucionalidade, e aí não estou me referindo somente à legislação, mas também à consciência ambiental, geram resultados muito interessantes e sofisticados. Um exemplo recente é esse projeto do governo do Amazonas de prestação de serviços ambientais e conservação florestal. Essa proposta de pagamento de serviços ambientais consiste em recompensar o Estado do Amazonas e seus caboclos por manterem a floresta conservada. O pagamento por esses serviços é amparado pelas recentes pesquisas científicas que apontam para o aumento da temperatura global, decorrente das altas emissões dos gases causadores do efeito estufa e da responsabilidade que a floresta amazônica, conservada, possui ao exercer o papel de ‘ar condicionado global’, produzindo chuvas e reduzindo o aquecimento em escala mundial. Essa medida é algo muito sofisticado. A proposta, embora ainda não esteja assimilada pelo mercado, está voltada para atender a uma demanda do mercado financeiro que oferece alternativa de aplicação para este tipo de iniciativa.
- E com relação ao Espírito Santo, o que poderíamos classificar como avanços na área ambiental?
- Aqui no Estado realmente ainda temos alguns complicadores. Inclusive gostaria de fazer uma correção. Eu acho que a região de Anchieta não tem mais potencial turístico. A partir do momento em que a Samarco se implanta em Ubu, não há mais opção para o turismo. Acabou. Ou você faz a opção pela proposta turística ou escolhe outra via. De fato, até a década de 60, Guarapari competia com Búzios. Para você ter uma idéia da importância turística de Guarapari, o Conde Matarazzo saía de São Paulo e vinha para cá passar dois meses de férias. A Brigitte Bardot só não passou suas férias em Guarapari porque não gostava de viajar em avião pequeno. Entretanto, a população de Guarapari resolveu trocar o bucolismo do local por prédios altos que transformaram aquela paisagem atraente que valorizava turisticamente o local.
- Mas é possível estabelecer semelhanças entre esses dois processos históricos, ou seja, a implantação da CST, da Aracruz, das pelotizadoras na década de 70 e a parceria Baosteel-Vale?
- Em primeiro lugar, o Espírito Santo hoje tem uma massa empresarial que consegue se apropriar melhor desses processos desenvolvimentistas que estão se estabelecendo aqui. Segundo, não sei se teremos o mesmo afluxo de mão-de-obra que tivemos anteriormente. Naquela época, nós não tínhamos mão-de-obra preparada sequer para a construção civil. Para você ter uma idéia do que eu estou falando, quando a Companhia de Ferro e Aço instala seu primeiro forno no Jardim América, Edvar Melo, Nelsinho Monteiro, Carlos Alberto Ferrari - esses dois últimos vindos do Rio de Janeiro -, foram os três primeiros engenheiros a trabalhar aqui. Eles tiveram que capacitar os carpinteiros que não sabiam fazer uma simples forma de madeira para concreto. Essa mão-de-obra que vai ocupar os postos industriais da década de 60 vinha das lavouras de café, que atravessava uma grande crise nos anos 50, completamente despreparada. Quando a CST chegou aqui, o quadro não era muito diferente. O processo de erradicação do café continuava na década de 60 e tínhamos ainda uma industrialização pífia. A indústria no Espírito Santo se resumia à Fricasa, Moinho Buaiz, Paineiras, ou seja, tudo ainda era muito incipiente. Não existia mão-de-obra qualificada para atuar na construção civil nem tão pouco nos níveis intermediários da indústria. Se você analisar os quadros da Aracruz dessa época, vai perceber que a mão-de-obra que estava aqui havia sido transplantada, na sua totalidade, do Grupo Borregar, do Rio Grande (RGS), para executar a planta da Aracruz. Ao longo desses anos, essas empresas passam por uma readequação para se tornarem mais competitivas, que implica no processo de qualificação e formação da mão-de-obra. Essa mão-de-obra já não é mais do agricultor egresso dos cafezais. Esse ex-agricultor já se urbanizou e agora quem passa a preencher os postos de trabalho é o filho dele.
- Como o senhor avalia o cenário atual, gestão, mão-de-obra, infra-estrutura para receber um empreendimento como esse da chinesa Baosteel?
