Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'Os historiadores capixabas simplesmente pulam o período de 1916'
Mitos e Verdades sobre Jerônimo
Monteiro e a 'Revolta de Xandoca'





José Rabelo


("Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas". Nietszche)

Namy Chequer, que é jornalista e radialista há 31 anos, e uma das principais lideranças do PC do B no Estado, concluiu recentemente sua tese de mestrado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) - "A Revolta de Xandoca: Desafio à Oligarquia Monteiro no ES (1916)" -, que é, sem dúvida, uma importante contribuição que traz à luz a discussão do que representou de fato o monteirismo e a "Revolta de Xandoca" para a história política capixaba durante a República Velha (1889 - 1930). No estudo, Chequer faz uma profunda revisão historiográfica para desmistificar mitos que fizeram do presidente do Espírito Santo, Jerônimo Monteiro (1908 - 1912), uma das personalidades políticas mais destacadas do século passado no Estado. Com esmero, Chequer vai buscar nos anais do Congresso Nacional a versão dos oposicionistas derrotados na "Revolta de Xandoca", versão essa que ele denominou de "voz dos vencidos". O jornalista afirma que boa parte dos historiadores capixabas aborda essa passagem da história de forma parcial. "Os historiadores, de maneira geral, vão contando normalmente a história dos governadores da República Velha, quando chegam em 1916 eles simplesmente pulam esse período".

Chequer começou como estagiário de jornalismo em 1977, na recém inaugurada Tv Gazeta. Em 1978 foi para A tribuna, trabalhar na editoria de Política. O jornalista, que é nascido em uma (Caparaó), entrou para o PC do B em 1977, quando era estudante de comunicação da Ufes. Nessa época era colaborador do extinto jornal "Posição". Foi vereador por Vitória em 1988 e dirigente do PC do B desde os anos 80.

- Século Diário: Qual era o contexto político no Espírito Santo no início do século XX que propiciou a instalação da oligarquia monteiro?

  
Foto: Riokan
  
- Namy Chequer: Depois do governo de Campos Salles (1898 - 1902), houve uma hierarquização da política brasileira, chamada política dos governadores, que estabelecia um sistema verticalizado que submetia os coronéis aos governadores e estes ao presidente. Nessa época, Minas e São Paulo se revezavam no poder tornando esse período histórico conhecido como 'Política do Café com Leite'. Os outros estados estavam numa situação periférica. E para qualquer um deles entrar no centro desse duopólio precisavam buscar a mediação de Minas ou de São Paulo. Essa era uma época de luta de poder entre coronéis que faziam parte de facções oligárquicas. Essas facções faziam suas composições e assim a política se desenvolvia no Brasil. Com a Proclamação da República, a política no Espírito Santo atravessou um período muito instável. Pelo menos seis governadores tiveram seus mandatos abreviados por conta dessa instabilidade. A política capixaba só vai se estabilizar principalmente a partir do segundo mandato do governo de Moniz Freire (1892 - 1908 e 1900 - 1904). O político forte na época que trabalhava para restabelecer a estabilidade no Espírito Santo era Bernardino Monteiro, irmão de Jerônimo Monteiro. Bernardino era chefe municipal de Cachoeiro - a mais importante cidade da época no Estado - e possuía articulação graças ao seu reduto político. Boa parte da riqueza produzida no Estado com o café partia de Cachoeiro por meio da única ferrovia que havia na época, que ligava o Espírito Santo ao Rio de Janeiro. Moniz Freire fez como seu sucessor Henrique Coutinho (1904 - 1908). Mas a aliança entrou em conflito após a excessiva interferência de Freire no governo de Coutinho. Inclusive, Freire tentou destituir Coutinho do poder. Diante de um Estado endividado, em 1906, Coutinho chama Jerônimo Monteiro, por sugestão do bispo Dom Fernando - irmão de Jerônimo - para sanar as dívidas do Estado. À época, Jerônimo, que era advogado, estava no interior de São Paulo (Santa Rita do Passa Quatro) morando com o sogro. Jerônimo chega ao Espírito Santo com a missão de negociar a dívida do Estado e privatizar a ferrovia Sul Espírito Santo. Moniz Freire gastou 18 mil contos de réis na construção da ferrovia que foi vendida por Jerônimo por 3 mil contos de réis. Esse episódio gerou uma série de denuncias que acusavam Jerônimo Monteiro de corrupção.

- Dentro desse panorama histórico, qual a importância dos coronéis na política local?

