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Um Rio que você não conhece
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Carlos Calenti Trindade
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas
Então, antes de começar esse texto, fiquei pensando em como reiniciar a coluna, desatualizada há tanto tempo. Muitas coisas aconteceram, claro, e há dezenas de motivos, óbvio, para o tempo afastado: monografiacrisemudançareaclimataçãoetc. Mas eles não são importantes, acho. O importante é toda a minha saudade desse espaço tão importante para mim. Voltar a pensar a literatura, a articular minhas poucas idéias e torna-las mais claras, sobretudo para mim mesmo (espero que não apenas), é muito muito bom.
Nesse processo de investigação de mim mesmo, resolvi escrever sobre o que, afinal, já estão todos acostumados aqui: nossos queridos contemporâneos brasileiros. Dessa vez, o livro Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi, da carioca Cecilia Gianneti. Com a Cecilia eu confesso que há expectativas envolvidas. Conheci a autora pela internet, há uns anos, primeiramente pelo site literário Paralelos, depois pelo próprio blogue dela ( http://www.escrevescreve.blogger.com.br/), além de uns contos em livros e revistas. E sempre gostei bastante do que ela escrevia, principalmente de como ela escrevia, e já esperava o romance de estréia, anunciado há um certo tempo.
E, olha, eu gostei! Primeiro eu me surpreendi - o que é sempre ótimo. Talvez porque das características longas sentenças da escritora, não sei bem, mas eu esperava um romance com uma narrativa mais longa. Menos fragmentada. É bom que se diga que as tais frases compridas estão aqui também, junto com outras características que eu já conhecia e gostava, como o seu humor corrosivo, a sua visão sempre mordaz e incisiva sobre a nossa realidade. E que, depois de mais acostumado, mais imerso naquele universo estranho, percebi que a fragmentação aqui serve completamente à história - por mais que ela possa parecer uma característica bastante contínua na literatura contemporânea, quase onipresente, aqui faz todo o sentido.
O livro nos apresenta a uma jornalista carioca, completamente classe-média, num casamento insatisfatório, obcecada, do alto de um duplex na Lagoa, com a sua aparência e com a violência da cidade que tem que reportar. Numa dessas reportagens, ela presencia o inominável, o tipo de acontecimento que ela sempre tentou neutralizar através da leitura incessante das desgraças da violência carioca: ela enfrenta a morte acontecendo na sua frente, e então entra numa piração desestruturante. Amnésica, ela reconstrói o mundo a sua volta através de uma perspectiva, hmmm, no mínimo louca.
Daí, a estrutura fragmentada da narrativa se adequar perfeitamente à história que se lê. De certa forma o livro nos deixa tão perdidos quanto a personagem está, sendo introduzidos sem apresentação a um Rio de Janeiro em que a prefeitura arranjou um novo jeito para tratar dos moradores de rua (sugando-os pelo esgoto), às reuniões da misteriosa Central do Tédio e à Doca, o menino cuja morte encadeou a trama e que mesmo assim persegue nossa repórter, num lance que me lembrou o Will Self e seu Como Vivem os Mortos.
O clima não-realista desestruturado, a escrita impecável e irônica da Cecília, o seu olhar original sobre alguns temas caros aos brasileiros, como a violência e, pelo menos para a classe média, certo tédio generalizado, definitivamente estavam à altura das minhas expectativas, e, de uma forma que eu não esperava, até acima.
Pra encerrar, um parágrafo do livro:
Enche as folhas com a caligrafia grande e limpa, traços firmes inclinados riscando o papel com palavras inúteis, como uma boca que, colada ao seu ouvido, dita segredos numa voz grave que ela preferia não escutar. O que vivemos aqui é um tipo de morte, diz o obituário recitado pela voz, feita de palavras desconhecidas que sobem do chão, atravessam as paredes carregadas pela fumaça da paranóia enquanto ela rola o corpo entre infernos e alascas numa mesma estação dessa cidade sempre quente onde todos virarão pó, e todos serão vultos de terror espesso e presas desdenhosas, crescendo ao seu redor como muros de chapisco num subúrbio cinza que é cimento cru e tédio. Onde as crianças não têm vontade de brincar na calçada. Ficam trancadas nos quartinhos remoendo pequenas culpas, sofrendo mais que os corpos ardendo de infância deviam agüentar, e agüentam, remorsos sufocados na frente da TV, crescem dali para casulos ainda menores. O crescimento é uma atrofia.
E mais dois:
Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e só quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta - um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?
Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos - sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.
Bons, hã?! E, além de tudo, há que se falar do incrível design gráfico do livro, desde a capa até ás ilustrações internas, tudo criado por Christiano Menezes, que nos colocam ainda mais dentro desse mundo criado por Cecília.
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