Hoje Clarice chora para dentro. Para fora, não adianta mais, sabe como é, o tempo, esse remédio esquisito. Não que a ferida tenha se cicatrizado; ela continua lá, aberta e pulsante. Às vezes inventa de doer. Mas aí vem o remédio esquisito e distrai a dor.
Há duas semanas, as feridas da viúva de Vladimir Herzog doeram de uma maneira diferente. Doeram de alegria, ou de alívio, sei lá. De dor? Talvez. Mas doeram de um jeito a que não estavam acostumadas.
Em 29 de agosto, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República lançou no Palácio do Planalto o livro-relatório
Direito à Memória e à Verdade - Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Fruto de 11 anos de trabalho da comissão especial, o livro resgata a história e memória de mais de 400 militantes políticos que foram mortos ou desaparecerem durante os anos de chumbo (1961/1988).
A solenidade contou com a presença do presidente Lula, de familiares de mortos e desaparecidos, representantes de entidades de direitos humanos, intelectuais e autoridades governamentais. E, claro, provocou reações de setores militares. Não é fácil para eles engolir um pronunciamento oficial do Estado sobre um período cujos feitos desabonam certo poder militar.
Clarice Herzog, talvez o maior emblema da luta pelo direito à memória e à verdade do livro, disse em entrevista ao caderno
Aliás, do jornal
O Estado de S. Paulo de 2 de setembro:
Aliás - O Lula falou que esse seria o primeiro passo para virarmos essa página da História.
Clarice Herzog -A expressão foi infeliz. Não se vira uma página como esta. Aliás, esse livro vem para, finalmente, imprimir esta página na História.
A cura definitiva das feridas de gente como a Clarice é um troço que ainda não inventaram (como a cura da Aids). Nome já tem: é Justiça. Quem vai parí-la?
És um senhor tão bonito quanto, a cara do meu filho, tempo, tempo, tempo, tempo...
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Direito à Memória e à Verdade - Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Arquivo .PDF, 8,37 MB).
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