- O coronelismo é um fenômeno político datado. Há autores que confundem mandonismo com corenelismo ou clientelismo com coronelismo. O coronelismo aconteceu durante os 40 anos da República Velha. Esse era um período de transição - início da formação do capitalismo no Brasil. Com a Proclamação da República (15 de novembro de 1889) e conseqüentemente com a liquidação das instituições monárquicas, houve um período de muita confusão no Brasil. As classes modernas, como estão constituídas hoje, não estavam consolidadas. Era uma época em que as disputas políticas não se davam a partir do conflito de classes. Desta forma, os coronéis protagonizaram esse período histórico. A patente de coronel surge por volta de 1830, quando o Regente Feijó criou a Guarda Nacional. A patente podia ser comprada, e a prerrogativa não era só de latifundiários. Havia médicos, advogados, comerciantes que tinham a patente de coronel. Os coronéis, na verdade, eram chefes municipais.

Como aconteceu e qual a importância da 'Revolta de Xandoca" para história política do Espírito Santo?

  
Foto: Riokan
  
Em 1916, no final do governo de Marcondes Souza, houve um grande conflito que a oligarquia vitoriosa soube esconder com destreza. A voz dos vencidos eu fui buscar no Congresso Nacional. Felizmente estava tudo lá. O presidente Wenceslau Brás (1914 - 1918) apoiou a oposição no Espírito Santo durante a 'Revolta de Xandoca', que foi simplesmente varrida da historiografia oficial. Os historiadores, de maneira geral, vão contando normalmente a história dos governadores da República Velha, quando chegam em 1916 eles simplesmente pulam esse período. Retomando. Em maio de 1916, são eleitos dois presidentes para o estado do Espírito Santo. A oposição recolheu os votos do município sob sua influência, enquanto a situação recolheu os dela. No mesmo prédio, mas em salas diferentes, a oposição contou seus votos e se declarou vencedora do pleito, elegendo José Gomes Pinheiro Júnior presidente e Alexandre Calmon, o Xandoca, como vice. A situação, por sua vez, elegeu presidente e vice, respectivamente, Bernardino Monteiro e Antonio Francisco Athayde. Os eleitos seriam empossados, cada qual, por um Congresso Estadual também distinto. A duplicação dos Poderes Executivo e Legislativo capixaba gerou um pedido de intervenção federal no Estado. O litígio político no Espírito Santo seria decidido no Rio de Janeiro. De ambas as partes eram enviados telegramas ao Congresso Nacional, ao Senado e à Presidência da República informando às autoridades federais a evolução dos fatos no Espírito Santo. O teor das mensagens eram semelhantes, ambas as facções denunciavam violentas arbitrariedades praticadas pela corrente adversária. Atingia seu ponto de inflexão o "Caso Espírito Santo" - como ficou conhecido nacionalmente o controvertido episódio da sucessão estadual de 1916 -, que envolveu no debate, durante seis meses, as mais importantes lideranças políticas do país. Telegramas da época relatam a morte de diversas pessoas que foram vítimas dos conflitos armados que envolveram diversos municípios do Estado. Cerca de mil pessoas foram obrigadas a abandonar o Espírito Santo fugindo de perseguições políticas.

- Qual era o 'clima' nos dias que antecederam a 'Revolta de Xandoca'?

- Essa situação de impasse na política capixaba resultou num conflito armada entre as duas forças políticas que reivindicavam o poder. Na noite de 22 de maio de 1916, um tiroteio entre jagunços das duas facções, em frente ao Hotel Internacional (antiga rua do Comércio atual avenida Florentino Ávidos) - onde estavam hospedados Pinheiro Júnior, Alexandre Calmon e os deputados eleitos da oposição - acirrou de vez o conflito. O jornalista Luiz Adolpho Thiers Velloso fazia a cobertura dos fatos mantendo informado um oficial da Marinha. Velloso, em 1928, fundaria o jornal A Gazeta, que mais tarde passaria ao controle dos descendentes da família Souza Monteiro. Perto dali, o jornal de oposição A Tarde, seria 'espingardeado' e cercado pela polícia, conforme telegrama enviado à Presidência da República, descrevendo a 'noite de terror' em Vitória. A violência do conflito fez com que a oposição se retirasse estrategicamente da Capital rumo a Colatina, onde se encontrava sua base. Pinheiro Júnior, junto com os deputados eleitos, passou a governar o Estado, por telegrama, de Colatina. Logo em seguida, Pinheiro Júnior transfere a presidência para o vice Calmon e segue para o Rio de Janeiro para articular a decisão da disputa política em favor da oposição.
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