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Foto: Divulgação
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Como é freqüente nas obras do italiano Luigi Pirandello, um abismo de culpa está na raiz dos acontecimentos, mas não entrega verdade alguma, apesar da determinação das personagens em cutucar feridas. Ele sonda e aviva assim o nosso olhar de espectador - que gosta de se imbuir da infelicidade dos outros ou perfurar o seu segredo - com a intenção deliberada de não o satisfazer.
Em
Vestir os Nus (Civilização Brasileira, 140 págs, R$ 20 em média) o escritor Ludovico Nota acolhe em sua casa Ercília, uma jovem ama cuja tragédia pessoal é conhecida por todos. Despedida após a morte acidental da criança de quem cuidava, foi abandonada pelo noivo e tentou suicidar-se. Muito rapidamente, no entanto, o leitor se dá conta de que a história de Ercília não reflete a realidade.
De certo modo ela "vestiu" o seu suicídio com uma história que faz dela uma vítima, tal qual uma heroína de romances folhetinescos. Porém, sua tentativa de suicídio não foi fingida e Ercília tem muitos motivos para reivindicar o título de vítima que agora lhe é negado. Aqui, Pirandello faz certamente incidir uma luz premonitória sobre estes processos de vitimização tal como os conhecemos hoje nesses tempos de reality shows.
Vestir os Nus é a segunda obra de uma série de textos revistos e "transubstanciados" por Millôr Fernandes para a editora Civilização Brasileira. Entre roteiros para cinema, peças de teatro e seus mais de 30 livros publicados, Millôr também traduziu clássicos como
A Megera Domada, de Shakespeare,
Antígona, de Sófocles e
Escola de Mulheres, de Molière
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