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Foto: Divulgação
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É difícil saber o que exatamente
Esses Moços quer tirar do material que tem em mãos. Na verdade, nunca sabemos que material é esse, mas ousamos suspeitar. Talvez haja ali a história de um velho em busca de sua própria memória, mas cujo projeto é transtornado não só pela animosidade com que é tratado pela realidade como mesmo pela impossibilidade dessa recuperação, uma vez que a memória vai se perdendo aos poucos, num processo contínuo e irrefreável. Paralelo a isso a aventura de duas meninas de rua, em busca de raízes, ou seja, também na mesma tentativa de estabelecer uma conexão com o passado perdido, sem pais, sem família, sem infância. Essas duas histórias (que, lembro, apenas suspeitamos existir, mas não podemos ter certeza) acontecem no contexto da Salvador que não aparece nos cartões-postais - ainda que
Esses Moços nunca resista a um belo plano de paisagem, enquadrando aqui e ali a iconografia clássica ligada ao turismo baiano. É a Salvador selvagem, do submundo, atolada em sua irrealização social. Ou não, uma vez que qualquer afirmação sobre aquilo que se apresenta no filme está completamente suspenso sobre o terreno da imprecisão.
E essa imprecisão é fruto direto da confusão de tons que José Araripe Jr., atrapalhadamente, acomoda em
Esses Moços. Primeiro há o tom fabular, a aventura épica destes três saltimbancos da vida, passando por uma série de situações entre o trágico e o cômico, cruzando reinados, fazendo amigos e inimigos, sendo perseguidos por dragões, até que o destino se encarregue de abraçá-los (com a possibilidade do final feliz, mas também do final aberto, irremediavelmente triste). A fábula supõe a construção clássica, e ela também estará presente, não só na série de tipificações operadas pelo roteiro, mas, sobretudo, na maneira com que Araripe filma essa aventura. Do outro lado, há o chamado à realidade, que aqui funciona como um chamado ao bom senso: é impossível visitar estas ruas, estes becos e galpões da zona portuária, visitar estes personagens marginalizados e sua vida no submundo sem se impregnar de certo senso de responsabilidade social, essa doença do "realismo" que parece atingir o cinema brasileiro contemporâneo, cheio de suar questões urgentes e representações frouxas do que seria a crueza do mundo real.
Estas duas porções, fábula e realismo, não são opostas por si. Mas algo na maneira como Araripe monta estas duas frentes narrativas torna tudo muito incongruente. De um lado, a necessidade de mostrar a organização da vida dos meninos de rua da Cidade Baixa, com suas gangues, seus códigos, seus riscos. Do outro, a materialização deste ambiente na figura de uma série de personagens e situações baseados nos mais estabelecidos clichês. A figura demoníaca do policial, sempre com uma expressão malévola no rosto, encarnando o vilão de folhetim, é o mais evidente dos exemplos. Mas a oposição entre a menina boa e ingênua e a menina má e esperta, o velho louco e "poético", a nora vampira que só quer o dinheiro do sogro, o filho frouxo que não resiste à figura da mulher, o guardião das meninas (um padeiro gay gente-fina), tudo vai se organizando de modo a nunca deixar dúvida sobre o caráter de tudo o que se mostra. A fábula perde sua dimensão fantástica, uma vez que não é gerida pelas regras do mundo dos sonhos, mas pela mais caduca norma comportamental imposta pelas narrativas clássicas, e o realismo nunca sai da esfera do fetiche, uma vez que sua prática é preenchida por estes mesmos modelos rasteiros de representação social.
É, no fundo, uma questão de vontade. Uma questão de se saber aquilo que se quer com um filme - e mais, aquilo que se quer ao fazer um filme no Brasil.
Esses Moços tem uma evidente vontade de contato popular, mas aparece estacionado numa forma de cinema que é velha já há mais de 40 anos, e que, de lá pra cá, foi muito melhor assumida pela dramaturgia televisiva. Do outro lado, no que tem de confrontador com o universo estabelecido das imagens, ou seja, em seu conteúdo onírico, em sua viagem sentimental pela Bahia, pelos rostos e histórias baianas,
Esses Moços nunca consegue parecer realmente pessoal. Uma longa distância separa o filme de Araripe de um
Eu Me Lembro, por exemplo. Para Edgar Navarro, parceiro de geração de Araripe e referência do cinema feito na Bahia, uma história só pode acontecer como tal se passar pelo filtro pessoal e intransferível da sensibilidade daquele que a conta. É daí, desse intermediário entre o mundo e o espectador, desse sujeito que decide onde colocar a câmera, que decide o que filmar ou não, que
Eu Me Lembro tira suas melhores imagens.
Esses Moços, ao contrário, dá a impressão de não ter qualquer intermediação. São uma série de personagens jogados num ambiente, e a simples colocação destes elementos ali parece querer dar conta disso enquanto "filme". Mas, para ser filme, é preciso mais que movimentos de câmera bonitos e gratuitos, planos de reação onde os atores parecem bonecos de ventríloquo sorrindo ou se espantando com aquilo que o mestre mandou fazer. Mais que isso: para ser cinema, é preciso articular estas histórias e estas imagens em nome do imperativo da vontade. E o que quer
Esses Moços, afinal de contas? Muito nos é oferecido, mas a resposta a essa pergunta parece ser "nada".
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