- Aparentemente, o governo do Estado tem um grau de autonomia relativa muito superior à realidade que tínhamos aqui nos meados da década de 70. O governo hoje tem uma estrutura de gestão mais sofisticada. Outra questão é saber como está hoje se articulando a sociedade civil organizada que não existia à época. Em 1974, inicia-se no Espírito Santo um movimento pela moradia. Logo em seguida, há um movimento pelo direito ao transporte, que na verdade é puxado por estudantes universitários vindos de São Paulo, que trazem um modelo político de participação popular diferente para o Espírito Santo. Mas esses movimentos eram muito tímidos e as pessoas ainda não reuniam um poder organizado de articulação social. Acredito que hoje a realidade é outra. Acho que os movimentos atuais estão mais bem organizados e instrumentalizados tecnicamente para possíveis embates. Não sei qual é a repercussão desses movimentos sociais na mídia, mas imagino que eles estejam bem mais fortalecidos.
- Os movimentos sociais que protagonizam essas discussões são credenciados pelo governo e, obviamente, “vendem” sempre o lado positivo desses grandes empreendimentos, como, por exemplo, os empregos que esses investimentos vão gerar.
- Ai está uma questão que eu acho importante. Vocês como veículos de comunicação de massa, as universidades e outros atores da sociedade civil precisam discutir essas questões por um outro viés que não seja a geração de emprego. É preciso ressaltar que a geração de emprego não é mais identificada como benefício social que uma empresa gera. E isso é notório. Todas as empresas têm consciência disso.
- Mas se o senhor analisar as manchetes dos principais jornais capixabas vai perceber que o destaque que tem sido dado a esses grandes empreendimentos aponta para a geração de vagas de trabalho como o principal benefício à população.
- Essa é uma interpretação equivocada. Antigamente, você poderia até dizer que a solução para desenvolver o Estado era geração de emprego. Entretanto, nós sabemos que isso não existe. Por exemplo, não é possível vincular a licença ambiental de um empreendimento como esse ou de um outro qualquer, à garantia de que a empresa vai gerar “x” empregos. Nenhum técnico responsável pelo estudo de impacto ambiental coloca uma condição como essa no documento. Nós precisamos na verdade de políticas públicas que atendam às nossas demandas sociais. Por exemplo, o que está sendo feito em termos de mobilização para trazer novas escolas técnicas para cá? Essa é uma questão preocupante. Até outro dia tínhamos apenas uma escola técnica no Estado. Recentemente (cerca de 10 anos), foi criada outra na Serra (Cefetes), mas isso ainda é muito pouco...
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Foto: Riokan
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- Mas será que eles estão realmente atrás de mão-de-obra qualificada?
- Com certeza, devem estar. Por exemplo, se você verificar o nível da mão-de-obra que está sendo utilizada na construção civil na nova sede da Petrobras (Reta da Penha), vai perceber que se trata de um profissional qualificado.
- Não estou me referindo à construção da siderúrgica e sim ao processo de produção.
- Mesmo para a produção eles não vão empregar nenhum trabalhador que não tenha pelo menos ensino médio completo e seja bem qualificado tecnicamente. Do contrário não há como operar uma empresa com essas proporções. Toda a produção é automatizada, e a operação não se resume apenas em apertar botões. A automação atual não é mais aquela do filme de Chaplin (‘Tempos Modernos’, 1936 – que faz uma crítica ao modo de produção capitalista caracterizado pelos movimentos repetitivos a que os trabalhadores eram submetidos nas grandes linhas de produção). A automação exige hoje que o trabalhador reúna uma série de competências técnicas e intelectuais. Eu não conheço o projeto da Baosteel, mas com certeza não se produz sem dispor de muita automação três ou quatro milhões de toneladas/ano de placas de aço.
- O senhor disse que é preciso adotar políticas públicas que atendam a essas demandas sociais. O senhor poderia citar alguns exemplos?
- Os jovens de classe média baixa que, pelo caminho natural, seguiriam sua formação no ensino médio tradicional, deveriam ser convidados para fazer um curso técnico financiado pela empresa, com a garantia de que ao final de sua formação eles pudessem ser aproveitados para trabalhar diretamente na empresa ou indiretamente como prestador de serviço. Em qualquer uma dessas situações eles vão precisar de uma mão-de-obra mais sofisticada.